Intocáveis – Dir. Olivier Nakache e Eric Toledano – 2011

Um rico e viúvo aristocrata francês sofre um acidente que o deixa tetraplégico. Para trabalhar como seu auxiliar / enfermeiro, ele contrata um jovem negro, imigrante senegalês de uma família humilde e recém-libertado da prisão por tentativa de assalto a uma joalheria.  A julgar por essa sinopse básica, é possível imaginar que teremos uma história dramática, com grandes chances de cair em clichês sentimentais e na pieguice. Contrariando essa expectativa, e para a sorte do espectador, “Intocáveis” caminha na direção oposta e encontra no humor o elemento principal para desenvolver sua trama.

Dirigido pela dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, o filme já se tornou o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos na França e vem fazendo uma bem sucedida carreira também em diversos outros mercados cinematográficos pelo mundo. E é fácil compreender o enorme êxito do filme. Apesar de ser uma produção francesa, “Intocáveis” utiliza uma fórmula muito mais hollywoodiana do que europeia. Sua virtude é saber quais ingredientes dessa fórmula devem ser aproveitados e quais devem ser descartados. Temos aqui o que geralmente é chamado de “filme de ator”. O roteiro não possui grandes reviravoltas, ou mesmo muita originalidade, mas trabalha a favor da criação de situações onde a dinâmica entre os atores principais possa ser explorada da melhor maneira, tornando-se o foco principal.

Para que isso funcione, obviamente é preciso ter grandes artistas nos papéis principais, e “Intocáveis” tem a sorte de encontrar François Cluzet e Omar Sy em momentos inspirados.  Como Phillippe, o rico tetraplégico, Cluzet encontra o tom certo para o personagem. Sempre bem-humorado, apesar de sua condição, Phillippe transmite uma serenidade e certa aceitação em relação a sua deficiência física. Fica claro que ele tem consciência de que devido a sua situação financeira, ele ainda pode fazer todo o possível para amenizar seu sofrimento, privilégio que a grande maioria das pessoas não tem. Como o próprio revela na cena em que está de madrugada em um restaurante com seu auxiliar, ele já não se ressente mais por seu acidente, admitindo que sua maior perda não foi a do movimento de seus braços e pernas, mas sim a vida de sua esposa.

Do outro lado temos Omar Sy como Driss, o jovem que queria apenas um papel assinado para garantir o seu auxílio desemprego, mas acaba encontrando não apenas um trabalho, como também uma forma de fugir de seus problemas familiares. A atuação de Sy, que conseguiu tirar o César de melhor ator das mãos de Jean Dujardin por “O Artista”, é mesmo a alma do filme. O carismático personagem representa o oposto e ao mesmo tempo o complemento para Phillippe. Enquanto um é a mente, o cérebro e a cultura, o outro é o movimento, a dança, a energia, a força e a vivacidade. A naturalidade com que Driss reage aos percalços de cuidar de um tetraplégico garante com que o público se identifique instantaneamente com o personagem e sua relação com o milionário. A amizade que surge entre os dois soa sempre verdadeira, até pelo fato da história ser baseada em acontecimentos reais. Mas mesmo que não houvesse essa informação, os atores conseguem convencer o tempo todo. O mérito por essa autenticidade também deve ser dividido com os diretores e roteiristas, que conseguem tratar de um tema delicado, utilizando uma dose até elevada de humor negro e politicamente incorreto, conseguindo equilibrar-se para não cair no mau gosto.

Algumas cenas são realmente hilárias, como quando Driss resolve fazer “experiências” com o amigo, para ver se ele não reage mesmo a nenhum estímulo, como água quente em suas pernas. Ou quando o senegalês tem que fazer a barba de seu patrão, testando diversos visuais. Há também todas as investidas de Driss para conquistar a secretária de Phillippe e os momentos em que ele apresenta ao milionário o prazer da maconha e do “sexo auricular” (essa só assistindo o filme para compreender). A música também está muito presente no filme, desde a cena de créditos iniciais ao som de “September” do grupo Earth, Wind & Fire, ou quando uma orquestra faz uma apresentação de músicas clássicas para o aniversário de Phillippe, terminando em uma animada sequência de dança de Driss com “Boogie Wonderland” como trilha sonora.

Na direção, Nakache e Toledano fazem o básico de forma correta, com a virtude de deixar o longa nas mãos da dupla de atores e também de nunca forçar o drama. Mesmo em cenas como a que Phillippe tem um ataque causado por efeitos colaterais de seus remédios, os diretores conseguem realizá-la de maneira sutil e discreta, sem exageros. Apesar de existirem algumas tramas paralelas que não acrescentam muito ao filme, como a filha adotiva de Phillippe, os problemas com o irmão de Driss ou a descoberta de uma possível veia artística do personagem, elas não atrapalham e ainda trazem mais alguns momentos bem-humorados para o filme. O acerto dos cineastas é apresentar diversas situações em que a interação entre Cluzet e Sy ganhe o maior destaque possível. E com essa proposta o filme funciona perfeitamente.

“Intocáveis” não busca expor ou se aprofundar em temas mais complexos, como conflitos raciais e sociais, imigração ilegal, ou até mesmo sobre a deficiência física. Ainda que sem essa complexidade, a trama e seus personagens são construídos sem serem meramente superficiais. O objetivo é mesmo a diversão, o entretenimento. E com as suas magníficas performances e todo calor humano que o filme apresenta, é possível afirmar que esses objetivos são atingidos com louvor.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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