360 – Dir. Fernando Meirelles – 2011

Nos últimos 15 anos, o cinema vem presenciando uma verdadeira invasão de filmes-mosaico. Com o sucesso de crítica e público de produções como “Magnólia” de Paul Thomas Anderson, “Traffic” de Steven Soderbergh, “Crash” de Paul Haggis e dos longas do mexicano Alejandro González Iñárritu (“Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”), surgiram diversos novos filmes tentando seguir a mesma fórmula, com muitos personagens e tramas paralelas que no final se mostram conectadas de alguma maneira. Essa fórmula não é nenhuma novidade, já tendo sido trabalhada por grandes nomes como Fellini, Woody Allen e Robert Altman. Esse último tornou-se um verdadeiro especialista nesse tipo de filme. Mas diferente dos filmes de Altman, em que as múltiplas histórias encontravam-se dentro de um mesmo contexto ou espaço (um jantar em “Assassinato em Gosford Park”, uma festa matrimonial em “Cerimônia de Casamento”, os bastidores de um estúdio cinematográfico em “O Jogador” ou de um programa de rádio em “A Última Noite”), essas novas produções buscam ampliar o seu universo com tramas que se passam simultaneamente em diferentes localidades, de uma cidade, de um país ou pelo mundo, e apresentando eventos que a princípio parecem distintos, mas estão ligados por fatos muitas vezes baseados em teorias como a Teoria do Caos (e o Efeito Borboleta) ou a dos Seis Graus de Separação.

Essa ampliação do universo e a necessidade de encontrar a conexão entre as histórias e personagens, geralmente se transformam em uma cilada para os cineastas, pois estabelecer um equilíbrio entre todos os pedaços de seu mosaico e juntá-los de forma convincente não é tão simples. E em “360”, o diretor brasileiro Fernando Meirelles acaba virando uma presa fácil de sua própria armadilha. Baseado livremente na peça “A Ronda” do austríaco Arthur Schnitzler (que já havia ganho versões cinematográficas anteriores, dirigidas por grandes nomes como Max Ophüls e Roger Vadim), o roteiro escrito pelo indicado ao Oscar, Peter Morgan, acompanha vários personagens envolvidos em situações essencialmente ligadas a traições e relacionamentos amorosos. Temos a jornalista inglesa que mantém um caso com um fotógrafo brasileiro que mora em Londres, enquanto o seu marido resolve marcar um encontro com uma prostituta eslovaca durante uma viagem de negócios. Ao mesmo tempo, a namorada traída do fotógrafo brasileiro resolve voltar para casa e acaba conhecendo um homem inglês em busca de sua filha desaparecida, além de se envolver com um criminoso sexual recém-libertado da prisão. Para finalizar, acompanhamos também um dentista francês apaixonado por sua assistente russa, que deseja se separar do marido, um motorista/guarda-costas de um criminoso que acaba conhecendo a irmã da prostituta eslovaca do início.

Nessa sua Torre de Babel, Meirelles acaba se perdendo entre todos os sotaques e paisagens ao redor do mundo. Os fatos que amarram as situações apresentadas podem até convencer, mas enquanto se preocupa com essa amarração, o diretor se esquece de injetar emoção. Os dramas dos personagens em sua grande maioria não conseguem ter impacto sobre o público, resultando extremamente superficiais. As resoluções dos conflitos entre o casal inglês, interpretado por Rachel Weisz e Jude Law, e entre o dentista e sua assistente (o francês Jamel Debbouze e a russa Dinara Drukarova) são especialmente apáticas e banais. Alguns poderão dizer que isso as torna mais verossímeis, que na vida real provavelmente o desfecho seria como o mostrado nas telas, mas além de não despertarem nenhum sentimento nos espectadores, elas destoam de outras situações do filme, deixando-o com um tom muito irregular.

Os melhores momentos de “360” são os que flertam com o suspense e com tramas quase policiais. O encontro do chefe de Sergei (Vladimir Vdovichenkov), o motorista russo com Mirka (Lucia Siposová), a prostituta eslovaca, e principalmente o da jovem brasileira, Laura (Maria Flor) com o maníaco sexual, Tyler (Ben Foster), estão entre as poucas sequências que conseguem impedir que o espectador caia no tédio e no desinteresse total. Ajudado pelo talento de Flor e de Foster, que vem se especializando nesse tipo de papel, além do excelente trabalho do diretor de fotografia Adriano Goldman e do editor Daniel Rezende, colaboradores habituais, Meirelles consegue transmitir o conflito interno de Tyler, tentando não se render a tentação na forma de Laura, em cenas de grande tensão que acompanham os dois desde o aeroporto até o quarto de hotel da jovem.

Existem alguns outros bons momentos, novamente ajudados pelo ótimo elenco, como o monólogo de Anthony Hopkins em uma reunião do AA. Nela o eterno Hannibal Lecter domina a tela e consegue arrancar um sorriso de satisfação do público, sem falar da bela interação de seu personagem com o de Maria Flor. Ainda assim, isso é pouco vindo de um realizador com talento comprovado. Utilizar a tela dividida para mostrar as ações paralelamente e outros truques visuais, não são suficientes para impressionar.  Com sua vontade de abraçar o mundo e vários temas ao mesmo tempo, insistindo na velha metáfora da bifurcação para mostrar como os caminhos que escolhemos podem mudar não só a nossa vida, mas a de outros, o filme acaba enfraquecido. Sua intenção, desde o título, era mostrar como um ciclo se fecha para que tudo recomece, como se mesmo com a possibilidade de fazermos escolhas, existisse um plano previamente traçado e que sempre se repete.

No final não fica nem a sensação de que o longa faz seu caminho para voltar ao mesmo ponto de partida. O que parece é que ele nem chegou a sair do lugar.

 Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “360 – Dir. Fernando Meirelles – 2011

  • bluevelvetblog

    Concordo com tudo que disse a respeito de 360, Leo.Tom absolutamente irregular e parece que o roteiro, dirigido por Meirelles não cumpre seu papel, ao fechar o ciclo e mostrar como tudo começou..sendo assim o efeito(Babel)parece ter passado batido. E na minha opinião,nem o elenco salva a intencionalidade de eleger conexões entre os núcleos.Na tentativa de amarrar todos os pontos.. . Achei tb superficial em vários aspectos.

    Incrível tua capacidade de esmiuçar as cenas,aspectos dos filmes etc! Pra mim seria tirar leite de pedra escrever sobre 360 hehe.
    Parabéns pelo texto.
    bjs
    Carol

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