10 Breves Resenhas

Compilei aqui 10 resenhas mais curtas, que publiquei no Facebook, sobre os filmes: “Caçadores de Obras-Primas”, “Uma Aventura Lego”, “Trapaça”, “Gloria”, “A Fita Azul”, “A Grande Noite”, “Pelos Olhos de Maisie”, “Grand Central”, “O Menino e o Mundo” e “Filha de Ninguém”.

 

 

Caçadores Caçadores de Obras-Primas – Dir. George Clooney – 2013

Em sua carreira como cineasta, George Clooney sempre demonstrou ter inclinação a um tipo de cinema que os críticos e diretores da Nouvelle Vague francesa classificavam como “cinema de qualidade”. Geralmente tendo acontecimentos históricos e tramas baseadas em fatos verídicos como alicerces, seus filmes sempre buscam embasar seus temas (amor, amizade, tolerância, política, etc.) através de um contexto que se mostre importante, relevante. Em “Caçadores de Obras-Primas”, Clooney retrata um capítulo específico e pouco conhecido da Segunda Guerra Mundial, mostrando um grupo de estudiosos e colecionadores de arte que são recrutados pelo exército norte-americano com a missão de localizar, resgatar e preservar objetos de valor artístico (quadros, livros, esculturas) roubados das regiões invadidas pelos alemães a mando de Hitler, um apreciador e aspirante a pintor.

Clooney tinha em mãos diversas possibilidades para dar o tom a seu longa, como seguir a linha dos thrillers ou da aventura ao mostrar o trabalho de caça deste grupo de homens. Poderia optar também por realizar uma comédia, já que possui em mãos um grande e subaproveitado elenco coadjuvante de nomes acostumados ao gênero, como Bill Murray, John Goodman, Bob Balaban, o francês Jean Dujardin e o britânico Hugh Bonneville, além de Cate Blanchett e seu amigo, Matt Damon. Mas Clooney opta por tentar mesclar todas essas linhas e termina sem conseguir dar consistência a nenhuma delas. E pior, o diretor ainda acaba não resistindo à necessidade de tratar dos dramas da guerra, caindo em momentos piegas de melodrama ou de um patriotismo excessivo. Características comuns a grande parte dos filmes hollywoodianos que abordam o nazismo.

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Não que Clooney não demonstre certas qualidades, como já o fizera em alguns de seus trabalhos anteriores (“Confissões de Uma Mente Perigosa” ou “Boa Noite e Boa Sorte”). Ele é capaz de criar alguns belos momentos visuais e conduzir sua narrativa sem que ela aborreça, pois o filme até diverte e deixa-se ver sem problemas. Existem também algumas questões significativas sobre o valor e o papel da arte como um elemento fundamental para a construção da história da humanidade e de nossa noção de civilização. Mas ao buscar a todo custo um ar de solenidade para provar o valor de seu trabalho, Clooney acaba apenas atingindo a superficialidade, sem conseguir explorar as ótimas oportunidades oferecidas por sua interessante história real. Diferente de todas as obras mostradas no longa, como as de Michelangelo, Rodin, Cézanne ou Rembrandt, que independente do quão antigas sejam, resistem ao passar do tempo e permanecem atuais, “Caçadores de Obras-Primas” representa um tipo de cinema não só antigo, como ultrapassado.

 

 

1797620_666967176695893_217455432_nUma Aventura Lego – Dir. Phil Lord e Christopher Miller – 2014

Um filme baseado no brinquedo de peças encaixáveis mais vendido do mundo. Uma ideia que a princípio poderia parecer limitada, mas que acaba tendo um resultado até acima do esperado em “Uma Aventura Lego”, de Phil Lord e Chris Miller. Com um leque interminável de possibilidades no campo visual e estético, em seu aspecto narrativo o longa aposta em uma trama de fórmula já consagrada sobre um personagem comum que descobre ser “o escolhido”, e que se vê diante de desafios que o obrigam a deixar sua vida insignificante para realizar algo extraordinário.

Mesmo que sua premissa possa ser batida, o filme sabe como driblar seus clichês ao extrair boa parte de seu humor do grande número de marcas, universos e personagens licenciados pela Lego, como Batman, Superman, “Senhor dos Anéis”, “As Tartarugas Ninjas”, entre outros. Com isso, as piadas e referências à cultura pop surgem em quantidade suficiente para garantir o interesse tanto do público infantil quanto do mais adulto. Utilizando novamente o mesmo estilo de humor frenético, e muitas vezes de puro nonsense, de seus trabalhos anteriores (“Tá Chovendo Hambúrguer” e “Anjos da Lei”), Lord e Miller realizam um longa extremamente ágil e divertido. A dupla de cineastas consegue ainda tirar proveito das limitações de movimentos dos personagens e cenários criados a partir das peças do brinquedo, para empregar um estilo próprio, que parece uma mistura de técnicas 3D e stop motion, mas com um ar retrô que se torna o diferencial do filme.

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Longe de possuir o refinamento dos melhores trabalhos da Disney ou da Pixar, “Uma Aventura Lego”, cumpre bem seu papel de entretenimento, apresentando sempre algum traço de criatividade, até mesmo na inevitável lição de moral presente em quase todos os longas de animação. Lord e Miller encontram uma saída interessante, e até surpreendente, através de uma reviravolta em seu último ato para passar a sua mensagem sobre a liberdade criativa.

 

 

TrapaçaTrapaça – Dir. David O. Russell – 2013

Em “Trapaça”, sua homenagem estilística ao cinema de Martin Scorsese (com direito a longos planos-sequência, travellings, closes acelerados, e até uma pequena participação de Robert De Niro como um mafioso), o cineasta David O. Russell confirma novamente sua principal virtude: o talento para a direção de atores. Assim como em “O Vencedor” e “O Lado Bom da Vida”, O.Russell consegue tirar excelentes atuações de seu grande elenco: Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e com destaque para a caracterização física de Christian Bale.

Com uma trama inspirada em fatos reais sobre golpistas que são obrigados a trabalhar em uma operação secreta do FBI, passada nos anos 70, o diretor realiza um retrato tragicômico da decadência do sonho americano, mostrando a desilusão da população em relação aos políticos e a sua própria nação. Afinal, essa é era do pós-guerra do Vietnã e mancha histórica deixada pelo caso Watergate. Esse viés político é representado de forma muito interessante na figura do prefeito interpretado por Jeremy Renner, que mesmo repleto de boas intenções acaba recorrendo a meios escusos para realizar seus projetos. Outra ótima atuação do longa, que poderia ter sido mais lembrada nas premiações recentes.

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Na relação com a obra de Scorsese, “Trapaça” acaba se aproximando justamente de seu mais recente trabalho, “O Lobo de Wall Street”. Pois o filme coloca o espectador diante de um fato real encenado em uma atmosfera de farsa e de artificialidade. Com seus penteados, figurinos e direção de arte espalhafatosa, O. Russell compartilha da tendência ao exagero caricatural de “O Lobo de Wall Street”. A diferença é que Scorsese leva sua opção ao extremo, atingindo um nível que beira a insanidade, enquanto em “Trapaça”, esses momentos ocorrem apenas esporadicamente. Isso acaba prejudicando o filme, pois essas sequências, como o surto do agente do FBI interpretado por Cooper ou quando Lawrence realiza uma coreografia ao som de “Live and Let Die”, de Paul McCartney & Wings, para fazer a faxina de sua casa, acabam soando deslocadas do conjunto.

Ainda que possua outros defeitos, como sua longa duração que acaba interferindo no ritmo, o resultado final de “Trapaça” é positivo. Seu roteiro de reviravoltas é bem amarrado (como é de se esperar em um filme sobre golpes) e muito bem-humorado. Talvez o filme não possua a importância ou a profundidade que aparentemente lhe vem sendo atribuídas, mas é um trabalho extremamente competente e, acima de tudo, divertido.

 


Gloria
Gloria – Dir. Sebastián Lelio – 2013

Cada vez mais a média da produção cinematográfica se mostra voltada para um público jovem, geralmente adolescente. Com isso, o número de obras que dialogam com uma plateia mais madura, e que abordam temas relacionados a essa parcela dos espectadores, se torna mais escasso. Algo que resulta não só no desinteresse por parte desse público, como cria dificuldades para que atores mais velhos, inclusive os mais renomados, encontrem bons papéis protagonistas. Por esse motivo, é ainda mais gratificante assistir a um longa como o chileno “Gloria”, de Sebastián Lelio.
A trama do filme mostra o cotidiano da personagem-título, uma mulher na casa dos 50/60 anos, divorciada há 12, que divide seu tempo entre o trabalho, o relacionamento com os filhos e as baladas que frequenta para flertar e saciar o seu prazer pela dança. É em uma dessas saídas noturnas que Gloria conhece Rodolfo, homem também divorciado, com quem inicia uma relação intensa, porém conturbada.

“Gloria” é um típico estudo de personagem, em que o sucesso da proposta depende essencialmente de sua intérprete, e o diretor Lelio não poderia ter encontrado uma melhor do que a atriz Paulina García. Em uma atuação premiada no último Festival de Berlim, a chilena se agarra corajosamente ao papel, apresentando uma composição cheia de sutilezas e de entrega total, emocional e fisicamente, pois Lelio explora a alma e o corpo de Gloria na mesma proporção. Além de uma magnífica protagonista, o filme de Lelio possui outros méritos, como personagens coadjuvantes interessantes, uma condução segura e capaz de gerar belos momentos visuais e dramáticos, como na sequência do Cassino, e também um ótimo trabalho musical. A trilha sonora (que inclui músicas de artistas brasileiros, como Tom Jobim e Rita Lee) é fundamental para delinear as emoções de Gloria e o desenvolvimento da história.

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O cineasta encontra ainda espaço para traçar um paralelo entre o momento da vida de Gloria e o momento sócio-político de seu país. Assim como quase todas as nações sul-americanas, o Chile também passa por mudanças, com sua juventude indo às ruas e lutando por seus direitos. E seja com uma reportagem na TV, uma passeata ou um panelaço realizado pelos moradores dos prédios de Santiago, este clima de mudança está sempre presente como pano de fundo do filme. Como cita um dos personagens, um sociólogo amigo de Gloria, o Chile da atualidade não possui uma identidade definida. É uma réplica do passado que conflita com os novos tempos e com a cultura de sua população mais jovem. O mesmo acontece com Gloria, que busca se reencontrar, se reinventar, seja no amor ou no modo de encarar sua vida, mas passa por dificuldades para se afirmar nesse novo espaço. E acompanhar os percalços e descobertas desta jornada da personagem é o grande prazer gerado pelo filme.

 

 

Fita AzulA Fita Azul – Dir. Rebecca Thomas – 2012

A sinopse de “A Fita Azul”, elogiado trabalho de estreia na direção da atriz Rebecca Thomas, é inusitada e interessante: em uma pequena comunidade mórmon norte-americana, a jovem Rachel, de 15 anos, descobre uma antiga fita K-7 de cor azul no porão de sua casa. Ao ouvir uma versão da canção “Hanging on the Telephone”, do Blondie, interpretada por uma voz masculina, Rachel descobre estar grávida, mesmo ainda sendo virgem. A garota acredita que a gravidez seja resultado da vontade divina, e que o dono da voz na fita seja o homem destinado a ser seu marido. Os pais de Rachel, por sua vez, desconfiam de um incesto praticado pelo irmão, expulsam o garoto da comunidade e arranjam um casamento forçado para a filha. Diante da situação, Rachel foge pelo deserto na caminhonete da família rumo à Las Vegas, onde acredita que irá encontrar o cantor da fita azul.

A diretora de primeira viagem consegue manter o interesse de sua trama peculiar, através de uma jornada de descobertas, e auxiliada pelo carisma de seus atores, em especial Julie Garner no papel de Rachel e Rory Culkin, como Clyde (em uma referência clara ao clássico personagem de “Bonnie & Clyde”), um jovem delinquente que cruza o caminho da garota grávida. Thomas ainda acerta em suas escolhas visuais, com alguns planos muito bem concebidos, mas falha ao optar por uma narrativa de leveza excessiva, que evita se aprofundar nos temas polêmicos que levanta. E não necessariamente por sua opção de não explicar a natureza sobrenatural da gravidez de Rachel, já que isso se mostra um acerto, deixando um bem-vindo espaço para a imaginação do espectador. Mas sim por tratar superficialmente tópicos com grande potencial dramático, como religião, preconceito, fé, ou até mesmo amadurecimento de sua personagem principal.

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Mesmo que pretenda ser um filme de formação, seguindo a fórmula dos road movies, as mudanças drásticas ocorridas na vida de Rachel são pouco exploradas. Nem mesmo o contraste entre a vida na cidade das luzes e do pecado (Vegas) e na aldeia mórmon ganha o destaque merecido.

Apesar de sua embalagem indie, “A Fita Azul” termina sendo um produto bem convencional e comercial. Um produto agradável, simpático e divertido, é verdade, mas que sabota sua aparente pretensão (e potencial) inicial de oferecer algo diferenciado.

 

 

Grande NoiteA Grande Noite – Dir. Gustave de Kervern e Benoîte Delépine – 2012

“A Grande Noite”, dos franceses Gustave de Kervern e Benoîte Delépine, mostra a relação entre dois irmãos, Not (Benoîte Poelvoorde) um punk de 40 anos, que vive vagando pelas ruas acompanhado de seu cachorro, e Jean-Pierre (Albert Dupontel) um vendedor de uma loja de colchões, que enfrenta problemas em seu trabalho e também em seu casamento, com a esposa lutando pela guarda de sua filha recém-nascida. Seguindo o estilo de seus trabalhos anteriores, como “Mamute”, a dupla de cineastas adota um tom que beira o surrealismo, mas que poderia ser melhor definido como grotesco.

Com seus personagens excêntricos e situações bizarras, os filmes de Kervern e Delépine por vezes lembram o trabalho do norte-americano John Waters. Assim como o realizador de “Pink Flamingos”, a dupla francesa também tende a retratar o cotidiano das classes mais baixas e suas figuras marginalizadas, excluídas, através do humor. Um humor que em grande parte do tempo provoca um riso diferente, incômodo. Em “A Grande Noite”, os cineastas trabalham em uma chave claramente política, situando praticamente toda a ação do longa em um centro comercial de outlets, lojas de departamentos e alimentação, para atacar os efeitos do capitalismo. Ao assumir seu posicionamento de crítica social, o filme até consegue elaborar questionamentos pertinentes sobre a crise econômica europeia atual, sobre o consumismo, sobre a vigilância exercida pelos altos escalões ou sobre a alienação da classe média e sua passividade ao não se unir e não se rebelar contra o sistema.

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O problema de “A Grande Noite”, assim como dos filmes anteriores da dupla, é atingir apenas um meio termo. E isso se dá pela clara indecisão dos diretores. A começar pelo contraste entre a essência surreal de sua trama/personagens e a estética realista e crua utilizada no longa, que causa um ruído em sua comunicação. Além disso, o discurso crítico por vezes se confunde com o simples deboche. E seus personagens, apesar de chamarem a atenção por sua excentricidade, quase sempre se mostram unidimensionais, em especial os coadjuvantes, como os pais dos irmãos protagonistas.

Com isso, Kervern e Delépine terminam criando sua própria armadilha, pois os elementos visivelmente interessantes de seu trabalho acabam não conseguindo atravessar sua embalagem artificial de bizarrices e estranhezas. Assim como Not e Jean-Pierre, que se vêem aprisionados em um microuniverso capitalista, os cineastas também parecem se isolar em sua busca por um estilo autoral, impedindo muitas vezes que o público também faça parte de seu universo particular. E enquanto não perceberem a importância desse envolvimento da plateia, Kervern e Delépine nunca conseguirão realizar uma obra plenamente satisfatória.

