Ela – Dir. Spike Jonze – 2013

her_xxlg

Nos anos 90, o norte-americano Spike Jonze tornou-se um dos principais nomes do mundo dos videoclipes. Responsável por vídeos icônicos, como “Sabotage” dos Beastie Boys, “Buddy Holly” do Weezer, “Praise You” e “Weapon of Choice” do Fatboy Slim, Jonze passou a ser reconhecido como um dos mais criativos e inovadores profissionais da área. Criatividade que o acompanhou em sua transição para o cinema, e que permanece intacta em seu quarto e mais recente longa-metragem, “Ela”. Após dois trabalhos cultuados em parceria com o roteirista Charlie Kaufman (“Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”) e “Onde Vivem os Monstros”, uma adaptação do livro infantil de Maurice Sendak, Jonze trabalha a partir de um roteiro próprio e original pela primeira vez.

Na trama de “Ela”, situada em um futuro não definido, mas também não muito distante, acompanhamos a trajetória de Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor de “cartas feitas à mão”, que vive um dia a dia solitário, como demonstra seu grande apartamento quase sem mobília, e ainda enfrentando os traumas deixados pelo fim de seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Após assistir a uma publicidade no caminho para o trabalho, Theodore adquire um novíssimo software para controlar suas tarefas diárias. Um sistema que promete ser muito mais moderno e inteligente, capaz de manter uma interação quase humana com seu usuário.

Aos poucos, o S.O (Sistema Operacional), chamado Samantha e dono da voz rouca e sexy de Scarlett Johansson, começa a criar sentimentos aparentemente humanos em relação a Theodore, demonstrando um afeto que é correspondido pelo escritor e que o leva a se apaixonar pela voz que parece compreendê-lo como ninguém havia compreendido até então. Mas seria essa paixão real? Samantha estaria mesmo desenvolvendo sentimentos humanos ou tudo não passaria de uma representação artificial implantada pelos criadores do sistema?

her-screen-shot

Essas são apenas as questões iniciais levantadas pelo filme, que se aprofunda muito mais no modo como o ser humano encara o amor e os relacionamentos. A princípio as respostas podem parecer fáceis. Theodore é um homem introspectivo, que ainda não se recuperou de um término de casamento e que cria para si dificuldades para se relacionar com outras mulheres, o que tornaria compreensível o seu apreço por Samantha, um sistema que possui uma capacidade além da humana de raciocínio, que tem acesso a todos os dados sobre a vida de Theodore, e que, como sendo um objeto de posse do personagem, teria a obrigação de agradá-lo.

Mas Jonze narra tudo com uma sensibilidade extrema, que nos faz crer durante todo o tempo que esta relação é sincera, verdadeira. E isso se deve a um conjunto de escolhas acertadas do diretor e de seu elenco, começando pela representação do futuro proposta pelo cineasta. As luzes dos prédios da grande metrópole à noite (a trama se passa em Los Angeles, mas o longa foi rodado em Xangai). Os ambientes cleans e minimalistas, a fotografia composta por cores de tom sépia, e os figurinos retrô seguem uma tendência que já acompanhamos atualmente, mas Jonze toma o cuidado de nunca se tornar “hipster” demais, para que um público mais amplo ainda consiga se identificar que este universo. A tecnologia, apesar de muito mais avançada, não nos parece impossível. Afinal, hoje em dia já é comum vermos as pessoas a nossa volta caminhando e falando em celulares através de fones, realizando afazeres profissionais e pessoais em seus iPhones, etc. Tudo isso faz com que, mesmo sendo futurista, o filme transmita uma sensação de realismo.

The-future-according-to-Her-ss-4

Jonze abre espaço para a reflexão sobre a relação do homem com a tecnologia, que ao mesmo tempo em que rompe fronteiras para a aproximação, acaba isolando e afastando muitas pessoas do convívio social. O acerto do diretor é nunca julgar essa relação, pois para ele, não há como ter garantias de que a pessoa que está andando de mão dadas com seu parceiro pelas ruas seja realmente mais feliz do que aquela que está em um chat online, através de seu celular. Outro acerto do filme está na construção do personagem de Theodore. Mesmo que demonstre dificuldades para se relacionar novamente com uma mulher, como no encontro arranjado por amigos com a personagem interpretada por Olivia Wilde, Theodore nunca é mostrado como um antissocial de forma exagerada. À sua maneira, tímida, o escritor consegue manter amizades no trabalho e com colegas de faculdade, como Amy (Amy Adams).

O trabalho de Phoenix na pele de Theodore é impecável. Através de uma composição que vai de trejeitos sutis, ao visual de bigode e óculos de armação grossa, o ator entrega uma atuação sensível e melancólica, mas que também guarda momentos de bom-humor, por vezes até escrachado, como na cena em que faz sexo virtual, com direito a um desfecho bizarro, através de um bate papo. Ou nas sequências em que interage com um desbocado personagem de seu jogo favorito de videogame. Louvável também é o trabalho de Scarlett Johansson, que mesmo limitada por utilizar apenas a sua voz, consegue transmitir todos os dilemas de Samantha ao incluir pequenos toques de humanidade em suas falas, como gaguejar ou suspirar entre as palavras, algo que é questionado por Theodore e que gera a primeira briga do casal. Mesmo sem estar fisicamente na tela, é possível sentir a presença de Johansson em cena, e isso é fundamental para que o público possa entender o que Theodore sente. A sequência da primeira “transa” dos personagens é o exemplo perfeito dessa conexão, e ganha ainda mais força através do toque de gênio de Jonze ao deixar a tela totalmente preta, para que possamos apenas ouvir o momento catártico de prazer entre Samantha e Theodore.

usada7

O diretor ainda consegue aproveitar muito bem o talento musical de Johansson em uma das mais belas cenas de “Ela”, quando Samantha e Theodore (tocando ukelele) interpretam a canção “The Moon Song”, composta pelo próprio Jonze e por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs. Aliás, a trilha sonora composta pelo grupo Arcade Fire, com quem o cineasta já havia trabalhado no clipe de “The Suburbs”, também merece destaque, sempre atmosférica e delineando com perfeição as emoções do longa.

Sem optar por soluções óbvias ou clichês, “Ela” consegue fazer refletir e encantar na mesma medida. A conclusão de Jonze é que o amor sempre será baseado naquilo que projetamos sobre e em relação ao outro. “O passado não é nada além das histórias que contamos a nós mesmos”, diz Samantha em uma de suas conversas com Theodore. Nossas memórias, assim como nossos amores, são sempre idealizadas de alguma forma. Da mesma maneira que os sentimentos dos clientes de Theodore são idealizados através das palavras nas cartas escritas pelo personagem. Algo que não torna essas memórias e sentimentos menos reais, mas apenas representações pessoais de como encaramos essa realidade.

her

A paixão de Samantha por Theodore vem daquilo que este ensina e mostra a ela. Coisas que, mesmo com seu sistema avançado, ela não poderia compreender. Ele, por sua vez, se encanta por alguém com esta sede por conhecimento, por novas experiências, descobertas e emoções, e sente-se realizado por transmiti-las a Samantha. Essa troca de experiências é o que faz com que possamos evoluir. E aí, ao utilizar a tecnologia, algo que vive em constante evolução, como um de seus elementos principais, Jonze amarra a sua metáfora de forma brilhante. Crescer e se desenvolver ao lado de alguém pode, com o passar do tempo, se tornar extremamente difícil, mas sempre continuará a ser o maior dos prazeres de estar apaixonado.

Por Leonardo Ribeiro

 

 

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: