O Lugar Onde Tudo Termina – Dir. Derek Cianfrance – 2012

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 Um dos principais desafios de um cineasta é conseguir atingir as expectativas com um novo trabalho, após ter sido aclamado com seu trabalho anterior, um desafio que se mostra ainda maior para um diretor estreante. É a chamada “Síndrome do Segundo Filme”. No caso do cineasta americano Derek Cianfrance, podemos falar em uma “Síndrome do Terceiro Filme”. Sua estreia atrás das câmeras ocorreu em 1998, com “Brother Tied”, longa que teve pouca repercussão. Mais de 10 anos depois, em 2010, Cianfrance “reestreou” com o excelente drama independente, “Namorados Para Sempre”, que valeu a Michelle Williams uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz e muitos elogios de crítica e público. O que nos leva ao seu mais recente filme, “O Lugar Onde Tudo termina”, longa em que refaz a parceria com Ryan Gosling, em um papel que guarda semelhanças com o interpretado pelo ator em “Namorados Para Sempre”.

Esse novo longa apresenta uma trama bem mais ambiciosa que o anterior, com um tom quase épico (o filme tem perto de 2h30 de duração), e tem como tema principal a relação entre pai e filho, ou pais e filhos, como iremos descobrir com o desenrolar de sua história. Essa ambição demonstra uma coragem bem-vinda, deixando claro que Cianfrance não tem medo de arriscar. Mas, em contrapartida, acaba se tornando o ponto fraco do filme. Um dos segredos do sucesso de “Namorados Para Sempre” era exatamente o seu foco narrativo, construído em torno de um microcosmo bem definido: a ascensão, estabilidade e declínio do relacionamento de um casal. Mesmo com uma narrativa fragmentada, com idas e vindas temporais, o filme funcionava, pois seus dois personagens principais eram muito bem trabalhados e delineados, transparecendo uma intimidade sincera e realista, e gerando uma grande proximidade entre eles e o público. E isso não ocorre com o mesmo êxito em “O Lugar Onde Tudo Termina”.

Os saltos temporais estão novamente presentes, mas desta vez dentro de uma trama bem linear. A diferença está na ampliação do universo, que abrange muito mais personagens e principalmente uma escolha arriscada de Cianfrance: a constante troca de protagonismo. Essas mudanças de personagem principal demonstram novamente que o diretor estava disposto a correr riscos, mas não completamente preparado para conduzir suas escolhas e arcar com os resultados. A ideia não é novidade, e parece bem interessante à primeira vista, mas na prática acaba por impor uma espécie de distanciamento entre público e personagens, diluindo o potencial dramático da trama. Por diversos momentos o filme eleva a sua dramaticidade, mas não consegue entregar o impacto esperado. Além da troca progressiva de protagonistas, há também uma mudança constante no gênero do filme, que de drama familiar passa para uma trama policial, depois para um suspense, se torna um drama de formação e volta a explorar as relações familiares do início. Essa indecisão também afeta profundamente o resultado final da película.

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Apesar de tudo, o filme tem suas qualidades. Cianfrance novamente se mostra um diretor habilidoso, com bom domínio técnico, como comprova o plano-sequência do início do filme, que acompanha o motoqueiro, personagem de Gosling, pelo parque de diversões até chegar ao Globo da Morte, onde se apresentará. Uma cena que segue o estilo muito utilizado pelo cinema independente atual, como em “O Lutador”, de Darren Aronofsky, em que a câmera acompanha o personagem de Mickey Rourke de forma parecida para apresentá-lo.

A seu favor, Cianfrance conta também com um elenco que garante o interesse do público. Gosling volta a interpretar um tipo no qual parece ter se especializado, o “rebelde cool”, sempre no limite entre o herói e o anti-herói. Bradley Cooper confirma seu amadurecimento como ator, deixando um pouco de lado as comédias comerciais que o tornaram um astro, enquanto Eva Mendes aparece menos atraente do que de costume, muito devido à maquiagem utilizada para torná-la mais velha em boa parte do filme. Assim como o trio principal, Ray Liotta e os outros coadjuvantes estão bem em cena, mas todos os personagens carecem de um maior aprofundamento. Novamente, um resultado das escolhas narrativas do diretor.

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Entre as qualidades do longa, destaque também para a trilha sonora composta por Mike Patton (Faith No More, Tomahawk, Mr. Bungle, Fantomas e tantos outros projetos), repetindo o bom trabalho feito no filme italiano, “A Solidão dos Números Primos”.

Longe de ser um mau filme, é difícil não analisar “O Lugar Onde Tudo Termina” com certa decepção. Afinal, depois de um filme tão seguro e bem resolvido, como “Namorados Para Sempre”, que gerou até comparações com o cinema de John Cassavetes, as expectativas eram altas. Mas Cianfrance ainda merece que se dê atenção a seus próximos passos, já que esse deslize é comum e aceitável. Resta saber como isso afetará suas ambições. Tentar ser Cassavetes, definitivamente, não é para qualquer um.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “O Lugar Onde Tudo Termina – Dir. Derek Cianfrance – 2012

  • isabella ianelli

    Leo, excelente!

    Assisti ao filme ontem só e corri pra cá, sabia que você tinha escrito sobre ele.Também tive a mesma impressão… Sua análise fez muito sentido para mim.

    Não gostei da atuação de Bradley, Eva… Todos precisariam de mais espaço para brilhar, mais entrosamento com as personagens… apenas Ryan consegue ser brilhante… mas simplesmente porque ele é Ryan, incrível…

    A atmosfera meio americanizada clichê de superação me decepcionou bastante. Assim como você amei “Blue Valentine”… Tomara que venham outros tão de tirar o fôlego quanto!

    Aguardemos…

    • Leonardo Ribeiro

      Valeu por comentar, Isa! Pois é, o filme foi meio decepcionante pela expectativa criada depois de “Blue Valentine”. Mas vamos torcer pro cara não se perder completamente e virar um diretor “one hit wonder” rsrs.

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