Um Alguém Apaixonado – Dir. Abbas Kiarostami – 2012

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Depois de realizar uma viagem pela Itália em seu último trabalho, “Cópia Fiel”, o cineasta iraniano Abbas Kiarostami mais uma vez deixa a sua terra natal para contar uma nova história. Em “Um Alguém Apaixonado”, o cenário escolhido é o Japão. Se em seu filme anterior o diretor utilizava o peso do passado cultural europeu para dialogar com o presente, agora Kiatostami analisa o presente através de todos os meandros da cultura oriental para falar de um passado esquecido e principalmente do futuro. Abordando novamente o tema das relações amorosas, trabalhando com poucos personagens e com longos diálogos, esse novo longa funciona mesmo como uma extensão direta de “Cópia Fiel”. A trama acompanha a jovem Akiko (Rin Takanashi) uma universitária que trabalha como acompanhante de luxo para pagar seus estudos. Numa noite, Akiko recebe a ordem de seu cafetão para visitar um velho amigo, muito respeitável segundo ele. Sem conhecer o cliente, a jovem reluta dizendo que precisa se encontrar com a avó que veio do interior, mas acaba dentro de um táxi com o endereço do professor Takashi (Tadashi Okuno). Acompanhamos então a noite dos dois personagens e também o dia seguinte, quando somos apresentados ao namorado de Akiko, o humilde mecânico Noriaki (Ryo Kase).

Mais uma vez, como em “Cópia Fiel”, Kiarostami brinca com o jogo de papéis representados por seus personagens. No filme anterior, Juliette Binoche e William Schimell alternavam o papel de desconhecidos e de um casal junto há 15 anos. Aqui, a relação de Akiko e Takashi passa da relação cliente/profissional para a relação avô/neta. A diferença é que em “Um Alguém Apaixonado” esse jogo fica claro para o espectador, quando no filme anterior os papéis se confundiam sem deixar certezas. A escolha do Japão como ambientação não é mero acaso. Kiarostami está interessado no contraste cultural que o país oferece. As tradições milenares e a rigidez de outros tempos agora caminham lado a lado com a modernidade, os avanços tecnológicos cada vez mais rápidos que transformam as relações pessoais com a mesma velocidade. Essa correria, esse constante movimento, é retratado da forma mais simples pelo diretor, com os personagens quase sempre dentro de automóveis e utilizando seus celulares.

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A belíssima sequência em que Akiko está dentro do táxi a caminho do encontro com o professor é um exemplo da maestria com que Kiarostami expõe suas ideias. Temos a imagem do belo rosto da garota, com seus carnudos lábios vermelhos pintados de batom, ouvindo as diversas mensagens deixadas pela avó em seu celular enquanto as luzes dos luminosos dos edifícios de Tóquio refletem no vidro do carro e em seu rosto. A cena fica ainda mais tocante quando a jovem passa em frente à praça da estação de trem onde a avó ainda a aguarda. Akiko pede para que o taxista dê outra volta na praça, apenas para pelo menos poder ver um pouco mais sua avó, já que não terá tempo, ou talvez não tenha coragem, para encontrá-la pessoalmente. O diretor reforça o contraste entre o antigo e o novo ao colocar a idosa esperando justamente ao lado de uma estátua. Um símbolo do passado, de algo que ficou estagnado no tempo enquanto tudo se move a sua volta.

A efemeridade dos relacionamentos atuais é o que mais interessa a Kiarostami. E se o diretor começa seu filme já colocando o espectador em meio à ação, sem apresentações, com Akiko conversando com sua amiga em um restaurante lotado, não é por acaso. A câmera continua estática enquanto a personagem vai ao banheiro. Sem cortes, podemos ouvir todas as conversas, risadas, barulho de talheres, música ambiente. Toda essa confusão, esse bombardeio de informações, é o que causa o ruído nos diálogos e na compreensão entre as pessoas. “Um Alguém Apaixonado” mostra como toda tecnologia, que deveria aproximar as pessoas, acaba tendo o efeito contrário. Ela cria a ilusão da proximidade, mas acaba causando a incomunicabilidade. É preciso que entre em cena o professor Takashi (em uma interpretação magnífica de Okuno) para que o diálogo comece a fazer mais sentido. Ele, que trabalha como tradutor de livros, ou seja, alguém que detém a compreensão da palavra, um intérprete de significados, é o responsável por tentar guiar Akiko no caos de sua rotina.

O professor, que representa o tradicionalismo oriental, preparando um jantar romântico para a garota, assume o papel de avô. Não só para evitar problemas com o namorado de Akiko, mas também por um instinto realmente paternal de Takashi, mesmo frustrado pelo fato da garota recusar o jantar e apenas querer dormir. Takashi é a sabedoria, aquele que já sofreu muito por amor, que tenta ensinar algo a Akiko.

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Da mesma forma que começa, “Um Alguém Apaixonado” também termina abruptamente, deixando tudo em aberto. Mas se enganam aqueles que pensam que isso possa ser um descuido, ou relaxo do diretor. Essa incompletude é intencional. Afinal, não são assim as grandes histórias de amor? As reais, aquelas que ficam na memória? As maiores histórias de amor na vida real não terminam com “e todos viveram felizes para sempre”. Elas são, por excelência, inacabadas. Seja por uma fatalidade, como a morte da mulher de Takashi. Seja pelo medo, como a paixão secreta que a vizinha nutre há anos pelo professor. Seja pela mentira, como no caso de Akiko e Noriaki. Por diversos motivos o final feliz geralmente se restringe ao universo da ficção.

Em meio a esse embate entre o passado e o presente, surge o verdadeiro “alguém apaixonado” do filme. Aquele que é um corpo estranho na história, que ama de forma analógica em um mundo digital. É ele, Noriaki, o responsável pela quebra da situação estática na vida dos personagens. Pelo verdadeiro golpe, o impacto literal e inesperado que rompe a barreira do lugar comum. É na cena da janela quebrada que conhecemos o verdadeiro sentimento que move o filme. Um sentimento comum, porém poderoso, que é capaz de atravessar séculos. A imagem do vidro estilhaçado no chão representa a consequência dessa força. Essa imagem é simplesmente o reflexo do poder de um coração partido.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “Um Alguém Apaixonado – Dir. Abbas Kiarostami – 2012

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