A Sorte Em Suas Mãos – Dir. Daniel Burman – 2012

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“A Sorte em Suas Mãos” é mais um produto bem acabado do cinema argentino contemporâneo, que consegue caminhar com facilidade entre o cinema independente e o comercial. Dirigido por Daniel Burman, de “Ninho Vazio”, “Dois Irmãos” e do ótimo “O Abraço Partido”, o filme conta a história de Uriel (Jorge Drexler), um pai divorciado na casa dos 40 anos, que trabalha na empresa financeira deixada por seu pai e que tem o pôquer como hobby. Quando Uriel decide realizar uma operação de vasectomia, ele viaja para a cidade de Rosario, onde aproveita para participar de um torneio de pôquer e acaba reencontrando uma antiga namorada, Gloria (Valeria Bertuccelli). A partir desse reencontro, o longa abre espaço para discutir, sempre com bom humor, os relacionamentos entre pessoas mais maduras, ao menos na idade.

A questão da família, da paternidade, e de suas responsabilidades também é outro dos temas centrais do filme. Tanto Gloria quanto Uriel carregam o peso da herança deixada por seus pais. Enquanto ele sente certa vergonha em admitir que seguiu os passos do pai ao assumir a empresa da família, sem ter realizado seus próprios sonhos, ela reluta em revisitar a velha casa (e suas lembranças) deixada pelo pai recém-falecido. Burman ainda encontra espaço para tratar do peso de sua própria herança familiar, no caso a religiosa. Assim como o diretor, Uriel é judeu, e existem diversos momentos do longa em que surgem conflitos e questionamentos sobre seu comportamento  (as mentiras, o jogo, etc.) e o personagem busca as respostas nos dogmas judaicos. O diretor trata o assunto de forma leve e, novamente, bem humorada. Burman não foge de alguns clichês, um judeu que trabalha com dinheiro, mas acerta o tom na figura do rabino que não encontra na Torá nada que proíba o pôquer e ainda tem uma banda de rock, Los Rabinos de La Nada.

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O filme começa num ritmo frenético de edição e diálogos rápidos, algo que diminui ao longo da projeção, mas nunca se perde. A qualidade desses diálogos, aliada ao carisma da dupla central são os principais méritos de “A Sorte em Suas Mãos”. Bertuccelli está ótima, como uma mulher segura de sua sexualidade, mas que teme cair em um relacionamento apenas por comodidade. Já Drexler, músico vencedor do Oscar de Melhor Canção por “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, surpreende por sua desenvoltura, em sua estreia como ator. Drexler faz de Uriel um homem extremamente simpático, mas inseguro, que parece não ter amadurecido totalmente. O personagem transfere para sua vida os vícios do pôquer. Uriel blefa (mente) o tempo todo e se esconde para impedir que os outros jogadores (família, namoradas, ex-esposa) consigam “ler” seus sentimentos, seus próximos movimentos.

Essa insegurança faz com que o personagem também sofra de uma “síndrome de incompletudes”, sendo quase sempre incapaz de terminar algo que começa. Isso é exemplificado pelo diretor em um pequeno detalhe, como o aquário sem peixes, que Uriel promete à filha que irá comprar, ou em algo mais profundo, como o relacionamento inacabado com Gloria.

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Ainda que Burman pese a mão em algumas alegorias, como ao materializar a infantilidade de Uriel e Gloria na piscina de bolas, ou a dificuldade de comunicação entre o casal, colocando-os em bolhas de plástico (literalmente), e que seu último ato sofra com alguns exageros e improbabilidades envolvendo o show de uma famosa banda argentina, o saldo final de “A Sorte em Suas Mãos” é positivo.

A química entre Drexler e Bertuccelli, os diálogos inteligentes e a condução quase sempre segura de Burman, garantem o equilíbrio entre drama, romance e comédia, em mais um bom filme argentino. E dessa vez, para variar um pouco, sem a presença de Ricardo Darín.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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