Muito Barulho Por Nada – Dir. Joss Whedon – 2012

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Em sua versão de “Muito Barulho Por Nada”, o diretor Joss Whedon consegue uma proeza: se manter bastante fiel ao texto clássico de William Shakespeare e, ao mesmo tempo, transformar o projeto em algo extremamente pessoal. Filmado em apenas 12 dias, durante um intervalo de Whedon no comando das filmagens do mega blockbuster “Os Vingadores”, o longa conta com um elenco quase totalmente formado por atores que já haviam trabalhado com o diretor em outros de seus filmes ou em suas séries de TV. Essa intimidade da equipe pode ser sentida claramente no resultado final do filme. Apesar de manter a linguagem rebuscada, com seus diálogos proferidos em inglês arcaico, o diretor consegue empregar ao texto um tom descompromissado, quase informal, mas que nunca perde o cinismo e a densidade das palavras escritas por Shakespeare.

Whedon transpõe a história para os dias atuais, algo que já não pode ser considerado uma novidade. “Hamlet”, de Michael Almereyda, “Otelo”, de Tim Blake Nelson e “Romeu + Julieta”, de Baz Luhrmann são alguns exemplos de obras do bardo inglês que também já ganharam uma nova roupagem. Mas, diferente de outras dessas adaptações, como a de Luhrmann, por exemplo, Whedon consegue realizar essa transposição de maneira sutil, sem exageros, para que ela não interfira diretamente na trama.

Assim, o jogo de intrigas palacianas, repletas de ironia e sarcasmo, permanece intacto, sem que suas pequenas adequações para os dias atuais enfraqueçam o produto final. Por mais improvável que possa parecer, esse anacronismo entre o visual moderno e a linguagem antiquada e não coloquial do roteiro (que necessita de algum tempo para que o espectador se acostume) gera um resultado bastante interessante, trazendo uma boa dose de frescor para a adaptação e tornando-se um de seus principais diferenciais.

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Ainda que seja uma produção de baixo orçamento, o cineasta faz com que ela exale sofisticação. O cenário requintado, ressaltado pela bela fotografia em preto e branco, garante ao longa o estilo e a classe que a obra de Shakespeare demanda. O elenco está ótimo e bem homogêneo, outro ponto a favor da adaptação. Todos os atores parecem estar à vontade e se divertindo com a proposta de Whedon, encarando-a com muita naturalidade. Destaques para Amy Acker, como Beatriz, e Alexis Denisof, como Benedito, além da hilária participação de Nathan Fillion no último ato do longa. E se o conjunto funciona muito bem, isso se deve em grande parte à intimidade do cineasta com o material. Apesar de estar ligado diretamente ao universo pop, como diretor de “Os Vingadores” e criador de séries como “Buffy: A Caça Vampiros”, “Angel” e “Firefly”, Whedon é um fã ávido de Shakespeare, e sempre organiza grupos para leituras de suas peças. Isso permite ao diretor apresentar a sua visão particular da obra sem abrir mão de, ao mesmo tempo, reverenciá-la.

Somado a esse conhecimento de causa sobre sua fonte criativa, há também o apuro técnico de Whedon, que conduz o filme com extrema fluidez, em um ótimo trabalho de edição e de toda a parte técnica, que faz com que o longa nunca soe aborrecido, apesar de ser essencialmente verborrágico. E assim, com todas essas qualidades complementares em mãos, o texto de Shakespeare se encarrega do resto. Os tempos podem ser outros, mas no que diz respeito ao amor, aos relacionamentos e aos jogos de aparências, o comportamento do ser humano não mudou tanto assim do século XVI para cá. Mesmo que histórias de duques, príncipes e princesas possam parecer distantes da realidade da maioria (o povo britânico é uma exceção), a essência da obra de Shakespeare permanece atual.

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“Muito Barulho Por Nada” pode não ter uma abordagem tão inovadora para o universo Shakespeariano como a de “César Deve Morrer”, dos Irmãos Taviani, mas sua sinceridade e competência são suficientes para honrar esse universo, agradando na mesma medida aos fãs do escritor inglês, de Whedon e também àqueles que apenas buscam uma comédia romântica com (muito) conteúdo. Algo raro no cinema atual.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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