A Arte da Conquista – Dir. Gavin Wiesen – 2011

O cinema é feito de fórmulas. Evidentemente existem exceções, diretores e obras que conseguem fugir dos padrões pré-estabelecidos para contar suas histórias. Mas principalmente no cinema mais comercial, as receitas de sucesso ainda são seguidas na maioria dos casos. Todos os gêneros possuem seus arquétipos, símbolos e formas que funcionam quase como regras para os cineastas, e as comédias românticas talvez sejam o principal exemplo disso. É comum ouvir que quem já assistiu a um filme do gênero, já assistiu todos. Que desde a primeira cena já é possível deduzir tudo o que acontecerá até o final da projeção. E quase sempre é o que acaba acontecendo. Por isso, quando um filme consegue trabalhar bem essa fórmula e ainda adicionar alguns lampejos de criatividade, ele se destaca e pode ter um resultado agradável, como é o caso de “A Arte da Conquista”.

Em seu primeiro trabalho para o cinema, o diretor Gavin Wiesen apresenta a história de George (Freddie Highmore), um jovem estudante do último ano do colegial, que com o momento da formatura se aproximando, começa a sofrer uma pressão do diretor da escola e de seus professores em relação ao seu futuro acadêmico. George vive matando aula para assistir filmes antigos no cinema, para vagar pelas ruas e fazer seus desenhos. Mesmo quando está na classe, o garoto parece viver em um universo paralelo, sempre rabiscando em seus livros e cadernos, e nunca trazendo os seus deveres de casa. George não deixa de fazer os deveres por incapacidade, mas sim porque afirma não ver motivos para fazê-los. Afinal, com o aquecimento global, guerras, entre outras coisas, a humanidade caminha para seu fim, portanto para quê perder tempo com essas tarefas? Esse seu comportamento se repete em casa, resultando em um relacionamento distante com sua mãe e com seu padrasto.

Numa de suas manhãs matando aula, George inicia uma amizade com Sally (Emma Roberts), uma colega de classe. Popular, bonita e desinibida, Sally começa a se interessar pelo introspectivo garoto, enxergando nele alguém diferente, mas ao mesmo tempo interessante e talentoso. Dessa relação virão os conflitos do filme. A descoberta do primeiro amor, do sexo, as indecisões sobre o futuro, os problemas da vida adulta, enfim, todas as situações típicas enfrentadas na adolescência. Esse ponto de partida é básico das comédias românticas, com o sentimento de amizade entre o casal principal evoluindo para uma paixão não correspondida. Sem falar da inclusão de um terceiro elemento para termos um triângulo amoroso. Nesse caso, o terceiro lado do triângulo é representado por Dustin (Michael Angarano), um ex-aluno do colégio de George que hoje se tornou um promissor artista plástico, e que se transforma em uma espécie de mentor para o protagonista.

Todos os ingredientes já conhecidos do público estão presentes, mas Wiesen é capaz de fugir de alguns clichês. George, por exemplo, não é o nerd clássico desse tipo de produção, que sofre bullying dos valentões da escola, é rejeitado pelas garotas e coisas do tipo. Ele é representado mais como um incompreendido, um excêntrico com alma de artista, do que outra coisa. Quando quer, George consegue ser extremamente comunicativo, inclusive entrando sem problemas para o círculo de amizades de Sally. Da mesma maneira, a garota não é mostrada como o tipo fútil que só pensa em namorar o capitão do time de futebol americano do colégio, se mostrando sensível e com seus próprios problemas particulares, como um pai que não vê desde criança e uma mãe “liberal” demais, que vive trocando de namorados. Somando esses detalhes a alguns bons diálogos e referências interessantes (em determinado momento George e Sally vão ao cinema para assistir “Zazie no Metrô” de Louis Malle, por exemplo) “A Arte da Conquista” consegue entreter o espectador e fazer com que esse se preocupe com os personagens principais.

A escolha do elenco ajuda muito nessa identificação. Apesar de serem jovens, Highmore e Roberts já podem ser considerados veteranos no mundo cinematográfico, e ambos se saem muito bem em seus papéis. A dinâmica entre os dois flui com naturalidade e o fato da idade real dos atores não ser muito maior do que a dos personagens, ao contrário de grande parte dos filmes do tipo que utilizam pessoas de 30 anos para representarem adolescentes, contribui para transmitir mais realismo. Não que o realismo seja a intenção principal do diretor. O exagero de algumas situações, e até mesmo do comportamento de George, pode incomodar um pouco. Parece ser uma mania dos filmes independentes nos últimos anos, uma busca por parecer mais cult, hipster ou outro adjetivo do tipo. Além das atuações, outro ponto a favor do filme é a sua bela trilha sonora, que conta com nomes como Leonard Cohen, Pavement, The Shins, French Kicks, Clap Your Hands Say Yeah, entre outros.

Talvez a maior parte das críticas recebidas pelo filme seja decorrente do seu terceiro ato, onde o diretor de primeira viagem mostra um pouco de fraqueza e se rende de vez a fórmula hollywoodiana, com direito a momento de superação, lição de amadurecimento, reviravolta romântica e até uma cena no aeroporto. Essa parte final realmente acontece de forma apressada e destoa um pouco do tom do filme até o momento, mas não chega a ser tão decepcionante.

Se não consegue ser 100% original, ao menos o filme segue a cartilha de forma competente. Nesse caso, o cinema se mostra mesmo como uma receita culinária. Mesmo a mais comum e tradicional de todas, se bem feita, pode render ao menos um prato saboroso.

 Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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