Crônica do Fim do Mundo – Dir. Mauricio Cuervo – 2012

AFICHE (525x750)

De acordo com antiga profecia do povo Maia, o ano de 2012 marcaria o fim do mundo que conhecemos. Esta possibilidade, e as diversas reações causadas por ela, servem como pano de fundo para a trama de “Crônica do Fim do Mundo”, do colombiano Mauricio Cuervo. Às vésperas da virada do ano, acompanhamos o dia a dia de Pablo Bernal (Victor Hugo Morant), um professor aposentado de 70 anos, viúvo, que vive recluso e solitário em sua casa, recebendo esporadicamente a visita de seu filho, Felipe (Jimmy Vasquez).

Ranzinza e dono de um humor ácido, Pablo segue uma rotina monótona entre seus antigos livros, horários marcados para tomar seus remédios e ligações para cancelar a assinatura de uma revista. Com a eminência do apocalipse, Pablo resolve passar seus últimos dias telefonando para todas as pessoas que o ofenderam ou lhe fizeram algum mal, para tirar a limpo suas desavenças, descarregando suas mágoas e se divertindo com isso. Em um desses telefonemas, porém, o idoso é confrontado pelo filho de um de seus desafetos, que o ameaça de morte. Surpreso com o fato inesperado, Pablo passa a viver uma constante paranoia, com medo que ameaça seja cumprida.

Filmado em poucos dias e com um orçamento baixíssimo, o longa de estreia de Cuervo é um verdadeiro produto do cinema independente, construído de pequenos acontecimentos cotidianos para fazer um estudo de seus personagens. E o diretor consegue levantar questões interessantes ao contrapor os dramas de Pablo com os de seu filho, que passa por uma crise matrimonial e profissional. As dificuldades financeiras colombianas, bem como a da classe média da América Latina em geral, também se mostram um ponto importante para a trama. Para Felipe, não ser capaz de prover uma vida confortável para sua esposa e filho recém-nascido representa o seu maior temor.

cronica-del-fin-del-mundo-5

Cuervo utiliza a profecia Maia como uma metáfora para mostrar que o mundo de cada um pode ter fim a qualquer momento e pelos mais diversos motivos. Para Pablo, a morte trágica de sua esposa em um atentado à bomba marcou o fim de seu mundo, e por isso o personagem passou mais de 20 anos dentro de casa, evitando o contato com o exterior. O filme mostra de maneira inteligente, através da direção de arte e objetos cênicos da casa de Pablo, como o personagem parou no tempo na tentativa de recriar e reviver os momentos ao lado da esposa. Da mesma maneira, Felipe vê a possibilidade do apocalipse de seu mundo quando, após mais uma discussão, sua esposa sai de casa levando o filho do casal.

Mesmo com todas essas interessantes observações e uma curta duração, por vezes o longa parece esticar suas ideias sem necessariamente desenvolvê-las. Todas as sequências que envolvem um amigo de Felipe que vê no fim do mundo um a oportunidade de negócios e que tenta reconquistar a namorada que o abandonou, por exemplo, parecem sem um propósito definido e não acrescentam muito à trama. As belas cenas em que Felipe mostra ao pai imagens das ruas de Bogotá gravadas pelo seu celular possuem um apelo nostálgico e sensível, já que é através destes vídeos que Pablo tem o mínimo de contato com o presente e com as mudanças que ocorreram em seu país, mas esses momentos também se alongam além do que deveriam.

78385_5302_es_fotografia_678_ (670x276)

O filme também carece de mais surpresas em seu roteiro, caminhando para resoluções até certo ponto previsíveis, o que evidencia a falta de experiência de seu diretor. De qualquer modo, é um trabalho que possui qualidades suficientes para garantir o interesse, especialmente suas ótimas atuações, com grande destaque para Victor Hugo Morant como Pablo, alternando entre a comédia nas tiradas irônicas do personagem e momentos mais dramáticos.  E só o fato de representar uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre uma cinematografia tão rara quanto a da Colômbia, já seria um bom motivo para conferir este “Crônica do Fim do Mundo”.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: