Boa Sorte, Meu Amor – Dir. Daniel Aragão – 2012

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“Boa Sorte, Meu Amor” surge como mais um interessante produto da nova safra do cinema pernambucano, que tem gerado excelentes trabalhos como “O Som ao Redor” e “Era Uma Vez Eu, Verônica”. O longa de estreia do diretor Daniel Aragão narra o romance, ou antiromance como define a própria sinopse do filme, entre Maria (Christiana Ubach) e Dirceu (Vinicius Zinn). Esse relacionamento, porém, se mostrará apenas o ponto de partida para uma saga de autodescoberta para Maria, e principalmente para Dirceu, além de apresentar outros elementos que servem como pano de fundo para a trama, como o comportamento da classe média de Recife e a herança colonialista que Pernambuco ainda carrega.

Nesse ponto, o longa de Daniel Aragão guarda diversas semelhanças com o anterior, e superior, “O Som ao Redor”. Assim como o personagem principal do filme de Kléber Mendonça Filho, Dirceu vem de uma família rica e tradicional, com raízes no interior do Estado e nos engenhos de cana-de-açúcar. Os fantasmas dessa herança familiar assombram o personagem, representados principalmente pela figura do pai autoritário, que logo no primeiro e bem construído plano inicial do filme relembra a história da tetravó de Dirceu, que era uma índia e escrava na fazenda antes de se tornar a mulher do coronel, tetravô do rapaz.

Na outra ponta do romance central, Maria é representada como uma garota humilde, que trabalha fazendo bicos em divulgação de baladas e outros pequenos serviços para pagar seus estudos na faculdade de música e se dedicar à sua verdadeira paixão: o piano. Mas a personagem também guarda segredos nebulosos sobre seu passado que virão à tona, parcialmente, no decorrer da trama. O romance de pouco mais de 3 meses entre os personagens caminha bem, com o surgimento de questões vividas por todos os que já passaram por algum relacionamento, até que, por um motivo de força maior, Maria resolve desaparecer da vida de Dirceu, que sai a sua busca.

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Aragão filma com um bom senso estético. A belíssima fotografia em preto e branco com grande contraste, em formato cinemascope, rende momentos visualmente marcantes. A sequência em que somos apresentados a Maria é um dos melhores exemplos. Vestida como uma pin up dos anos 50 e entregando panfletos em uma boate, Maria se move em câmera lenta, sempre com um sorriso no rosto, enquanto as luzes estroboscópicas do local ao fundo e a trilha sonora de Jackie Wilson, com a canção “I Don’t Need You Around”, completam o clima fantástico da sequência, uma verdadeira imagem de sonho. Após um corte abrupto, descobrimos que esse era exatamente o ponto de vista de Dirceu. Sua visão idealizada da garota, o amor à primeira vista.

Outro exemplo do domínio técnico de Aragão é a cena em que Maria exterioriza seus sentimentos da forma que lhe dá mais prazer, através da música. A garota senta ao piano e começa a tocar de forma passional, mas não ouvimos o som do instrumento. A câmera lenta realça esse silêncio ensurdecedor, como se Maria estivesse em transe. Novamente, a sequência é interrompida com um corte seco, quando ouvimos a empregada de Dirceu chamar por Maria. Aqui dois pontos valem ser destacados. O primeiro é o bom trabalho de edição e mixagem de som do longa. O segundo é a atuação da atriz Christiana Ubach, que surge bela e encantadora, se entregando com desenvoltura à sua personagem.

Assim como seu Dirceu, Vinicius Zinn evolui um pouco ao longo do filme. A princípio, o personagem parece ser apático, não confrontando o pai ou até mesmo Maria. Essa personalidade passiva muda quando o ele sai em busca de sua amada. Por ironia, é também a partir desse momento que o filme mostra suas principais fragilidades e perde seu foco. A viagem de Dirceu pelo interior de Pernambuco aos poucos vai se transformando numa descida ao inferno, ganhando tom de pesadelo com traços quase surrealistas.

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Novamente, o longa evoca a comparação com “O Som ao Redor”, em que também temos essa jornada para enfrentar fantasmas ancestrais. A diferença é que o conjunto do filme de Kléber Mendonça Filho é muito mais bem resolvido, e enquanto lá temos a certeza de ser um pesadelo do personagem (a cachoeira de sangue, etc), aqui realidade e fantasia se confundem, e esse pesadelo destoa do tom que o longa seguia até o momento. Além disso, as questões envolvendo o passado de Maria também não ficam claras, deixando pontas soltas. Essa ambiguidade em determinadas passagens prejudica bastante o terceiro ato do longa, que é dividido literalmente em três capítulos, com direito a letreiros na tela.

Há também algumas escolhas estéticas que soam gratuitas, como na cena em que Dirceu confronta um personagem misterioso e que é filmada como se fosse um faroeste italiano, com super close ups nos rostos dos personagens e até uma trilha que emula as trilhas do gênero. Outro ponto fraco é o desenvolvimento dos personagens coadjuvantes, que surgem quase sempre caricatos. Parece até ser uma opção do diretor, mas o propósito dessa escolha não fica claro.

Ao final, “Boa Sorte, Meu Amor” se transforma num acerto de contas de Dirceu com seu passado. Um passado quase esquecido, que faz o personagem questionar se realmente o havia vivido. O plano final resume todo o conceito do filme e até tem o seu impacto, mas surge de forma repentina, deslocado do que vínhamos acompanhando até então. E os deslizes e inconsistências da última meia hora de projeção impedem que o mesmo tenha a força arrebatadora pretendida pelo diretor.

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Em meio aos altos e baixos, “Boa Sorte, Meu Amor” ainda possui qualidades de forma e conteúdo. Resta agora que Aragão consiga direcionar essas qualidades para uma construção mais focada e consistente em seus próximos trabalhos. Apesar de não ter se perdido completamente pelo caminho, o diretor por pouco não encontrou uma estrada sem saída em sua estreia.

 Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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