Amor Profundo – Dir. Terence Davies – 2011

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“Jean-Pierre Melville dizia que é preciso mais coragem para fazer um filme clássico do que um filme moderno. Contar uma história elegante com uma mensagem complexa é qualquer coisa de brutal. Não é o que está na moda. E parece haver uma recusa do sentimento, do melodrama. Hoje, a única coisa que se faz quando se faz uma obra de arte é criar uma distância irônica. Nunca se corre o risco da emoção. Olhamos para esses filmes como obras de arte numa parede”. Essa constatação foi feita por um dos poucos diretores da atualidade que ainda acreditam e seguem os preceitos do cinema clássico, o americano James Gray.

Em “Amor Profundo” temos um raro e excelente exemplo desse tipo de cinema. No mais recente trabalho do diretor Terence Davies (“Vozes Distantes”, “O Fim de Um Longo Dia”), podemos perceber traços não só dos filmes de Gray, mas também dos principais diretores da década de 40 e 50, como John Ford, Howard Hawks, Otto Preminger e Douglas Sirk. A elegância de cada movimento de câmera, de cada enquadramento que Davies propõe em seu filme, traduz a essência dos melodramas de raiz tão defendidos por Gray.

A história de uma mulher inglesa, Hester Collyer (Rachel Weisz) que resolve trocar o seu marido, Sir William Collyer (Simon Russell Beale), um bem sucedido juiz da Suprema Corte, pelo jovem piloto da Força Aérea Britânica, Freddie (Tom Hiddleston) é perfeita para que Davies possa trabalhar com extremo apuro e domínio pleno os arquétipos desse gênero.  A ambientação de época, na Londres do Pós-Guerra, ajuda ainda mais o cineasta a transportar o espectador direto para a década de 40. Desde a sua trilha sonora, passando pela edição (com fade outs e imersões para fazer a transposição das cenas), tudo evoca a aura dessa era dourada para o cinema hollywoodiano.

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Há um clima constante de melancolia que permeia “Amor Profundo”. Desde sua primeira sequência, quando Hester tenta o suicídio, sabemos que um final feliz dificilmente será alcançado pela protagonista. Davies adota uma narrativa fragmentada, que vai e volta no tempo, mostrando o início, o auge e a decadência da relação de Hester e Freddie. Ainda que envolta nesse cenário melancólico, Hester não perde o seu romantismo, mergulhando de cabeça em sua paixão, e por isso irá aprender da maneira mais dura, que todo romance tem seu preço. Como lhe ensina a dona da pensão onde vive, “Não vale a pena morrer por ninguém”.

No papel de Hester, Rachel Weisz se entrega de maneira comovente. Ainda que mantenha certa inocência, sua personagem em nenhum momento é boba ou apática. Hester transita entre a força e a fragilidade de uma forma intensa e sincera, como na cena em que, na cabine de um telefone público, pede para que Freddie não a abandone. Sem dúvidas essa é a maior atuação da carreira de Weisz.  Hiddleston mantém o nível de interpretação, também emprestando a Freddie uma dualidade em seu caráter. Apesar de sofrer com as sequelas deixadas pela guerra, Freddie cria uma autoproteção, através de uma aparente felicidade, que serve apenas para esconder as feridas psicológicas criadas pelo tempo nas batalhas.

Davies filma essa conturbada relação com uma técnica impecável. O trabalho de fotografia realça o jogo de cores imposto pelo diretor, que adota tons quentes nas roupas e acessórios de Hester para evidenciar a sua passionalidade. O vermelho de seu casaco contrasta de forma intensa com os tons frios e acinzentados da Londres do filme. O cineasta cria aqui alguns dos mais belos planos vistos nas telas recentemente, como a belíssima e delicada cena de sexo entre Hester e Freddie, em que a câmera circula a cama do casal em um movimento constante, gerando uma elipse visualmente magnífica de transição para a próxima cena e termina com um detalhe sutil, e ousado, de Hester lambendo as costas de seu parceiro.

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Outro ótimo exemplo da qualidade técnica do diretor é o longo plano-sequência, em que a câmera caminha pelo túnel do metrô, mostrando os habitantes londrinos durante bombardeios da guerra. Enquanto todos entoam uma canção folclórica britânica, a câmera vai lentamente chegando até Hester e seu ex-marido, em um momento de catarse coletiva que representa não só o sentimento de alívio da população pelo fim dos conflitos, mas também a guerra de sentimentos internos de Hester.

Como dito anteriormente, Davies não deixa espaço para um final feliz. É o melodrama em sua essência que interessa ao diretor, sem nunca confundir o clássico com o acadêmico. E ele é resumido de forma brilhante no poderoso plano final do filme, que mostra os escombros da cidade, resultantes da guerra. É essa a imagem que simboliza uma cidade tão devastada quanto os sentimentos de Hester.

 Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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