Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo – Dir. Lorene Scafaria – 2012

O que você faria se seus dias estivessem contados? Se o fim dos tempos já tivesse data marcada e nada pudesse ser feito para reverter essa tragédia? Em algum momento de reflexão ou talvez em uma conversa de bar com os amigos, é possível que muitas pessoas já tenham se questionado o que fariam nessa situação. Aproveitando essa curiosidade coletiva, o cinema já produziu diversas obras sobre o assunto, e “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo” é um dos mais recentes exemplares.  O que diferencia o filme de estreia da diretora e roteirista, Lorene Scafaria, é a sua abordagem. Ao contrário da maioria das produções sobre o tema, que tendem a trabalhá-lo de forma mais dramática ou indo para o lado da ficção e aventura dos filmes-catástrofe (como em “Armageddon” e “Impacto Profundo”), o longa de Scafaria aposta em um tom mais leve. Existem sim momentos reflexivos e de drama, mas há também um bom espaço reservado para o humor.

Logo na primeira cena somos informados de que um asteroide está em rota de colisão com a Terra, e que a última tentativa de impedir o desastre, uma missão espacial americana, não foi bem sucedida. Com isso, resta a humanidade pouco menos de um mês até sua total destruição. Essa informação é apresentada através do noticiário do rádio do carro de Dodge (Steve Carell), seguida da locução animada do radialista informando sobre a programação musical da estação, como se nada estivesse acontecendo. Esse humor em contraste com o pânico provocado pela eminente catástrofe será a base de praticamente todo o filme.

Abandonado pela esposa logo após o anúncio do fim da humanidade, Dodge tenta seguir sua rotina enquanto o mundo desmorona a sua volta (continua indo ao seu escritório, onde trabalha como corretor de seguros, compra os produtos de limpeza para sua faxineira, etc). As reações das outras pessoas são as mais variadas: suicídios, revoltas, pessoas contratando assassinos de aluguel. Os amigos de Dodge, representando a classe média americana, resolvem passar seus últimos dias em festas regadas a álcool, drogas e sexo grupal, mas o corretor não consegue entrar nesse clima. Solitário, calado e sempre com um olhar melancólico, Dodge encarna o estereótipo clássico do “cara certinho”, que sempre viveu seguindo regras, agindo pela razão e nunca pela impulsividade. Exatamente o oposto de sua vizinha, Penny (Keira Knightley), uma inglesa que se mudou há alguns anos para os EUA, e que sofre de um mal que a faz cair em sono profundo, chegando a ficar dias sem acordar. Ao sair de seu apartamento, após terminar com o seu namorado, Penny acaba encontrando refúgio com Dodge e os dois começam uma amizade. É através da garota que ele encontrará o seu objetivo final de vida, quando Penny lhe devolve diversas correspondências entregues no apartamento errado. Entre as cartas está uma de sua antiga namorada, revelando que está separada e que Dodge sempre foi o seu grande amor.

O personagem parte então em uma jornada para reencontrar sua primeira paixão, e com a promessa de que terá um avião que a leve até a casa de seus pais na Inglaterra, Penny o acompanha nessa viagem.

Adotando alguns traços de road movie, a trama consegue balancear bem os diversos gêneros pelos quais transita. O carisma de Carell e Knightley  contribui muito para o bom resultado do filme. Mesmo com seus momentos de exagero habituais, a atriz cumpre bem o seu papel, enquanto o comediante foge um pouco do tipo que o marcou na TV com a série “The Office”, apostando em uma atuação mais contida, que segue a linha de outros de seus papéis, como em “Pequena Miss Sunshine”. Os personagens que os dois encontram pelo caminho também funcionam bem, em especial a curta, mas ótima participação do veterano Martin Sheen.

O roteiro de Scafaria prefere não se aprofundar em muitas questões filosóficas ou existenciais. Essas sequências estão presentes, mas de uma forma mais sutil. As atitudes e os dilemas dos personagens são totalmente compreensíveis. Amores perdidos, um relacionamento complicado com o pai, o arrependimento por ter se distanciado da família, são alguns dos temas tratados com naturalidade. Até a inclusão de um cachorro na história não soa apenas como um truque para conquistar o público, se encaixando bem no desenrolar do longa. Na direção, a cineasta de primeira viagem se sai bem. Apesar de ainda não demonstrar nenhum traço mais autoral, Scafaria conduz de forma competente seu texto, com espaço para algumas belas sequências, como a cena embalada pela música “The Air That I Breathe”, uma balada pop/rock de grande sucesso na versão do The Hollies, popular grupo da chamada “invasão britânica” nos anos 60/70. A trilha sonora tem papel de destaque em “Procura-se um Amigo” pelo fato de Penny ser uma personagem apaixonada por discos de vinil, carregando-os para cima e para baixo o tempo todo.

Alguns podem acusar o filme de ter uma virada brusca em sua trama e no comportamento de seus personagens. Mas o fato de estarmos diante de uma história sobre o fim do mundo justifica essa escolha. Afinal, se existe um momento em que alguém poderia tomar atitudes inesperadas, definitivamente seria esse momento impensável, a hora de encarar a morte, de aceitar que o fim é inevitável. E o filme se aproveita bem desse contexto para ganhar mais força dramática.

Mesmo com alguns deslizes, “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo” mostra que até estando próximos da extinção, existe espaço para encontrarmos conforto e até para o romance.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo – Dir. Lorene Scafaria – 2012

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