Jobs – Dir. Joshua Michael Stern – 2013

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Após o impacto da morte de Steve Jobs na mídia, os produtores de Hollywood não perderam tempo em comprar os direitos de diferentes biografias do gênio da tecnologia para levá-las aos cinemas. Desde o anúncio de sua produção, o interesse e a expectativa sobre “Jobs” (primeira das produções sobre o assunto) eram grandes, especialmente em relação à escalação de seu protagonista, Ashton Kutcher. Todas as atenções estavam voltadas para o desempenho do ator, famoso por comédias sem muito conteúdo, no papel de um personagem tão complexo e importante para a história contemporânea, como Steve Jobs. Indo direto ao assunto, o que se pode dizer sobre Kutcher é que ele se esforça. Ajudado por maquiagem e figurinos, a semelhança física entre o ator e o criador da Apple impressiona. Kutcher ainda consegue captar e reproduzir alguns trejeitos de Jobs, como sua postura, modo de andar e gestual (apesar de sua maneira de caminhar soar caricatural a certa altura do longa, após tanta repetição).

Mas ainda que seja perceptível a vontade do ator em compor seu personagem de forma estudada, Kutcher nunca consegue fugir completamente de sua persona como comediante de humor infantilizado. Essa impressão fica ainda mais clara nas sequências iniciais, passadas nos anos 70, enquanto Jobs ainda frequentava a faculdade e adotava uma atitude meio hippie, correndo atrás de garotas e consumindo LSD. Nesses momentos, fica quase impossível não enxergar o personagem de Kutcher no seriado “That 70’s Show”.

O esforço de seu ator principal, no entanto, não é correspondido pela direção do inexpressivo Joshua Michael Stern (de “Promessas de Um Cara de Pau”, com Kevin Costner). Stern conduz a trama de forma extremamente convencional, utilizando uma montagem banal e sem nenhuma inspiração, como na sequência da viagem de ácido de Jobs, comandando uma orquestra invisível em um gramado, que é intercalada com imagens de sua rotina universitária. E aí entra outro ponto fraco do filme, o roteiro, que apenas encadeia os principais fatos da vida de Jobs de forma apressada e simplifica muitos fatos importantes, como a escolha do nome Apple, por exemplo. Os diálogos são praticamente uma página da Wikipedia, com uma coletânea das principais frases de efeito atribuídas a Jobs.

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O texto quase sempre adota um tom que fica em cima do muro ou a favor de Jobs. Há uma clara intenção de não se aprofundar em assuntos polêmicos que possam manchar a imagem do criador do iPhone. O longa não se furta em mostrar um pouco do lado mais obscuro de Jobs, na maneira como trata o assunto da paternidade de sua filha, na relação severa com seus funcionários, etc. Mas se o longa não santifica sua figura, ainda acaba sempre pendendo para o seu lado. Basta comparar o peso com que é tratada a “puxada de tapete” que Jobs leva dos acionistas da Apple, retratada com muito mais gravidade e contundência do que quando Jobs puxa o tapete de um de seus melhores amigos.

Não há dúvidas de que Jobs é uma figura digna de admiração, por sua obstinação, criatividade, espírito empreendedor e tantas outras qualidades. Mas em determinados momentos, o olhar de “fã” do filme soa piegas, como fica evidenciado no discurso feito pelo personagem do designer do Macintosh, Jonathan Ive. Além disso, o roteiro também praticamente abdica de tratar da vida pessoal de Jobs. O relacionamento com os pais, esposa, filha e amigos é deixado de lado apenas para focar em Jobs e sua obsessão pelo trabalho. Com isso, o diretor opta por resolver arcos dramáticos com clichês simplórios, como Jobs gritando sozinho em seu carro para externar suas frustrações.

Com essa simplificação e ficcionalização de diversos fatos, contestados por muitos dos personagens reais envolvidos, sobra pouquíssimo espaço para o bom elenco coadjuvante (Matthew Modine, Dermot Mulroney, James Woods, Lesley Ann Warren, entre outros). A única exceção é Josh Gad, que apresenta uma boa atuação como o sócio co-fundador da Apple, Steve Wozniak. Somados todos os seus defeitos, da péssima decupagem ao visual de filme feito para a televisão nos anos 90, o filme só não chega a ser um desastre completo, pois sua história real possui momentos suficientemente interessantes para que o longa não aborreça. A boa trilha sonora, com canções de nomes como Bob Dylan e The Animals, também é um ponto positivo.

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Mas é mesmo a condução frouxa de Stern que impede que o longa vá muito além de mero entretenimento passageiro ou apenas de uma curiosidade esquecível. Seu derradeiro plano resume bem os pontos fracos do trabalho, quando Steve Jobs grava o seu discurso para a campanha publicitária “Think Different”. Nele fica evidente que Kutcher não possui bagagem dramática suficiente para convencer 100% de estarmos diante do verdadeiro Jobs. Já Stern entrega seu último clichê, elevando as notas graves da trilha sonora até terminar seu filme em um fade out dramático.

Por tratar da vida de alguém que se tornou notório exatamente por sua busca constante por inovação e diferenciação, chega a ser irônico que sua biografia seja levada às telas de forma tão burocrática, derivativa e sem inspiração.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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