36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – Repescagem

Preenchendo o Vazio – Dir. Rama Burshtein – 2012

“Preenchendo o Vazio”, primeiro longa da diretora israelense Rama Burshtein, foi o grande vencedor da Mostra SP 2012 na categoria para filmes de novos diretores. O filme conta a história de Shira, uma jovem judia de 18 anos que começa a buscar propostas para se casar. Quando a sua irmã mais velha, Esther, morre durante o parto de seu primeiro filho, a jovem Shira se vê diante de um dilema. O cunhado, Yohai, pensa em se casar novamente e recebe a proposta de uma garota judia na Bélgica. Ainda abalada com a morte da filha e vendo a possibilidade de seu genro e neto morarem em um país distante, a mãe de Shira propõe algo inesperado, que Yohai se case com a filha caçula. “Preenchendo o Vazio” nos leva para dentro de um universo fechado e desconhecido para muitos, o dos judeus ortodoxos. As rígidas regras religiosas e comportamentais dessa comunidade tornam a situação de Shira ainda mais complicada. A garota sente o peso de precisar preencher o lugar da irmã mais velha, já que atender ao pedido da mãe significaria abrir mão do sonho de casar com um homem mais jovem, algo que possui uma importância ainda maior para as mulheres dessa sociedade. A diretora busca um olhar feminista para sua história, mostrando como o papel da mulher precisa ser revisto em sua comunidade e dando espaço para muitos personagens femininos (a tia que não conseguiu se casar por não ter os braços, a prima que não consegue arranjar marido, entre outras), mas acaba pesando um pouco a mão no melodrama e na vontade de dar um ar quase divino a sua personagem principal, filmando-a sempre iluminada em meio aos ambientes escuros das cerimônias judias, envolvendo-a em uma aura celestial. Toda essa parte cerimonial, aliás, cheia de “burocracias” religiosas, acaba atrapalhando um pouco a trama. Apesar de interessantes para conhecermos melhor a cultura em questão, esses didatismos tiram um pouco do peso do drama central. Há alguns momentos delicados e belos, e a jovem atriz Hadas Yaron como Shira está ótima, sendo compreensível o inesperado prêmio de melhor atriz conquistado no Festival de Veneza desse ano. Burshtein aposta em sua estrela e por isso gruda a câmera em seu rosto para registrar toda a sua confusão de sentimentos. Mesmo com essa cativante atuação, uma história promissora e um valor cultural interessante, a falta de foco da diretora impede o filme de ter a força que poderia.

 

Estrada de Palha – Dir. Rodrigo Areias – 2012

“Estrada de Palha”, de Rodrigo Areias, é uma empreitada portuguesa no mundo do faroeste. O longa narra a história de Alberto (Vitor Correia) que depois de anos vivendo na Finlândia retorna ao seu vilarejo natal em Portugal para vingar a morte do irmão e recuperar um rebanho de ovelhas roubado. A saga de Alberto é costurada por passagens do livro “Desobediência Civil”, de David Henry Thoreau, que o personagem está traduzindo para o português. As passagens, que sempre surgem depois de um fade out, como se encerrassem um capítulo da trama, acabam trazendo um teor político ao filme, transformando o Estado no verdadeiro vilão. O Estado também é representado pelo oficial real que persegue o herói do filme. Essa vertente política não é explorada a fundo, e o espírito pop do filme aparece em referências a Leone e outros mestres do western, além de outros detalhes (a própria produtora do filme, Bando a Parte, é tanto uma referência ao filme de Godard, quanto à produtora de Tarantino). Um dos elementos a favor do longa são as belíssimas paisagens naturais e construções portuguesas, como o cenário da prisão que lembra um forte abandonado, muito bem fotografadas, e que conseguem superar o evidente baixo orçamento da produção (visível em seus figurinos, cenários internos e objetos de cena). Outro ponto positivo é a interessante presença de Correia no papel principal. O ator compõe uma figura misteriosa, seguindo a cartilha do pistoleiro calado e certeiro, além de fisicamente ter certa semelhança com Lee Van Cleef, ícone do faroeste. Há também o interessante personagem Américo, um negro que não fala português e que acaba tornando-se companheiro na jornada de Alberto. Mesmo com suas qualidades, o filme de Areias tropeça nos clichês de seu roteiro (que por vezes geram cenas de humor involuntário) e na indecisão de qual tom seguir. Por vezes parece tentar ser um faroeste reflexivo, como os de Monte Hellman. Já em outros momentos tenta ser mais comercial e moderno. A vontade de se fazer um cinema de gênero em Portugal é louvável, e percebe-se que Areias possui talento, alguns enquadramentos são muito bem concebidos, mas o resultado é irregular. De qualquer forma, “Estrada de Palha” é válido, no mínimo, como curiosidade.

 

No – Dir. Pablo Larraín – 2012

 “No” é o novo filme do chileno Pablo Larraín, do premiado “Tony Manero”. O longa trata de um dos momentos mais importantes da história do Chile, o referendo realizado em 1988 que tirou o general Augusto Pinochet do poder depois de anos de ditadura. Para contar essa incrível história real de seu país, Larraín escolheu um interessante ponto de vista, o dos profissionais responsáveis pelas campanhas políticas do plebiscito. Devido à pressão da comunidade internacional, Pinochet convocou eleições gerais para que o povo votasse na continuidade de seu governo (“Sim” para um novo mandato e “Não” para que a oposição assumisse o controle). Os partidos da oposição resolvem então chamar o jovem René Saavedra (Gael García Bernal) um publicitário de sucesso, filho de militante e que também teve que se exilar nos Estados Unidos por alguns anos, para criar a campanha do partido do “No”. Com um pensamento bastante americanizado e totalmente publicitário, René decide abandonar a linha criativa desenvolvida pela oposição, baseada nas torturas e atos de horror praticados pelo ditador, e partir algo novo, revolucionário. Utilizando como tema “A Alegria está chegando”, o René acredita que a sua causa deve ser tratada como um produto, e por tanto deve passar algo positivo, que atraia o público. Mesmo gerando a revolta de alguns mais conservadores, o partido do “No” aceita as ideias do publicitário e sua campanha começa a ter uma grande resposta da população, gerando contra-ataques do governo, que acreditava já ter vencido por antecedência a eleição. A estética escolhida pelo diretor é um dos grandes trunfos do filme. Filmado totalmente como se fossem imagens de arquivo jornalísticas da década de 80, com cores esmaecidas, um pouco fora de foco, o estilo do filme traz um realismo quase documental tornando impossível diversos momentos distinguir imagens recriadas pelo longa de imagens reais das campanhas. Assim como a ideia de René para a campanha, Larraín prefere não ir a fundo à brutalidade dos conflitos da época, escolhendo o lado bem humorado dessa disputa criativa das campanhas, transformando “No” praticamente em uma comédia, às vezes até involuntária (pois algumas das propagandas já datadas criadas pelos dois partidos são impagáveis). Esse humor é algo escancarado logo na primeira cena, quando vemos René fazer um discurso sobre a juventude chilena e o futuro, para logo em seguida apresentar a seus clientes um comercial de refrigerante. Tudo isso sem nunca banalizar os eventos e também criando alguns momentos de tensão e de drama. Válido por seu registro histórico, sua ousadia visual e sua reflexão tanto do papel da política, quanto da publicidade, “No” é com certeza um dos melhores filmes da Mostra 2012.

 

Transpapa – Dir. Sarah-Judith Mettke – 2012

Maren é uma garota com o comportamento e os problemas típicos de toda adolescente. Tem dificuldades nos primeiros relacionamentos com garotos, quer ser independente e tirar a carteira de motorista. Um dia, após receber um cartão de Natal do pai que não vê desde os 10 anos de idade, Maren discute com sua mãe e essa acaba revelando que o ex-marido tornou-se um transexual, e agora se chama Sophia. Mesmo confusa com a revelação, Maren arruma as malas e vai atrás do pai, sem o conhecimento da mãe. Guardando algumas semelhanças com “Transamérica”, produção americana de 2005 dirigida por Duncan Tucker, o filme alemão “Transpapa” gira em torno do relacionamento entre pai e filha nos dias em que passam juntos. Narrado de forma correta pela diretora estreante Sarah-Judith Mettke, o longa adota uma abordagem leve, não se esquecendo dos conflitos entre os personagens tentando compreender um ao outro, mas sem pesar a mão no drama. O humor dá o tom ao filme, que possui alguns ótimos diálogos e consegue mostrar bem temas como aceitação e preconceito. Os atores ajudam muito no agradável resultado. Luisa Sappelt convence como Maren e o ator Devid Striesow (de filmes como “Triângulo Amoroso” e “A Queda) apresenta uma composição sutil, bem–humorada e na medida para o pai/Sophia, sem cair em exageros. Mais um bom filme alemão conferido na Mostra.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: