Ted – Dir. Seth MacFarlane – 2012

O roteirista e diretor Seth MacFarlane já tem seu nome estabelecido na comédia da TV norte-americana. Criador de “Family Guy”, uma das séries animadas mais cultuadas e influentes da última década, além de outros programas de sucesso, como “American Dad” e “The Cleveland Show”, MacFarlane possui um estilo de humor caracterizado pela ironia e pelo politicamente incorreto, sempre caminhando na linha tênue do quase inaceitável e até do mau gosto.  Em “Ted”, seu primeiro trabalho para o cinema, o diretor consegue transpor suas marcas registradas sem se entregar as convenções hollywoodianas e oferece tudo aquilo que quem acompanha o dia a dia de Peter Griffin e companhia poderia esperar.

“Ted” conta a história de John Bennett, um solitário garoto de 8 anos, que não possui amigos e é ignorado até pelas vítimas de bullying do bairro. Ao ganhar um urso de pelúcia no Natal, o garoto faz um pedido a uma estrela cadente para que seu brinquedo ganhe vida e torne-se o seu melhor amigo. Na manhã seguinte, o desejo de John se realiza, e num passe de mágica, Ted começa a andar e falar. Passado muito tempo, John, agora com 35 anos (vivido por Mark Wahlberg) continua vivendo com seu melhor amigo felpudo, dividindo seu tempo entre um trabalho sem muito futuro em uma locadora de automóveis, tardes fumando maconha e assistindo TV ao lado de Ted e o relacionamento com sua namorada, Lori (Mila Kunis). Depois de quatro anos de namoro, vendo sua relação estagnada e seu companheiro sem perspectivas ou ambições, Lori dá um ultimato a John, pedindo que ele escolha entre ela e Ted, acreditando que a convivência com o urso apenas atrasa a vida de seu amado, impedindo que ele realmente cresça e assuma responsabilidades como todo adulto.

Esse triângulo é uma das bases clássicas para a fórmula das comédias românticas, e MacFarlane se aproveita disso para tornar seu produto um pouco mais palatável para o grande público, mas sem perder a chance de fazer piadas com os clichês desse gênero. Desde o começo com a narração em off de Patrick Stewart, que para abruptamente o seu tom fantasioso para fazer piada com helicópteros de guerra, fica claro que os elementos que tornaram “Family Guy” um grande sucesso estarão presentes no longa. MacFarlane dispara sua metralhadora de humor negro para todos os lados, sem deixar ninguém ileso. Piadas com o 11 de setembro, com árabes, gays, celebridades, como Justin Bieber, Taylor Lautner e Katy Perry, e principalmente, a própria cultura norte-americana. Talvez esse seja o ponto mais incompreendido na forma como o diretor trata a comédia. Muitos taxam suas piadas apenas como preconceituosas, como insultos, mas não percebem que elas acabam tornando-se críticas em relação a quem pensa ou acredita no que seus personagens falam e em suas atitudes. MacFarlane é democrático, pois não exclui nenhum público de sua ironia.

Além da irreverência, fica clara novamente a quantidade de referências que o cineasta possui, e que não se limitam ao mundo nerd e da cultura pop, apesar desse tipo de citação ser constante. Temos piadas com “Star Wars”, “Indiana Jones”, “Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu”, “Os Embalos de Sábado a Noite”, “Superman”, com a música dos anos 90 e  o grande achado de “Ted”, trazer de volta a tona o filme “Flash Gordon” de 1980, dirigido pelo britânico Mike Hodges. “É tão ruim, mas é tão incrível”, essa é a definição de John para a ficção científica, que se ainda não havia concretizado seu status de Cult, com certeza irá após “Ted”. Todas as sequências que incluem a participação do canastrão Sam J. Jones, intérprete do herói Flash Gordon no cinema, estão entre as melhores do longa. MacFarlane utiliza a famosa trilha sonora do Queen, e recria algumas cenas do filme original, sempre com resultados hilários.

Existe espaço no filme também para piadas escatológicas e muito humor físico, mas até nesses momentos que podem parecer mais apelativos, o filme se sai bem, pois os utiliza com o timing certo, sem ser totalmente óbvio. A luta entre Ted e John no quarto de hotel é um ótimo exemplo, digna das melhores lutas de “Family Guy”, em especial as de Peter com o Frango Gigante, se alongando muito mais do que aconteceria em qualquer outra produção. Esse prolongamento da piada é outra das características marcantes das séries de MacFarlane, que traz sempre o risco da situação perder o tempo cômico. Mas o diretor sabe como trabalhar esse risco com habilidade juntamente com seu elenco. Wahlberg está ótimo, assim como Kunis, que é colaboradora de longa data do diretor (a atriz é a dubladora de Meg em “Family Guy”) e o próprio MacFarlane fazendo a voz de Ted. Há ainda boas cenas com o elenco coadjuvante e participações especiais, como Norah Jones, Tom Skerrit, Ryan Reynolds (em aparição calada, mas imperdível) e do já citado Sam J. Jones.

Além da atuação do elenco, deve-se destacar o ótimo trabalho de computação gráfica que dá vida a Ted. Os movimentos e expressões faciais são sempre críveis, assim como sua interação com os atores. E o efeito de ver tantos absurdos saindo de um urso de pelúcia tão amável nunca perde a graça. É provável que nem todos se divirtam tanto com o filme, já que a comédia é talvez o gênero que mais gere opiniões divergentes. O gosto, o senso de humor de cada pessoa, deve ser sempre levado em consideração, pois mesmo que tenha diversas qualidades inegáveis, “Ted” definitivamente não será uma unanimidade.  Que o diga certo político brasileiro.

Polêmicas a parte, para quem aprecia o humor politicamente incorreto e já está habituado com o trabalho anterior de Seth MacFarlane, “Ted” é um prato cheio e não decepciona seu público cativo.

Por Leonardo Ribeiro

Anúncios

Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

3 respostas para “Ted – Dir. Seth MacFarlane – 2012

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: