Era Uma Vez na Anatólia – Dir. Nuri Bilge Ceylan – 2011

OATiA2

Analisar os conflitos culturais entre tradições milenares e costumes modernos que se espalham com a globalização, tem se tornado uma especialidade de algumas cinematografias do Oriente Médio, como a iraniana, e do Leste Europeu, como a romena. No meio do caminho se encontra a Turquia, do diretor Nuri Bilge Ceylan. Um país dividido entre dois continentes (Europa e Ásia) e entre costumes arcaicos e a vontade de se integrar por completo aos novos tempos.

Em “Era Uma Vez na Anatólia”, Ceylan utiliza uma trama policial para fazer sua análise minuciosa sobre esse embate entre a “velha” e a “nova” Turquia. Acompanhamos um grupo de policiais e militares, além de um promotor e um médico, que vagam madrugada adentro pelas planícies do interior turco na busca pela cena de um crime. Com eles estão os dois suspeitos confessos do crime. O principal deles tenta guiar os oficiais, mas por dizer estar bêbado quando praticou o crime e pela escuridão da madrugada, não consegue lembrar o local exato. Sabe-se apenas que havia uma fonte e uma árvore de copa redonda.

Ceylan não oferece muitas informações sobre o ocorrido. Não sabemos se foi um assassinato, quem foi a vítima, as motivações, etc. O crime serve apenas como o fio condutor que guia o espectador através do que realmente interessa ao diretor: as histórias dos personagens. A utilização da expressão “Era Uma Vez” no título do filme não é à toa. Além de ser uma referência aos filmes de Sergio Leone (“Era Uma Vez no Oeste” e “Era Uma Vez na América”), com os quais “Era Uma Vez na Anatólia” compartilha o senso épico (não no sentido mais comum da palavra, mas no que se refere a narrar as transformações de um determinado período histórico para um povo), o “Era Uma Vez”  de Ceylan representa o que há de mais fabular na expressão, o contar histórias. Pois é isso que fazem os personagens do filme durante os longos períodos ociosos dos intervalos da investigação criminal.

once-anatolia-670x288

Os personagens conversam muito em “Era Uma Vez na Anatólia”, e nesses diálogos, dos mais triviais aos mais fantásticos, é que se encontram os detalhes, as peças que formam o mosaico cultural do povo turco. Seja na história contada pelo promotor sobre uma mulher que previu a própria morte, ou no drama do chefe de polícia com a doença de seu filho, esses pequenos contos escondem os principais conflitos que o país de Ceylan enfrenta. O diretor não se furta em mostrar o desejo turco em fazer parte da União Européia, nem em mostrar que seu país ainda sofre com algumas precariedades. No carro velho da polícia que precisa ser empurrado pelos oficiais para pegar, na falta de um saco adequado para embalar um corpo, no discurso do médico legista que reclama da falta de equipamentos mais modernos e principalmente na própria desorganização das autoridades legais, vemos que ainda há um atraso em diversos setores do país.

O passado parece assombrar os personagens, algo que fica explícito na cena em que ao procurar um lugar para urinar, o médico encontra antigas esculturas no meio da escuridão, que são reveladas apenas com as luzes de um raio e o som de um trovão. Uma sequência digna de filmes de terror. Em sua viagem pelo interior do país, Ceylan consegue retratar muito bem os anacronismos culturais que lá ocorrem, como o fato de até mesmo em um humilde vilarejo, que sofre com a falta de energia a cada vento que acompanha uma tempestade, é possível encontrar uma lata de Coca-Cola.

Os ventos e a chuva, por sinal, são elementos fundamentais para a narrativa de Ceylan. Não só como uma metáfora para os tempos nebulosos que afligem seu povo, mas também do ponto de vista estético. O diretor filma o vento sobre a mata, as árvores, personagens e objetos com extrema beleza. Seus planos são sempre cuidadosos, reafirmando o seu apuro técnico, mas dessa vez mais contido e com menos exibicionismo do que em seus filmes anteriores, como “Três Macacos” e “Climas”. Tudo flui com naturalidade, mesmo nas cenas mais complexas tecnicamente, como o plano inicial do filme em que a câmera lentamente vai se aproximando da janela de uma casa para nos mostrar os personagens em seu interior, ou no plano-sequência aparentemente banal, que acompanha uma maçã caindo da árvore, descendo um pequeno morro e sendo carregada pelas águas de um riacho até encontrar outras maçãs já apodrecendo. Uma cena carregada de simbolismo, que soa como uma representação do destino dos personagens, que mesmo quando parecem estar tomando um rumo inusitado, estão fadados a um final já conhecido e igual ao de tantos outros.

0fae8387aea0d289d17e94c1bf93bd59d16f566d.1000 (670x328)

Toda a sequência passada no pequeno vilarejo que sofre com a falta de energia elétrica pode ser considerada o melhor exemplo da sensibilidade de Ceylan, que valeu ao filme o Grande Prêmio do Júri em Cannes 2011 (dividido com “O Garoto da Bicicleta”, dos Irmãos Dardene). Nela temos um dos momentos mais belos do filme, quando surge a filha do prefeito do vilarejo. Iluminada apenas pela luz de um lampião, ela oferece chá aos visitantes, que reagem com espanto e admiração ao se depararem com a beleza da garota. Essa presença angelical, em meio ao ambiente rústico e quase hostil, causa um encantamento nos personagens. É como s ela fosse uma figura de um mundo de fantasia, capaz de fazer o criminoso chorar, ter visões e finalmente pagar seus pecados. Tudo para terminar com a frase do inspetor sobre a garota “É um desperdício, uma mulher tão bela em um lugar desses. Mas na maioria das vezes, a beleza não traz sorte”. As poucas mulheres do filme de Ceylan são assim, misteriosas e sem sorte, como a mulher da vítima, que é apresentada apenas nos últimos minutos do longa.

Ceylan mantém essa aura de mistério, quase mística, até o final. Várias questões ficam abertas à interpretação do espectador, pois o filme exige sim que ele interprete diversos detalhes que ficam apenas no subtexto. Por isso mesmo, em seu terceiro ato, o diretor dá mais espaço ao seu personagem mais enigmático, o cético doutor. Seu diálogo com o promotor sobre a história da mulher que previu a morte é revelador,  um momento realmente sublime.

Depois de mais de duas horas e meia de projeção (talvez a longa duração seja um dos poucos defeitos do filme), o espectador é recompensado com a sequência final na sala onde será realizada a autópsia do corpo da vítima, que serve como a metáfora perfeita para o filme. Pois na verdade, Ceylan não está dissecando apenas um corpo, mas sim todos os aspectos sociais e culturais de seu povo. O passado e o presente são destrinchados, enquanto o diretor vislumbra o futuro, como o plano final fixo na janela deixa claro. É dessa dissecação que surge o poder quase hipnotizador desse grande filme que é “Era Uma Vez na Anatólia”.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: