O Que Se Move – Dir. Caetano Gotardo – 2012

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Alguns pólos cinematográficos brasileiros parecem ter encontrado uma certa unidade, tanto temática quanto estética. O caso mais notório é o de Recife, que nos últimos anos tem apresentado uma produção consistente de grandes filmes. Enquanto isso, outros centros, como São Paulo, ainda buscam essa identidade. Ainda não existe uma “cara” para o cinema paulistano. Talvez uma cidade tão cosmopolita como a capital paulista, que permite os mais variados pontos de vista, dificulte esse trabalho para os cineastas, mas alguns conseguem encontrar bons caminhos a serem seguidos, como é o caso do diretor estreante em longas, Caetano Gotardo e seu “O Que Se Move”.

Com um roteiro que parte de três notícias de jornal que o marcaram no início dos anos 2000, Gotardo é capaz de transformar o ambiente urbano de São Paulo e toda a sua diversidade em um elemento importante para as tramas, mas de uma forma sutil. O ritmo lento e contemplativo do longa serve como um contraponto para a rotina caótica de uma cidade sempre em movimento. A identificação é imediata para quem mora na cidade, mas também para qualquer outro espectador, pois apesar dessa ambientação característica, o tema principal do filme é universal: o amor materno. Os três segmentos do longa giram em torno da relação das mães com seus filhos e também da perda, do vazio.

Essa identificação que o filme gera no público não vem apenas de sua temática central, mas também da origem de suas tramas. São histórias baseadas em fatos reais, que se parecem com tantas outras que acompanhamos diariamente nos noticiários. O realismo do roteiro é amplificado pela estética do filme. É possível perceber que a produção teve poucos recursos financeiros, mas Gotardo supera esse obstáculo e sabe utilizar isso a seu favor, demonstrando grande talento e sensibilidade, além de um domínio de linguagem cinematográfica que falta a muitas superproduções comerciais brasileiras com estética televisiva que estreiam semanalmente em nossas salas. “O Que Se Move” é um verdadeiro filme de cinema.

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Ainda que em determinados momentos o cineasta cometa alguns excessos, como takes com a câmera estática em objetos triviais que se alongam um pouco e não acrescentam muito, como na cena dos cisnes, na maior parte do tempo o filme é conduzido com muita segurança e total noção de onde pretende chegar. Gotardo consegue imprimir uma carga emocional aos dramas apresentados, mesmo que suas histórias tenham se tornado tão comuns em nosso dia a dia, que para muitos não causem mais comoção. Mas o que se vê na tela em “O Que Se Move” são situações dramaticamente genuínas que nunca são piegas ou puramente sentimentalistas.

Mas o maior trunfo de Gotardo e de seu trabalho é a reviravolta, não no roteiro em si, mas em sua escolha narrativa. Na verdade, em “O Que Se Move” temos uma reviravolta de gênero. Quando a primeira história se torna um musical ao seu final, o impacto é intenso e inevitável. Uma surpresa extremamente agradável e que eleva a carga dramática da história, conseguindo até superar os problemas com o elenco (esse primeiro segmento tem com certeza as atuações mais fracas, com um tom demasiado teatral). A partir daí, essa escolha pelo musical será o elo entre as próximas histórias, que melhoram gradativamente em todos os aspectos.

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Além da coragem para sustentar a sua escolha, Gotardo possui plena consciência de como conduzi-la, e é isso que garante o seu sucesso. O diretor consegue criar um verdadeiro balé de movimentos (seja com clipes de papel em uma mesa, os policiais em uma delegacia, garotos dançando em um fliperama ou imagens de ginastas olímpicos na TV de uma churrascaria) para acompanhar o belo trabalho musical que encerra suas pequenas crônicas. É na musicalidade que as mães do filme encontram a válvula de escape para expressar a sua dor, e por mais que à primeira vista isso possa causar estranhamento, em pouco tempo apresenta-se como uma escolha perfeitamente natural e compreensível.

Tudo isso culmina em uma sequência final de extrema sensibilidade e poesia. Mesmo que não seja isento de falhas, algo perdoável para um trabalho de estreia, “O Que Se Move” é sem dúvidas um filme que ousa, que foge do lugar comum. E por essa ousadia, Gotardo merece não só elogios, como muita atenção dos cinéfilos para seus próximos trabalhos. Um nome promissor.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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