Tudo Que Eu Amo – Dir. Jacek Borcuch – 2009

Historicamente a música é uma das expressões artísticas mais diretamente ligadas ao engajamento político. Em diversos momentos da humanidade, artistas transformaram suas canções em uma forma de protesto. Até mesmo no Brasil, especialmente durante o período da ditadura militar, muitos músicos fizeram de suas obras verdadeiros hinos de contestação social e política. Na década de 70, mais precisamente no ano de 1977, os jovens ingleses encontraram no punk rock, surgido nos Estados Unidos alguns anos antes, a via ideal para canalizar a sua revolta. Através de um estilo simples, rápido e agressivo, bandas como Sex Pistols e The Clash fizeram com que o punk ultrapassasse a barreira de gênero musical, tornando-se um movimento cultural. Esse movimento espalhou-se pelo mundo, chegando a diversos países, entre eles a Polônia, como nos mostra o filme “Tudo Que Eu Amo” de Jacek Borcuch.

Passado no início da década de 80, um momento de grande agitação política da Polônia, o filme acompanha a história de Janek (Mateusz Kosciukiewicz), o jovem vocalista de uma banda de punk, que sonha enviar sua fita demo para participar de um grande festival de rock do país. Filho de um oficial da marinha e de uma enfermeira, bom aluno e dedicado a sua música, o jovem inicia um romance com a bela Basia (Olga Frycz), filha de um dos líderes da Solidariedade, o primeiro movimento sindical não-comunista em um país governado por esse regime. Quando o governo polonês institui a Lei Marcial em 1981, para tentar acabar com os sindicalistas, a tensão e o risco eminente de conflitos armados acabam abalando o relacionamento de Janek e Basia, já que o pai da garota não vê com bons os olhos seu namoro com o filho de um militar, o que só piora quando o líder sindical é preso pela polícia comunista. O que poderia dar início a mais uma variação do romance de “Romeu e Julieta”, com um amor proibido e famílias inimigas, felizmente é deixado de lado, servindo apenas como pano de fundo para o foco principal, o amadurecimento de Janek.

O diretor Jacek Borcuch utiliza o contexto histórico emblemático de sua nação para realizar um drama de formação, com algumas doses bem-vindas de humor e de romance. É justamente nesse período, com ares de revolução (já retratado em outras produções, como “Complô Contra a Liberdade” da diretora Agnieszka Holland), que Janek irá descobrir as dores e as surpresas do primeiro amor, da sexualidade, dos conflitos com sua família e até da morte. A opção por não se aprofundar demasiadamente na trama política não enfraquece o filme. Mesmo que possa parecer superficial, ela se encaixa na proposta do cineasta, que é mostrar todos esses acontecimentos históricos através do olhar do que poderia ser considerada a classe média da época. Janek vai a uma boa escola, tem aulas de piano, dinheiro para tomar uma cerveja com seus colegas de banda e por mais que as letras de suas músicas reflitam o sentimento de indignação da juventude polonesa com o Estado comunista, o garoto não se mostra realmente engajado no movimento, até que fatos posteriores façam com que sua postura mude próximo ao final do filme. Essa visão diferenciada é completada pela figura do pai, que mesmo sendo um militar, faz questão de esclarecer que não faz parte da polícia comunista e é a favor da liberdade de expressão, mas que se vê obrigado a seguir as ordens do governo, mesmo sem saber exatamente o motivo dessas ordens.

Ajudado pelo carisma e talento de Kosciukiewicz no papel de Janek, Borcuch consegue um bom equilíbrio entre sequências de carga dramática e outras leves e bem humoradas, como na interação entre os amigos integrantes da banda, ou nos encontros de Janek com a sua fogosa vizinha mais velha, casada com um agente comunista. O romance entre o personagem principal e Basia também é muito bem trabalhado, assim como os momentos mais pesados dramaticamente. A sequência em que Janek e seu pai conversam sobre a morte da avó é tocante. Visualmente, o cineasta opta por uma fotografia de tons cinza e frios, e uma câmera fluída, com poucos cortes, alguns planos-sequência e buscando sempre ângulos inusitados para suas cenas. Essa opção estética gera belos momentos, como os jovens sempre sentados no porto, observando o mar, a imensidão que representa o futuro que ainda terão pela frente. Outro ótimo exemplo do apuro técnico de Borcuch é a cena de sexo entre Janek e Basia na praia. Filmada com extrema naturalidade, essa cena mostra também um cuidadoso trabalho de iluminação, com a paisagem ensolarada no calor do ato sexual, mudando gradativamente para um céu nublado conforme o casal começa a dialogar sobre as mudanças que estão prestes a ocorrer em suas vidas. Os cenários como o vagão de trem abandonado onde os garotos ensaiam, completam a construção visual do longa.

A trilha sonora original composta para o filme também merece destaque. Mesmo com suas letras em polonês, elas conseguem transmitir a urgência e a inquietude desses jovens, especialmente no ápice do filme, o show de Janek e sua banda na festa de formatura do colégio, que marca o momento crucial em que o jovem vocalista toma consciência de que sua arte pode ter muito mais poder do que ele poderia imaginar. E que arcar com as consequências desse poder é o que o tonará definitivamente um adulto.

Sabendo como cadenciar o seu filme e extrair as emoções certas sem exageros, Jacek Borcuch constrói um belo retrato da juventude de seu país. Em um dos primeiros encontros com Basia, Janek fala sobre o nome de sua banda, TQEA (Tudo que Eu Amo). Seu país, a música, o cinema, essas são as coisas que o cineasta ama, e ele consegue transmitir seus sentimentos com muita sinceridade. Afinal, como diz Basia ao ouvir o nome da banda do namorado: “Até o punk pode ser romântico”.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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