Moonrise Kingdom – Dir. Wes Anderson – 2012

Desde seu trabalho de estreia, “Pura Adrenalina”, o diretor Wes Anderson conseguiu estabelecer o seu nome no cenário do cinema independente americano. Passados mais de 15 anos, a influência da obra de Anderson fica clara em boa parte dos filmes indies lançados a cada ano. Seja em sua estética ou na construção de personagens, a cartilha criada pelo cineasta é seguida quase a risca por muitos diretores debutantes. Mesmo com tantas cópias no mercado, os filmes de Anderson distinguem-se facilmente para quem já conhece o seu trabalho, pois poucos que tentam emular seu estilo conseguem um resultado realmente próximo do original.

Após sete longas lançados, o diretor aperfeiçoou com maestria a sua capacidade de criar universos particulares que são facilmente identificáveis pelo público, carregando sempre as suas marcas visuais e temáticas. Seja em uma escola (“Três é Demais”), na mansão de uma família tradicional (“Os Excêntricos Tenenbaums”) ou em um submarino/barco (“A Vida Marinha com Steve Zissou”), Anderson é capaz de trabalhar seus microcosmos de maneira que sejam diferentes entre si, mas que dialoguem com o todo de sua obra. Em seu filme mais recente, “Moonrise Kingdom”, o cenário escolhido é uma pequena ilha fictícia na costa norte-americana, New Penzance. Apesar de situar a sua história em uma época definida – a trama se passa em 1965 – a ilha parece estar deslocada no tempo e espaço, possuindo características próprias que chegam a níveis quase surreais, exatamente como os universos dos filmes anteriores do diretor. Da mesma maneira, esse deslocamento se estende para os seus personagens, sempre em busca de tentar encontrar o seu lugar no mundo.

O protagonista de “Moonrise Kingdom” é Sam (Jared Gilman), um garoto órfão de 12 anos que resolve abandonar o acampamento dos Escoteiros Cáquis para fugir com Suzy (Kara Hayward), também de 12 anos e filha do casal de advogados Walt (Bill Murray) e Laura (Frances McDormand). Ambos não conseguem se relacionar com as pessoas a sua volta. Enquanto Sam vive mudando de lar adotivo e é rejeitado por seus companheiros escoteiros, Suzy tem problemas com os pais e irmãos devido a seus repentinos ataques de violência. Desde o primeiro encontro, a identificação entre os dois é evidente, e por isso, mesmo sem se conhecer de fato, Sam e Suzy sentem-se seguros quando estão juntos. Um pode realmente compreender o outro. “Moonrise Kingdom” se estabelece assim, como um filme de passagem, de amadurecimento. A descoberta da amizade verdadeira, do primeiro amor, da sexualidade e das desilusões são os ingredientes que movem a trama. Aproveitando a paixão de Suzy pela leitura, especialmente pelas histórias com reinos encantados e criaturas mágicas, Anderson adota claramente um tom de fábula para desenvolver sua narrativa, elevando os momentos de surrealismo do filme ao status de pura fantasia, incluindo o perigo eminente de uma grande tempestade (algo que já é revelado logo no ínicio do filme e garante um traço de suspense ao filme) e também alguns momentos de violência totalmente inesperados.

O apuro visual rigoroso do diretor ganha novas proporções aqui, garantindo assim o clima fantasioso desejado. Os belíssimos travellings que acompanham a rotina da família de Suzy pelos cômodos de sua casa, logo nos primeiros minutos do filme, já mostram o domínio técnico de Anderson. A fluidez do trabalho de câmera é impressionante, e suas composições simétricas de objetos, cores e personagens enchem a tela com a belíssima fotografia de Robert D. Yeoman. O diretor sempre mostrou apreço pelo vintage – muito antes que qualquer um inventasse a expressão hipster – e dessa vez esse seu gosto particular pôde ser explorado ao máximo, já que o filme se passa na década de 60. O toca discos, as latas de comida para gato, os carros antigos, os figurinos, o cachimbo que Sam fuma, todos esses elementos estão inseridos no contexto de época, e por isso o diretor abusa com gosto de seu uso. Nem por isso os personagens deixam de ter o toque saudosista presente na obra do diretor, como nos discos com músicas de orquestra do início do século XX que os irmãos de Suzy ouvem. A vontade de viver em um outro tempo, a “Síndrome de Meia Noite em Paris”, está presente no filme.

A simetria e o equilíbrio dos enquadramentos criados por Anderson continuam sendo um contraponto para o desequilíbrio de seus personagens, em especial os adultos. Ainda que se sintam incompreendidos, Sam e Suzy sabem exatamente o que são e o que querem. Diferente dos pais da garota, do policial da cidade vivido por Bruce Willis (que mantém um caso com a mãe de Suzy) ou até mesmo do chefe dos escoteiros, interpretado por Edward Norton. Eles são os maiores problemáticos do filme. Mesmo com ótimas interpretações de todo seu elenco adulto, principalmente de Willis, e de várias participações especiais (Harvey Keitel, Tilda Swinton, Bob Balaban e Jason Schwartzman), o destaque é mesmo o jovem casal protagonista. Apesar de ser o primeiro trabalho para o cinema de Hayward e Gilman, os dois estão extremamente seguros em seus papéis, transmitindo inocência e ingenuidade mesmo com personagens que tentam agir como adultos. A câmera de Anderson não se cansa de close ups nos rostos dos dois, que possuem uma presença bem peculiar, perfeitas para os tipos criados pelo diretor. A sequência em que Sam e Suzy dão o primeiro beijo e dançam na praia é magnífica pela sua espontaneidade, assim como toda a metáfora sobre a primeira vez, representada no ato de furar as orelhas para colocar um par de brincos.

Depois de tantos momentos singelos, como a cena da praia, o final épico com a chegada da tempestade ganha ainda mais peso. Anderson desconstrói para poder reconstruir.  A destruição causada pelo furacão e pela chuva torrencial, feita para levar os problemas dos personagens em sua enxurrada, vem para que o recomeço possa ser possível. Com isso, o cineasta consegue também amarrar perfeitamente a conexão estabelecida com a história da Arca de Noé, que é encenada pelos alunos do colégio de Suzy.

“Moonrise Kingdom” representa o auge da obra de Wes Anderson. Através de sua fábula, ele consegue tirar naturalidade e sinceridade da aparente artificialidade dos personagens. Todas as suas idiossincrasias estão a serviço da beleza das imagens, mas Anderson toma o cuidado de também conseguir tocar profundamente os sentimentos de seu espectador. E não há nada mais belo do que isso.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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