36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – Parte III

O Gebo e a Sombra – Dir. Manoel de Oliveira – 2012

A disposição, a produtividade e a paixão pelo cinema do português Manoel de Oliveira são admiráveis. Aos 103 anos de idade, o cineasta continua a realizar obras relevantes, com uma média de quase um filme por ano desde a década de 90. Financiado pela produtora O Som e a Fúria, responsável por filmes da nova geração premiada de cineastas portugueses, como Miguel Gomes, “O Gebo e a Sombra” é o mais recente trabalho de Oliveira. Baseado na peça de mesmo nome, de Raul Brandão, o filme narra a história de Gebo, o humilde contador de uma empresa no século XIX, que vive uma rotina simples ao lado da nora e da esposa. Após o desaparecimento de seu filho, que fugiu de casa para viver nas ruas, tornando-se um ladrão, Gebo omite o fato da esposa fazendo-a acreditar que o filho está servindo o exército. Quando inesperadamente João, o filho, reaparece em casa, Gebo tem que enfrentar seu comportamento arredio e também continuar mantendo a mentira contada para a esposa. Filmado com muita elegância e apuro estético por Oliveira, o longa não esconde suas origens teatrais. Os poucos cenários (lindamente fotografados e iluminados) e os longos diálogos são capturados pelo diretor com maestria em diversos planos-sequência. Apesar da direção segura, o filme depende muito do texto, e esse é seu único ponto imperfeito, não pela qualidade da peça de Brandão, já que ela levanta diversas questões interessantes sobre moral, valores da sociedade e sobre o lado obscuro do comportamento humano, tudo com humor sutil e repleto de ironia. Mas para falar sobre a estagnação da vida de Gebo e sua família, o texto recorre à uma repetição de situações, e essa forma escolhida pelo autor torna a narrativa um pouco arrastada, mesmo nas mãos habilidosas do mestre português . Independente desse ritmo lento, um filme com a direção de um dos cineastas mais importantes da história da sétima arte e com um elenco que conta com nomes como Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, além dos portugueses Ricardo Trêpa e Leonor Silveira (colaboradores frequentes de Oliveira), jamais poderá ser menosprezado.

 

La Noche de Enfrente – Dir. Raoul Ruiz – 2012

“La Noche de Enfrente” é o último trabalho do diretor chileno radicado na França, Raoul Ruiz, falecido em 2011. Sua obra final não poderia ser mais representativa, sendo praticamente um resumo de todos os traços que marcaram sua carreira. A história mostra Don Celso (Sergio Hernández) funcionário de uma empresa prestes a se aposentar e que começa a analisar sua vida misturando as figuras que o cercam em seu dia a dia com delírios e memória de sua infância. Esse personagem parece mesmo ser um alter ego do diretor, representando toda a sua criatividade e imaginação. Desde criança Celso já vivia fantasiando, imaginando conversar e andar ao lado de figuras históricas como Beethoven e fictícias como Long John silver. O filme acaba sendo uma grande alegoria sobre a passagem do tempo e como encarar a morte, já que o personagem passa a história toda à espera do homem que virá para matá-lo. Durante o longa, fantasia e realidade caminham lado a lado, sendo quase impossível distinguir quais situações são reais ou não. Esse tom fantasioso é reforçado pela ótima direção de arte que dá aos belos cenários um ar propositalmente falso, assim como as projeções que o diretor utiliza para as paisagens e cenários ao fundo nas cenas que se passam em locais externos. “La Noche de Enfrente’ é repleto de cenas oníricas e surreais, que se tornam ainda mais belas devido aos planos precisamente concebidos por Ruiz. A elegância dos movimentos de câmera e dos enquadramentos milimetricamente pensados enchem a tela. Ainda há espaço para diálogos muito bem humorados, quase nonsense, abordando diversos assuntos, inclusive a situação política chilena. Embarcar nessa proposta de Ruiz realmente exige uma predisposição do espectador. Mas para aqueles que aceitam entrar nesse mundo fantástico, a viagem que Ruiz proporciona é sem dúvidas fascinante. “La Noche de Enfrente” é o testamento de um verdadeiro artista.

 

Hemel – Dir. Sacha Polak – 2012

A produção holandesa “Hemel”, da diretora estreante em longas, Sacha Polak, acompanha do dia a dia da personagem que dá nome ao filme, uma garota entre seus 20 e 30 anos, que vive de relacionamentos sem muito significado, geralmente baseados apenas em sexo. Apesar da sua aparente liberdade e independência, Hemel (que significada “paraíso” em holandês) possui uma relação não muito convencional com seu pai, Gijs. Ambos são muito próximos, e Hemel é extremamente dependente de Gijs, além de ser ciumenta com as namoradas, sempre mais novas, do pai. Dividido em capítulos, em sua maioria sobre os diferentes homens com os quais a personagem principal se relaciona, o filme procura mostrar que o vazio dos casos de Hemel esconde na verdade o seu desejo de finalmente descobrir a diferença entre sexo e amor. É uma pena que os fatos se acumulem sem realmente conseguirem ter alguma profundidade. A estranha relação entre pai e filha não chega a ser bem explorada, deixando tudo apenas na sugestão, sem conclusão. Da mesma forma, o trauma da garota em relação à morte da mãe (um suicídio que o pai nunca revelou à filha) também não é desenvolvido como poderia. A diretora filma as cenas mais ousadas sem pudores, e tanto Hannah Hoekstra (que interpreta Hemel), quanto Hans Dagelet (como o pai) estão ótimos, mas faltam conflitos reais a trama, que apesar de alguns momentos interessantes, acaba decepcionando.

 

Infância Clandestina – Dir. Benjamín Ávila – 2012

“Infância Clandestina”, de Benjamín Ávila, é o filme selecionado pela Argentina para concorrer a uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. E ao que tudo indica as chances de pelo menos mais uma indicação para o país são grandes, já que o filme apresenta diversos elementos que sempre agradam a academia: bons atores mirins, história de amadurecimento e ditadura como pano de fundo. Nossos hermanos parecem ter encontrado uma fórmula quase infalível para criar ótimos filmes, que unem bons roteiros e criatividade com um apelo bem comercial. Aqui temos a história de um casal de revolucionários que foge da Argentina nos anos 70. Depois de rodar a América, passando por Brasil, Cuba e outros países, eles resolvem retornar para sua terra natal, trazendo o filho de 12 anos, Juan. Ao chegar a seu país, eles adotam identidades falsas, Juan passa a se chamar Ernesto (referência que nem precisava ser explicada), e mantém um trabalho de fachada para encobrir suas atividades guerrilheiras. Guardando algumas semelhanças com o brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, o filme é narrado através da perspectiva de Ernesto e por isso torna-se um filme de passagem, com o garoto descobrindo o primeiro amor, e tendo que enfrentar as dificuldades de crescer. Em alguns momentos o filme exagera um pouco no melodrama, e algumas sequências, como as de animação, parecem estar ali apenas para deixar o longa com um visual mais pop. Isso não impede o filme de atingir seus objetivos. Bem conduzido por Ávila e com ótimas atuações, “Infância Cladestina” consegue suprir seus deslizes com cenas delicadas, como a em que o tio de Ernesto (de longe o melhor personagem do filme) explica ao garoto as semelhanças entre as mulheres e uma caixa de chocolates com amendoim. Mesclando bem o drama e o humor, sem se aprofundar muito nas questões políticas, esse é mais um bom exemplo do competente cinema comercial argentino.

 

 Inferno – Dir. Tim Fehlbaum – 2011

A produção alemã “Inferno”, dirigida por Tim Fehlbaum, apresenta um futuro pós-apocalíptico onde a temperatura do planeta atingiu níveis insuportáveis, transformando-o em um enorme deserto. Nesse ambiente hostil, em que alguns minutos de exposição ao sol podem causar queimaduras permanentes, os sobreviventes vagam cobertos da cabeça aos pés em busca de água e suplementos (como comida e gasolina). A trama acompanha um trio desses sobreviventes formado pela garota Leonnie, sua irmã mais velha Marie e o namorado Phillip. Depois de uma parada no meio da estrada, os três (acompanhados pelo misterioso Tom) acabam cruzando o caminho de um violento grupo que toma outros sobreviventes como prisioneiros. “Inferno” possui diversas referências, que vão de “Mad Max” a “A Estrada”, passando por “Madrugada dos Mortos” e “O Massacre da Serra Elétrica”. A fórmula já é conhecida, mas é bem trabalhada pelo diretor Fehlbaum, que utiliza uma fotografia estourada, que lembra a de “Ensaio Sobre a Cegueira” e consegue criar um bom clima de tensão com alguns sustos e boas surpresas. Observando o resultado final, o nome de Roland Emmerich (diretor de filmes-catástrofe, como “Independence Day” e “O Dia Depois de Amanhã”) como produtor executivo do longa não é surpresa. A influência hollywoodiana em “Inferno” é bem clara, mas não é um demérito. O filme consegue reciclar clichês de forma convincente, garantindo o entretenimento. E é sempre interessante ver um filme de gênero bem realizado vindo de um país sem tanta tradição nesse segmento. Um bom passatempo com sotaque alemão.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: