São Silvestre – Dir. Lina Chamie – 2013

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Além de encerrar o ano esportivo no Brasil, em 2013, a corrida de São Silvestre também encerra o ano cinematográfico, através do excelente documentário realizado pela cineasta Lina Chamie (“A Via Láctea”). Extremamente arrojado em sua proposta, e plenamente feliz na execução da mesma, “São Silvestre” oferece um olhar minucioso e intenso, não só sobre a famosa prova de atletismo, mas também sobre a cidade de São Paulo. Chamie ousa ao optar por um formato não convencional de documentário, abandonando depoimentos, narração de fatos históricos ou qualquer outro elemento ilustrativo sobre o passado da prova (com exceção de um pequeno trecho de imagens de arquivo, utilizado com precisão próximo ao final do longa). Ao deixar esse didatismo comum aos filmes documentais, a diretora aposta em uma experiência de imersão, colocando o espectador como um dos atletas no centro da corrida, através da figura do ator Fernando Alves Pinto, que se preparou durante seis meses e realizou a prova completa em 2011.

O registro de Chamie vai muito além da realização da prova e da massa humana que dela participa, captando com rara sensibilidade pequenos momentos que compõem um quadro amplificado do evento. O público que vibra com os maratonistas anônimos, os copos de água jogados pela rua, a senhora que parece alheia a tudo enquanto cuida de sua sacola, um assovio da canção-tema de “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, quando uma das corredoras aparece fantasiada de Emília. Todos esses pequenos acontecimentos espontâneos formam um mosaico que traduz a pluralidade de uma cidade tão cosmopolita quanto São Paulo.

Com esse material em mãos, Chamie realiza um verdadeiro mapeamento da capital paulista, dando atenção especial a diversos cenários do cotidiano do paulistano, e que muitas vezes terminam passando despercebidos em meio ao ritmo incessante de suas vidas. Através de um excepcional trabalho de edição e de um cuidadoso exercício de som, o longa, que não possui diálogos, constrói suas sequências ao ritmo de sua trilha sonora. Ora utilizando música incidental, como a Sinfonia Nº1 de Mahler, ou a ópera que se ouve ao passar pelo Teatro Municipal, ora utilizando apenas a respiração de Fernando Alves e os passos dos corredores, Chamie dita a cadência de seu longa como em uma dança.

São Silvestre 2 (650x290)

Um exemplo claro dessa consciência musical é a sequência em que o trânsito da Avenida Paulista em um dia de chuva se transforma em um verdadeiro balé, com o movimento dos carros. É nessa sequência que se encontra o que talvez seja o melhor momento do filme, quando os motoristas de dois automóveis, um homem e uma mulher, param em um farol. Chamie cria uma atmosfera que mistura romance e suspense, fazendo com que o espectador torça por uma troca de olhares do possível futuro casal, dilatando ao máximo a sensação de tempo daqueles segundos de farol vermelho. Sem dúvidas um dos mais belos e geniais momentos do cinema nacional recente. Esse complexo trabalho sonoro é completado por sons do cotidiano que se misturam de forma totalmente homogênea à trilha sonora, como o alarme de um carro ou o forró que ecoa em um bar do centro de São Paulo.

Visualmente o filme também se mostra impecável, com enquadramentos sempre bem pensados, que variam entre panorâmicas, closes e muita câmera na mão, já que o movimento é fundamental ao filme. As escolhas de Chamie são sempre acertadas, como registrar o ator Fernando Alves Pinto em preto e branco, deixando claro que ele é o elemento artístico, ficcional, em meio a realidade da corrida. Ao final, quando ele completa a prova, a fotografia passa a ser colorida, mostrando que o ator se tornou mais um na multidão, que também é real, feliz por completar o duro trajeto. Um belíssimo momento de catarse retratado com muita sutileza, assim como o momento em que o ator começa a cantar ofegante um trecho “Adeus Ano Velho”. É o fim de uma prova, de uma jornada, de mais um ciclo.

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Com “São Silvestre”, Chamie realiza uma ode de amor a São Paulo e também um tratado subliminar social e político. Afinal, a diretora retrata um dos raros momentos em que o povo toma o espaço público quase em sua plenitude. Sem carros, sem violência, sem balas de borracha ou bombas de gás lacrimogêneo. Em um ano marcado pelas imagens de multidões em manifestações, e pelo chamado de “Vem pra rua”, a cineasta consegue fazer com que o espectador tenha essa experiência e sinta-se na rua, mesmo estando sentado em uma poltrona de cinema.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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