Na Neblina – Dir. Sergei Loznitsa – 2012

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Depois de construir uma sólida carreira como diretor de documentários, o bielorrusso Sergei Loznitsa fez sua transição para os filmes de ficção em 2010 com o excelente “Minha Felicidade”. Em seu novo trabalho, “Na Neblina”, Loznitsa abandona o tom de pesadelo surrealista de seu elogiado filme anterior para adotar uma abordagem um pouco mais próxima de sua produção como documentarista. A história de “Na Neblina” se passa na Ucrânia durante a invasão alemã ao país na Segunda Guerra Mundial. Nesse cenário, o soldado ucraniano, Burov (Vladislav Abashin), recebe a missão de executar Sushenya (Vladimir Svirskiy), um velho amigo de infância que foi acusado de colaborar com o exército alemão. Antes que possa completar sua tarefa, Burov é ferido em um ataque realizado por um grupo de soldados alemães, e assim ele, Sushenya e um outro soldado ucraniano, Voitik (Sergei Kolesov) têm de fugir e buscar abrigo nas florestas da região.

Mesmo com a trama se desenvolvendo durante o período dos conflitos, Loznitsa está mais interessado em analisar os efeitos da guerra, e não suas ações. O foco aqui não é nos combates armados, mas nos combates ideológicos, nos conflitos morais e de caráter. Nesse ponto, o filme possui aspectos em comum com “O Franco Atirador”, de Michael Cimino, um dos grandes filmes de guerra de todos os tempos, que faz uma análise profunda das marcas psicológicas deixadas pela Guerra do Vietnã nos soldados americanos. Assim como a obra de Cimino, “Na Neblina” também possui uma aura de melancolia e pessimismo. Seus personagens mostram uma descrença em relação ao mundo e carregam uma culpa transformadora. Mas ao contrário do filme americano, que contrasta a angústia do pós-guerra com momentos de celebração antes da partida dos jovens soldados, “Na Neblina” não abre espaços para momentos felizes.

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Através de flashbacks, Loznitsa nos mostra o passado de Sushenya e de Burov, para que possamos compreender melhor suas personalidades e motivações. Burov se mostra um rebelde domado pelos acontecimentos da guerra, que se sente frustrado por ser incapaz de mudar essa situação. Enquanto Sushenya, mesmo sendo inocente da acusação de traidor, sofre com a desconfiança de todos, inclusive da própria esposa. Além disso, ele também carrega o peso da morte de três amigos. Quando afirma a seu amigo, e agora carrasco, que preferia ter sido enforcado junto com seus companheiros, não há hipocrisia ou uma tentativa de conseguir a simpatia do soldado na fala de Sushenya, essa é sua consciência falando mais alto. Todo o cuidado do personagem com o homem que veio para matá-lo, tratando de seus ferimentos, carregando-o nas costas e ficando ao seu lado enquanto Voitik sai em busca de socorro médico, reafirma os conceitos éticos em que Sushenya acredita. Voitik, aliás, também é um personagem bem interessante. Homem de poucas palavras, ele parece apenas ser um executor, seguindo ordens a espera de que a guerra termine.

Loznitsa filma tudo isso com muito apuro técnico. Longos travelings e belos planos-sequência marcam todo o filme. Um ótimo exemplo é a sequência inicial, em que acompanhamos os prisioneiros de guerra no acampamento alemão se encaminhando para a forca. A câmera deixa os prisioneiros, mas segue em movimento, mostrando soldados alemães descansando, as famílias dos prisioneiros em desespero, e toda a movimentação do acampamento, enquanto ao fundo podemos ouvir o oficial nazista fazendo o seu discurso antes do enforcamento. O plano termina estático, focando uma pilha de ossos e carcaças de animais. Essa opção do cineasta se repete durante todo o filme. A violência geralmente ocorre fora do campo de visão do espectador. Até mesmo o tiroteio que fere Burov ocorre na madrugada, no escuro, sem que possamos ver o inimigo. Com isso, Loznitsa só reforça sua tentativa de mostrar os efeitos psicológicos e não propriamente físicos da guerra.

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Com um ritmo lento, e uma fotografia fria de aspecto sujo, a câmera do diretor acompanha os personagens em suas desesperanças. É como se o filme agonizasse junto com eles, apenas esperando pelo pior. Esse visual (até mesmo pela ambientação da Segunda Guerra) remete a outro grande filme do gênero, o russo “Vá e Veja”, dirigido por Elem Klimov em 1985. A belíssima cena que encerra o filme, justifica seu título e novamente retorna à opção da cena inicial, onde apenas ouvimos o que acontece. Um final trágico, sem dúvidas, que condiz com toda a construção da natureza de seus personagens e amarra de forma perfeita o discurso do diretor. O destino de Sushenya e dos outros segue um rumo natural desde o início, e por esse motivo, seu desfecho deixa um gosto amargo extremamente realista.  Ao final, prevalecem os valores morais e éticos de Sushenya, os quais Loznitsa não julga, apenas aceita. E assim o bielorrusso realiza um grande filme melancólico com uma mensagem poderosa contra qualquer tipo de guerra.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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