36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – Parte II

Mais mini resenhas dos filmes conferidos na Mostra 2012:

La Demora – Dir. Rodrigo Plá – 2012

A coprodução México-Uruguai “La Demora”, de Rodrigo Plá, mostra a história de María (Roxana Blanco), uma costureira que trabalha duro para sustentar sozinha seus três filhos e cuidar de seu pai, Agustín (Carlos Vallarino) que já apresenta problemas de memória (vive se perdendo sempre que sai sozinho na rua) devido a sua idade avançada. Sem poder contar com a ajuda da irmã, María resolve procurar uma vaga para o pai em um abrigo público, mas mesmo sem ter dinheiro para pagar uma instituição privada, a situação financeira de María é considerada fora dos padrões para que Augustín seja aceito no asilo do governo. Sem encontrar uma saída para a situação, a costureira toma uma decisão impensada e em um ato de desespero resolve abandonar o pai sem documentos em uma praça, para depois avisar a polícia e assim ele ser levado para o abrigo público. Quando se arrepende de sua atitude, María começa uma busca frenética pela madrugada tentando reencontrar o pai. A força de “La Demora” vem justamente da simplicidade de sua história e da sinceridade com que é narrada. É impossível não se imaginar no lugar dos personagens, pois o filme trabalha algo que um dia afetará a vida de todos: a velhice. A vontade de Agustín em não se tornar um estorvo para a filha é tocante, assim como, analisando a situação de María, fica difícil julgá-la mesmo depois de uma atitude tão cruel. As magníficas atuações de Vallarino e Blanco transmitem uma veracidade brutal, sendo possível sentir o peso da culpa, da idade, etc, apenas em seus olhares e gestos. A direção de Plá é delicada e sabe bem como trabalhar cada plano, sem se apressar ou se prolongar demais. Mesmo que o seu final seja previsível, ele é completamente aceitável, pois qualquer grande reviravolta destoaria do resto do filme, que até ali já havia cumprido o seu papel de emocionar e capturar a atenção do público. Com certeza um dos melhores filmes conferidos nessa Mostra.

 

Après Mai – Dir. Olivier Assayas – 2012

De Philippe Garrel em “Amantes Constantes” a Bernardo Bertolucci em “Os Sonhadores”, diversos diretores já realizaram obras sobre os acontecimentos do Maio de 68 na França. O novo cineasta a abordar o tema é o francês Olivier Assayas, com seu mais recente longa “Après Mai”. Trabalhando com um elenco 100% jovem, quase desconhecido, e ajudado por uma ótima trilha sonora (com Captain Beefheart, Soft Machine, Tangerine Dream, Booker T & The MG’s, entre outros), Assayas apresenta uma narrativa até certo ponto convencional e didática sobre os anos da década de 60 que antecederam o Maio de 68. O dia a dia dos jovens colando cartazes, fazendo reuniões, realizando protestos, pichações e confrontando a polícia é narrado detalhadamente de forma quase documental. A parte dramática da história deriva do olhar que Assayas lança sobre a revolução, o olhar do artista. Nesse ponto, “Après Mai” possui diversas conexões com o recente filme nacional “Cara ou Coroa”, passado na época da Ditadura Militar. Ambos debatem o papel da arte na luta política e o sentimento de confusão dos jovens, que muitas vezes não entendem muito bem a causa pela qual lutam ou suas reais motivações. Em determinado momento do filme, seu personagem principal, Gilles, começa a questionar qual a sua contribuição como artista para a causa. Pintor e com desejo de se tornar cineasta, Gilles acredita que criar uma nova linguagem, diferente e que possa representar sua luta é muito mais importante do que utilizar a linguagem tradicional, a burguesa, para fazer documentários sobre a luta de operários no Laos ou na Itália. Com essa sua sede pelo novo, Gilles acaba se tornando a representação do espírito de Godard, Truffaut e todos que fizeram parte da Nouvelle Vague, de quem Assayas é herdeiro direto. Não é por acaso que o terceiro ato mostra Gilles indo trabalhar com cinema comercial na Inglaterra e logo depois frequentando sessões de filmes “experimentais”. Essa é a essência da Nouvelle Vague, pegar o melhor dos artesãos de Hollywood (Hitchcock, Ford, Hawks) e traduzir em uma linguagem própria. No final das contas, Assayas aponta para o presente, em que o cinema francês nunca foi tão hollywoodiano. A sua mensagem é clara, o cinema americano deve ser utilizado como referência, mas não se pode deixá-lo engolir o cinema francês. Antes de tudo deve se lutar para manter intacta a sua própria identidade.

 

Um Alguém Apaixonado – Dir. Abbas Kiarostami – 2012

 Kiarostami vai até o Japão para realizar mais um grande filme, dessa vez sobre amores platônicos e inacabados. Resenha completa em breve no blog.

 

 

 

 

 

 

 

 

Chamada a Cobrar – Dir. Anna Muylaert – 2012

A premiada diretora Anna Muylaert, de “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”, adapta para o cinema o seu média metragem produzido para a TV chamado “Para Aceitá-la, Continue na Linha”, agora com o nome de “Chamada a Cobrar”. A história mostra Clara, uma dona de casa de classe média alta, que acaba caindo no famoso golpe em que bandidos dentro de presídios cariocas simulam um falso sequestro, no caso o da filha de Clara. Seguindo as instruções do sequestrador, Clara acaba fazendo uma viagem até o Rio, e o filme se transforma em road movie. A transição para a tela grande carrega ainda uma estética típica da TV, e talvez o filme funcionasse melhor como um curta ou média metragem, como originalmente concebido. Ainda assim, “Chamada a Cobrar” prende a atenção por sua história tão facilmente identificável e pelo verdadeiro tour de force da atriz Bete Dorgam na pele da personagem principal. Ela consegue passar com total veracidade o desespero de uma mãe, e mesmo que tome diversas atitudes “burras”, elas tornam-se completamente críveis devido a sua interpretação. A cena do orelhão próxima ao final é extremamente tocante. Mesmo com suas falhas, Muylaert continua comprovando seu talento.

 

Keyhole – Dir. Guy Maddin – 2011

 Em “Keyhole”, o diretor canadense Guy Maddin repete as suas obsessões pelos movimentos cinematográficos do início do século XX, em especial o Expressionismo Alemão e fase surrealista do Buñuel. Filmando em preto e branco e emulando os ângulos e texturas do cinema mudo, Maddin ainda adiciona alguns elementos dos filmes de gangster dos anos 30 e até dos primeiros filmes de Hitchcock, como “O Inquilino”. A história parece ser uma grande metáfora para o purgatório, onde todos os personagens (interpretados por bons nomes, como Jason Patric e Isabella Rossellini) são fantasmas presos em uma mansão e obrigados a resolverem as pendências que os impedem de finalmente partirem para o descanso eterno. Como em toda a filmografia do diretor, “Keyhole” lembra um quebra-cabeça, cheio de simbolismos e aberto a muitas interpretações. Mas se em outros filmes essa mistura funciona, aqui ele exagera em sua narrativa criptografada, fazendo com que um filme de Lynch, como “Cidade dos Sonhos” pareça quase compreensível em comparação. Com tantas mensagens indecifráveis, Maddin torna seu filme praticamente impenetrável para o espectador. Para fazer uma alusão ao título do longa, o diretor nos deixa observar pelo buraco da fechadura, mas nunca permite que possamos abrir a porta e entrar verdadeiramente em sua história. Uma pena, pois fica a sensação de que realmente há algo interessante por trás dessa barreira criada pelo próprio cineasta.

 

Para Ellen – Dir. So Yong Kim – 2012

 A Mostra também tem suas decepções e a primeira de 2012 é esse “Para Ellen”, da sul-coreana So Yong Kim, diretora do ótimo “Montanha do Abandono”. Infelizmente seu novo trabalho fica bem aquém do anterior. Se antes ela conseguia demonstrar delicadeza e beleza de forma tocante, aqui as belas imagens parecem sempre estar em busca de algo a contar, mas sem nunca encontrar. Não existem conflitos realmente interessantes, e os silêncios que no trabalho anterior tinham significado, aqui só provocam a sensação de desconforto, como se realmente faltasse algo a dizer no roteiro. O ator Paul Dano se esforça no papel do roqueiro que luta pela guarda da filha que nunca viu, mas seu personagem também não é bem desenvolvido. E como o foco é total nesse personagem, já que os coadjuvantes mal aparecem, o filme não funciona. Restam apenas alguns bons momentos entre Dano e a garotinha que interpreta a filha. Ela é ótima, espontânea e atua com naturalidade. Mesmo assim, é muito pouco perto do talento que Kim já demonstrou ter.

 

A Parte dos Anjos – Dir. Ken Loach – 2012

 Depois de uma derrapada com seu filme anterior, “Rota Irlandesa”, o britânico Ken Loach recupera a boa forma com “A Parte dos Anjos”. Utilizando muito humor, Loach segue uma linha parecida com a de seu trabalho em “À Procura de Eric”, onde a comédia e o drama se mesclavam aos comentários políticos e sociais característicos do diretor. Aqui temos a história de Robbie (Paul Brannigan), um jovem delinquente que tenta mudar de vida no momento em que sua namorada engravida. Além de enfrentar os pais da garota e uma gangue que o persegue, Robbie tem que cumprir suas horas de trabalho comunitário, e é com a ajuda de seu instrutor que ele descobre o maravilhoso mundo da degustação de uísque, encontrando aí a possibilidade para um recomeço. Divertido, com boas viradas na trama e muito bem atuado, “A Parte dos Anjos” faz jus ao Prêmio do Júri recebido em Cannes esse ano.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – Parte II

  • Joyce

    Oi Leonardo, gostei muito dos seus comentários…vou te seguir no blog.
    E você,gostou do filme No , ontem , na mostra ?
    Joyce,da fila….

    • Leonardo Ribeiro

      Olá Joyce! Obrigado por visitar o blog! Gostei muito de “No”, um dos meu favoritos dessa Mostra. É um filme que aborda muito o mundo da publicidade, e como além de cinéfilo sou publicitário, foi um prato cheio hehe
      Continue visitando o blog que amanhã devo atualizar com as últimas mini resenhas da Mostra.
      Abraços.

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