Cara ou Coroa – Dir. Ugo Giorgetti – 2012

Existem alguns períodos históricos que acabaram se tornando temas recorrentes na cinematografia de cada país. Para os norte-americanos, temos a Guerra do Vietnã. Para os franceses, o Maio de 68. Para os italianos, o governo de Mussolini, isso só para citar alguns exemplos. No cinema nacional, a Ditadura Militar é sem dúvidas o momento de nossa história mais retratado nas telas, servindo como cenário para as mais diversas produções, como “O Que é Isso Companheiro?”, “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e muitos outros. Em seu mais recente filme, “Cara ou Coroa”, o veterano diretor Ugo Giorgetti volta seu olhar para esses anos tão conturbados do Brasil. O diferencial de seu longa para a maioria das produções que tratam do mesmo tema, é a visão mais bem-humorada do diretor, sem deixar a crítica e os comentários sociais e políticos de lado, uma tendência já vista em seus trabalhos anteriores, como “Boleiros”, “A Festa” e “Sábado”.

O ano é 1971, e o diretor de teatro João Pedro (Emílio de Mello) finaliza seus ensaios na tentativa de levar aos palcos a peça “O Interrogatório”, de Peter Weiss, com a ajuda financeira do Partido Comunista. Depois de uma nova briga com a esposa, causada pela constante falta de dinheiro e pelo seu vício com apostas em corridas de cavalo, João Pedro se hospeda na casa de sua irmã budista, enquanto não resolve seu impasse matrimonial. Para piorar a situação, ele recebe uma ordem do Partido para encontrar um novo local que possa servir de abrigo para dois companheiros comunistas procurados pelo governo. Para ajudá-lo a resolver essa questão, João Pedro recorre a seu irmão, Getúlio (Geraldo Rodrigues), um jovem que largou a faculdade, que deseja se tornar um autor teatral e vive com o tio, um taxista de direita e conservador, interpretado por Otávio Augusto.  Sem encontrar mais nenhuma alternativa, João Pedro tem a ideia de esconder os dois companheiros na casa de Lilian (Júlia Ianina) a namorada de Getúlio, uma estudante de filosofia da USP, que vive com seu avô em uma casa grande localizada em uma rua de pouco movimento, o local perfeito para a missão. Porém, existe um detalhe crucial que pode colocar tudo a perder: o avô de Lilian é um conhecido general reformado do exército brasileiro.

Contando com uma excelente reconstituição de época, repleta de pequenos detalhes, e com o trabalho sempre competente do diretor de fotografia Walter Carvalho, Giorgetti filma como se o perigo estivesse sempre à espreita, muitas vezes posicionando a câmera entre frestas e objetos, como se fosse uma “câmera escondida”. O cineasta valoriza muito também os closes nos rostos de seus protagonistas, transmitindo a urgência e inquietude dos jovens dentro desse momento político. Mesmo com essa subtrama de suspense, Giorgetti nunca deixa o humor de lado, inserindo sempre ótimas tiradas irônicas. O grande alívio cômico do filme fica mesmo com o personagem de Otávio Augusto, em uma grande atuação. Mesmo com participações curtas, o ator sempre rouba a cena, chamando João Pedro de “aquele comunista”, dizendo não ver diferença entre budistas e macumbeiros e reclamando constantemente do dinheiro que emprestou pra o sobrinho montar uma peça, que acabou sendo um fracasso e foi censurada pelo governo. As piadas sobre seu posicionamento político também são ótimas, em especial a que envolve um jovem Paulo Maluf.

Giorgetti utiliza todos esses elementos para falar sobre o papel da arte como ferramenta de protesto político. A história se passa no momento em que o grupo de teatro de Nova York, Living Theatre foi preso durante sua excursão pelo Brasil, e o diretor mostra que o teatro também pode ser uma forma de expressão política. A decisão por não retratar os conflitos entre comunistas e militares de forma mais contundente, ou mostrar os abusos e torturas vividos pelos que lutavam contra o governo, a princípio pode soar apática, ou mostrar uma falta de posicionamento por parte do diretor. Ao contrário, essa escolha narrativa não busca amenizar as barbaridades acontecidas na época, mas sim apresentar a visão de uma grande parcela, talvez a maior, daqueles que viveram esses dias. Pois os dois extremos desse conflito, os oficias militares e os que realmente foram à luta para tentar derrubar o governo, representam uma minoria da população. A maior parte das pessoas ficava no meio do fogo cruzado, sofrendo as consequências da Ditadura e da opressão, mas muitas vezes sem saber exatamente de que lado ficar ou sem condições ou coragem para enfrentar as autoridades, até pelas informações desencontradas que recebiam. A cena em que um personagem tenta vender as cópias do mimeógrafo das notícias do jornal Estado de São Paulo, sem os cortes da censura, representa bem essa busca pela informação. Essa confusão afeta até mesmo o personagem do avô de Lilian, em bela aparição de Walmor Chagas, que apesar de não apoiar o comunismo, também não concorda com os rumos que as atitudes de seu valoroso exército estavam tomando.

Há espaço no filme até mesmo para discutir as atitudes da esquerda, já que mesmo dando apoio a peça de João Pedro, o líder do Partido não vê com bons olhos a “liberdade artística” e os métodos do diretor, o que não deixa de ser também uma forma de censura. “Será que temos que achar que apenas nós estamos certos?” questiona João Pedro. Em outro momento, o personagem reflete sobre o papel dos jovens nas revoluções:  “Talvez seja injusto e até covardia de nossa parte envolver os jovens nessa luta, nos aproveitando do seu natural espírito de revolta contra qualquer tipo de autoridade, utilizando sua energia para uma causa que eles nem sempre compreendem completamente.”

Em meio a todos esses questionamentos, Giorgetti demonstra um tom até saudosista, evidenciado pela narração em off no início e ao final do filme, encontrando também espaço para uma visão de certa forma poética e idealizada da época. Essa visão é representada pelo romance entre Getúlio (uma ótima escolha de nome para o personagem, diga-se de passagem) e Lilian, e até na construção da imagem dos dois que remete muito aos filmes da Nouvelle Vague francesa, em especial a garota, que se veste e tem trejeitos das personagens femininas dos filmes de Truffaut e Godard.

No fim, “Cara ou Coroa” não trata meramente do saudosismo em relação ao passado, mas sim do inconformismo em relação ao presente. Pois para Giorgetti, mesmo sendo rebeldes ainda em busca de uma causa, os jovens e o povo em geral faziam valer o seu poder nos tempos da Ditadura muito mais do que fazem nos dias de hoje, em que vivemos em uma democracia e, portanto, com liberdade para nos expressar. O problema é que pouco lutamos para resolver os problemas do país.

Mesmo apresentando uma embalagem mais palatável e leve, o conteúdo e a mensagem de “Cara ou Coroa” têm muito poder.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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