A Espuma dos Dias – Dir. Michel Gondry – 2013

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Depois de construir uma respeitável reputação como diretor de videoclipes considerados inovadores e ousados, o francês Michel Gondry migrou para Hollywood, que mostrava interesse em seu talento excêntrico. Em seus primeiros anos nos Estados Unidos, Gondry trabalhou ao lado do roteirista Charlie Kaufman, parceria que resultou nos filmes “Natureza Quase Humana” e no seu melhor e mais aclamado trabalho até hoje, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. O universo surreal de Kaufman encontrava uma tradução perfeita no imaginário visual do cineasta francês, ganhando vida nas telas. Por isso mesmo, seus trabalhos seguintes sem a colaboração do roteirista americano pareciam incompletos (“Sonhando Acordado”, “Rebobine, Por Favor” e “Besouro Verde”). A falta do texto de Kaufman era visivelmente sentida no resultado final, com Gondry deixando-se levar por suas obsessões estéticas sem ter um foco narrativo bem definido.

Para seu mais recente trabalho, “A Espuma dos Dias”, Gondry escolheu tomar como base o romance homônimo do escritor Boris Vian. O universo onírico do livro de Vian se mostrou um cenário repleto de elementos adequados para Gondry trabalhar o seu estilo peculiar. O filme trata do romance do milionário e tímido inventor, Colin (Romain Duris) com a bela Chloé (Audrey Tatou). Narrado como um verdadeiro conto de fadas surrealista, o filme começa de maneira frenética, com gags físicas e visuais acontecendo em uma velocidade intensa, sem dar respiro para o espectador.

A princípio, a trama parece não seguir uma linha lógica, muito pelo tom bizarro do que vemos na tela (pianos que fazem drinks quando tocados, um rato que vive em uma miniatura da casa de Colin, o personagem principal cortando as próprias pálpebras com uma tesoura, no melhor estilo Buñuel, entre outros detalhes bizarros). Tudo parece meio improvisado, como num show de jazz. Essa impressão não é mera coincidência, já que Vian, além de escritor, também era trompetista, e grande parte da excelente trilha sonora do filme é composta por canções do grande Duke Ellington (incluindo a música que dá nome à personagem de Tatou).

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As atuações do elenco, que inclui também o ótimo Omar Sy (revelação do sucesso “Intocáveis”) e uma participação do próprio diretor como um médico de métodos pouco ortodoxos, seguem essa linha exagerada, quase caricata, que dá tom aos dois primeiros atos do filme. Mas, aos poucos, esse tom vai mudando, e romance e comédia vão dando lugar ao drama. Mesmo sem perder a sua essência surreal e fantasiosa, é nessa virada dramática que o filme ganha força. Até então acompanhávamos um história divertida, ainda que confusa, em que o grande atrativo era mesmo o arrojo visual típico de Gondry, mas que soava artificial. A partir do terceiro ato, o diretor consegue encontrar sentimento em meio ao seu faz de contas, fazendo com que o público se importe de verdade com o destino de seus personagens. Encontra algo real em sua artificialidade, dando um direcionamento mais claro às suas idiossincrasias.

Como dito anteriormente, tecnicamente o filme impressiona. Gondry abusa da criatividade e das mais diversas técnicas (animação em stop motion, animação de traço tradicional, efeitos de luz, maquetes, etc.) para dar vida ao seu universo fantástico particular, gerando algumas cenas visualmente fascinantes, como a da patinação no gelo comandada por uma DJ, que determina os movimentos dos atores transformando a passagem em um verdadeiro número musical. Outro exemplo do balé ritmado entre imagem e som imposto pelo cineasta está em todas as sequências passadas em uma espécie de linha de montagem com máquinas de escrever, onde o destino dos personagens é colocado no papel.

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Outro acerto visual de Gondry é a perda gradativa das cores do filme, que conforme o desenrolar da trama para um lado mais dramático vai transformando os tons quentes e vibrantes do começo em um belíssimo preto e branco, quase expressionista, ao final do longa. Uma mudança que acontece sutilmente de uma forma bem natural, dando um ar melancólico a toda a derradeira sequência do filme. Junto com a perda da coloração, o cenário principal, a casa de Colin, também passa por uma transformação, diminuindo de tamanho e se tornando um ambiente cada vez mais sombrio e opressor. Essa escolha representa o sentimento de vazio e desespero de Colin, como se seu mundo estivesse se fechando, sufocando o personagem.

Ainda que não seja um trabalho tão consistente quanto “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “A Espuma dos Dias” se mostra um passo de volta à direção certa para Gondry. Evidentemente é um filme menos equilibrado do que o estrelado por Jim Carrey e Kate Winslet, com muito mais forma do que conteúdo. Mas essa forma é tão bela, que fica difícil não se encantar por ela.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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