 

 

Olhos de MaisiePelos Olhos de Maisie – Dir. Scott McGehee e David Spiegel – 2012

“Pelos Olhos de Maisie”, da dupla Scott McGehee e David Spiegel (“Até o Fim”), adapta o livro homônimo de Henry James sobre a disputa judicial entre um casal recém-separado, pela guarda de sua jovem filha, Maisie. Ao atualizar a trama para os dias atuais, já que o livro de James foi publicado em 1897, McGehee e Spiegel realizam diversas alterações no texto original, mantendo apenas a sua essência sobre os efeitos traumáticos de uma separação na vida de uma criança. Nessas alterações, as figuras dos pais acabam sendo menos desenvolvidas do que deveriam, mas, ainda assim, Julianne Moore e o britânico Steve Coogan conseguem dar dignidade a seus papéis, como pais que, apesar do amor pela filha, mostram-se egocêntricos e visivelmente despreparados para a vida em família, preocupados mais em trocarem provocações do que com o bem-estar de sua filha.

Mesmo com suas imperfeições, o filme acerta no tom, sem soar superficial demais e sem pesar a mão no melodrama. Em meio ao sentimento de incredulidade gerado pela negligência e pelas atitudes irresponsáveis dos pais, ainda há espaço para momentos de leveza, especialmente quando entram em cena os carismáticos personagens de Joannna Vanderham e Alexander Skarsgård, figuras que criam um grande afeto pela garota. Mas o grande trunfo do longa é mesmo a jovem revelação Onata Aprile, no papel de Maisie. Com naturalidade e um olhar que transmite uma constante melancolia, Aprile consegue com que o público perceba o amadurecimento forçado da personagem com poucas palavras e muita expressividade.

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Assim, a jovem atriz foge do estereótipo de “criança prodígio que age como um adulto”. Independente de sua pouca idade, Maisie parece ter consciência de tudo que a rodeia, mas reage a isso como uma criança real, emocionando por mostrar sua fragilidade de maneira verdadeira, sem exageros. E para um filme que desde o título se propõe a oferecer uma experiência através de um olhar infantil, essa atuação natural é fundamental para um bom resultado.

 

 

Grand CentralGrand Central – Dir. Rebecca Zlotowski – 2013

Um dos melhores filmes exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2013, “Grand Central”, segundo longa da diretora francesa Rebecca Zlotowski (“Belle Épine”), confirma o talento de sua realizadora, apresentando uma mise en scène crua e direta, que por vezes lembra os melhores momentos de sua compatriota, Claire Denis.

Através da trama que narra um romance proibido entre dois jovens, Gary (Tahar Rahim, de “O Profeta”) e Karole (Léa Seydoux, de “Azul É a Cor Mais Quente”), que trabalham em uma usina nuclear no interior da França, Zlotowski retrata a crise econômica europeia pelos olhos de uma parcela da população de seu país que vive às margens do rio que rodeia a comunidade, e também às margens da sociedade. A imagem das torres da usina, sempre ao fundo da paisagem, se torna uma ameaça, um lembrete constante da vida contaminada dessas pessoas e dos riscos de uma paixão avassaladora, filmada pela cineasta com extrema urgência, explorando de forma intensa os corpos de seu casal protagonista.

Esse caráter urgente permeia todo o longa, em que o passado de seus personagens, em especial o de Gary, surge sempre nebuloso e o futuro permanece incerto e misterioso. Com isso, Zlotowski fixa-se com todas as suas forças no presente tumultuado e desesperançoso, repleto de sentimentos conflitantes dos habitantes de seu universo particular. Um universo que apresenta reviravoltas dramáticas consistentes, onde potenciais vilões são humanizados e heróis tornam-se cada vez mais dúbios moralmente. Essa inversão de expectativa é feita com naturalidade e sem pré-julgamentos em relação aos personagens, mantendo intacta a sua complexidade.

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Com um estilo seco e pessimista, Zlotowski mostra que uma paixão pode ser tão intoxicante quanto o material radioativo de uma usina nuclear. O amor pode ser perigoso, pode ser letal. Como deixa claro em seu plano derradeiro, o som opressor do sinal de alerta de contaminação da usina, que permanece ecoando na mente do espectador durante e após os seus créditos finais.

 

 

Menino e o MundoO Menino e o Mundo – Dir. Alê Abreu – 2013

Não só dentro da produção nacional, mas de modo geral no cenário de seu segmento, “O Menino e o Mundo”, segundo longa de Alê Abreu (“Garoto Cósmico”) surge como uma das mais belas animações do cinema recente. Partindo da simplicidade do traço utilizado para representar seu personagem principal, e da singela história de um garoto que parte para a cidade grande em busca do pai, que deixou a fazenda da família atrás de trabalho e de obter melhores condições de vida para mulher e filho, Abreu utiliza diversas técnicas de animação (aquarela, giz de cera, lápis pastel e recortes) para contar sua fábula em um tom extremamente poético. A trama reserva momentos realmente tocantes, incluindo uma virada narrativa inteligente e inspirada, que surge de forma natural no longa.

Aliado ao incrível trabalho de composição visual, o cineasta conta também com um cuidadoso estudo sonoro, que inclui uma trilha musical marcante a cargo de diversos artistas dos mais variados estilos, como Naná Vasconcelos, Emicida, Os Barbatuques e GEM – Grupo Experimental de Música. Ao optar por uma narrativa fantasiosa, aproveitando a criatividade e a imaginação do universo infantil, Abreu torna seu trabalho atemporal e ainda abre brechas para fazer críticas sociais sobre o consumismo e a desigualdade de classes.

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Essa capacidade de mesclar gêneros e temas com tanta sensibilidade, coloca “O Menino e o Mundo” ao lado dos melhores momentos da Pixar, e de outros grandes nomes da animação mundial, como o japonês Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”), o francês Sylvain Chomet (‘O Mágico”) ou o holandês Michael Dudok de Wit (“Pai e Filha”). Mesmo com as comparações sendo pertinentes, outro dos grandes méritos da animação é exatamente buscar ser um produto único, com uma identidade própria. Isso fica claro não só nas escolhas estéticas, como também na opção por utilizar o “português ao contrário”, como idioma dos raros diálogos da projeção. Esse artifício, além de tornar a experiência ainda mais lúdica, também sintetiza o resultado final deste trabalho, que apresenta características e elementos tipicamente brasileiros, mas consegue atingir a todos os tipos de público, através da linguagem mais universal que existe: a dos sentimentos.

 

 

Filha de Ninguém (1)Filha de Ninguém – Dir. Hong Sang-soo – 2013

É bem raro que três longas de um mesmo diretor cheguem aos cinemas brasileiros no mesmo ano, como foi o caso do sul-coreano Hong Sang-soo em 2013. Depois dos ótimos “Hahaha” e “A Visitante Francesa”, Sang-soo lança “Filha de Ninguém” o melhor dessa trinca. Continuando a trabalhar temas como os relacionamentos, a solidão e as desilusões amorosas, o cineasta apresenta mais uma vez uma narrativa fragmentada, marcada por seu estilo naturalista de longos planos sem cortes, com zooms rápidos e repentinos, para tratar do envolvimento da bela jovem Haewon com seu professor (e também diretor de cinema, elemento recorrente nos filmes de Sang-soo), Sung-Joon.

Da 7ª Sinfonia de Beethoven que o professor escuta em um velho toca-fitas, passando pelos cenários de templos, fortes, bustos de personagens históricos e bibliotecas, tudo faz com que “Filha de Ninguém” seja um filme sobre o passado, sobre o valor das memórias, sejam essas memórias quase esquecidas ou as que ainda deixaremos como herança na mente de outras pessoas. Os diálogos que vão das situações mais triviais a análises filosóficas, aliados a momentos que flertam com a fantasia, como o encontro da jovem com a atriz Jane Birkin ou o personagem do professor que vive nos Estados Unidos, ajudam a consolidar a imagem de quebra-cabeças de sua trama.

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O cinema de Hong Sang-soo definitivamente não apresenta respostas fáceis, deixando muito espaço para interpretações e reflexões. Mas sua proximidade com temas tão cotidianos e de fácil identificação, nunca deixa que seus filmes soem prepotentes ou vazios. Pelo contrário, a experiência é sempre agradável, com seu aparente desapego formal escondendo uma bem calculada mise en scène. E este melancólico “Filha de Ninguém”, que encanta pela espontaneidade e fragilidade, assim como sua personagem principal, é mais um belo exemplo da habilidade de seu diretor.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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