Fruitvale Station: A Última Parada – Dir. Ryan Coogler – 2013

fruitvale_station_ver2

Na noite da virada de ano de 2008 para 2009, um grupo de jovens negros envolve-se em uma confusão dentro de uma estação do metrô, em Oakland, na Califórnia. Ao ser acionada, a polícia local age de maneira opressora, excessiva e intolerante, criando um clima de tensão que leva um dos oficiais a disparar sua arma. Este incidente real, que gerou uma série de atos de revolta contra o racismo e o abuso da força policial nos Estados Unidos, é retratado em “Fruitvale Station: A Última Parada”, longa-metragem de estreia do diretor Ryan Coogler. O filme segue mais especificamente as 24 horas que antecedem o incidente na vida de um dos envolvidos, o jovem Oscar Grant (Michael B. Jordan), de 22 anos. Ao longo da projeção, acompanhamos Oscar em sua luta cotidiana para conseguir um novo emprego, se reaproximar da esposa e criar sua filha, além de conhecermos mais detalhadamente o seu relacionamento com a mãe, amigos e seu envolvimento com a criminalidade.

Coogler adota abertamente uma posição passível de discussão na maneira como retrata a figura de Oscar. Fica claro o desejo de tornar o personagem o mais próximo possível do público, para que este possa se identificar com o protagonista. Os defeitos do personagem não são omitidos, é verdade, ele admite uma traição conjugal à esposa, é mostrado traficando drogas em pequenas quantidades e, através de um flashback, descobrimos que também já esteve preso. Mas existe um visível esforço em evidenciar seu lado mais nobre, particularmente no relacionamento carinhoso com sua pequena filha e na vontade de mudar os rumos de sua vida ao lado da família. Por não ser possível ter certeza absoluta do que é real ou de quais partes são ficcionalizadas, julgar essa escolha dramática também se torna uma tarefa complicada. Em determinados momentos, o diretor pesa a mão nessa martirização do personagem, mas ao mesmo tempo, esta abordagem parece ser o meio necessário para validar a denúncia que propõe fazer.

fruitvale-station-still-5-e1373650950544

Em tempos em que a banalização da violência atinge um nível preocupante, e em que boa parte da população se mostra cada vez mais indiferente a casos extremos como o narrado no longa, dar um nome e um rosto para uma vítima não parece ser mais suficiente. É preciso que se crie algum laço emotivo, para que o público compreenda que acontecimentos assim não podem se tornar uma rotina, que não podem ser ignorados e que deve haver uma reação tanto da população quanto do Estado na luta contra atos de preconceito (racial, de classes ou de qualquer outro tipo). Essa indiferença, que o cineasta busca simbolizar em cenas como a em que um cachorro é atropelado e Oscar pede por ajuda sem obter uma resposta, não pode ser a regra.

O diretor utiliza um estilo quase documental, com muita câmera na mão e imagens granuladas, sempre acompanhando cada momento do dia de Oscar de maneira bem próxima, gerando a conexão necessária com os espectadores. E aí deve ser elogiar a sua habilidade na direção de atores e principalmente a impecável atuação de Michael B. Jordan, tornando Oscar extremamente humano, entre todas as suas qualidades e defeitos. O ator realmente comove por sua naturalidade no papel, em um trabalho que faz jus ao status conseguido por ele, que se tornou um dos jovens atores mais requisitados de Hollywood na atualidade. O elenco de apoio segue a mesma linha, com destaque para a experiente Octavia Spencer como a mãe de Oscar.

FRUITVALE

Desde a sua primeira cena, com imagens reais do incidente gravadas por câmeras e celulares de testemunhas, o tom trágico e pessimista toma conta de “Fruitvale Station: A Última Parada”. Em seu terceiro ato, quando a carga emocional cresce consideravelmente, Coogler demonstra sua falta de maturidade na condução do longa. O cineasta alterna belos momentos singelos e poéticos, como o da queima de fogos, com momentos de melodrama excessivo, como nas cenas do hospital. Uma oscilação natural para um trabalho de estreia.

Mesmo com sua tragédia anunciada, o filme ainda consegue com que sua resolução seja impactante o suficiente para torná-lo relevante, especialmente quando pensamos em tantos fatos recentes ocorridos em nosso próprio país. A força dessa história real consegue se sobrepor aos pontuais defeitos que sua dramatização possa apresentar. Acima de tudo, a importância de “Fruitvale Station: A Última Parada” está nas discussões pertinentes que é capaz de levantar.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: