A Vida dos Peixes – Dir. Matías Bize – 2010

“Para mim, filmes não são pedaços da vida, mas sim pedaços de bolo”. A frase de Alfred Hitchcock brinca com a expressão piece of cake (pedaço de bolo), utilizada para se referir a algo fácil de ser realizado. Fazer cinema definitivamente era algo sem segredos para Hitchcock, mas deixando o característico humor britânico do diretor de lado, assim como todos os outros, os filmes do mestre do suspense também representavam recortes da vida. O tamanho desse recorte tem muita influência no resultado final de um filme, mas não necessariamente é proporcional ao seu alcance. Uma obra que trata de um universo totalmente particular e reduzido pode abranger uma enormidade de temas e ter apelo para a grande maioria do público. Para isso, é necessário que o diretor consiga extrair de seu recorte mínimo uma universalidade coletiva. E esse é o caso de “A Vida dos Peixes”.

No filme dirigido pelo chileno Matías Bize, o espectador é jogado diretamente na ação, sem apresentações e introduções sobre os personagens ou as situações que estão vivendo. Na cena inicial, o protagonista, Andrés (Santiago Cabrera) está se despedindo de outros três homens. Através dos diálogos dessa sequência, descobrimos que Andrés trabalha escrevendo artigos para revistas de turismo e viagens e que deve pegar um voo na manhã seguinte de volta para a sua casa na Alemanha. Os outros homens são seus amigos de infância, que o escritor não vê há mais de 10 anos, e que estão reunidos para comemorar o aniversário de um deles. Tentando convencer Andrés a ficar mais na festa, os amigos propõem um jogo de futebol no dia seguinte, uma outra festa, mas ele resiste, resolvendo alongar sua estadia apenas ao ouvir de um dos amigos que “ela está vindo”.

Aos poucos vamos descobrir que “ela” é Beatriz (Blanca Lewin) a antiga namorada de Andrés. Arrependimentos, culpas, conversas inacabadas, situações mal resolvidas. Tudo isso virá à tona nesse final de festa e Andrés deverá enfrentar aquilo que abandonou uma década atrás. Após colocar o espectador cercado por todas essas informações incompletas, Bize transforma o seu espaço cênico limitado, o filme todo se passa na casa do aniversariante, em um baú de lembranças de Andrés para que possamos compreender suas motivações. A cada cômodo que o escritor entra, encontra um novo personagem e mais histórias e segredos são revelados. A principal delas, o suicídio de um dos amigos do grupo e melhor amigo de Andrés, é o acontecimento que marca a virada na vida de todos e também é responsável pelo sentimento de culpa carregado pelo protagonista.

Procurando transmitir uma proximidade entre seus personagens e o público, Bize filma sempre com a câmera próxima aos atores, utilizando quase que exclusivamente planos fechados e closes. A fotografia aproveita a meia-luz da festa e o brilho das luzes da decoração para criar um clima bem intimista, complementado pela bela trilha sonora. Optando por fazer a ação se passar em “tempo real”, sempre dentro do período que antecede o embarque de Andrés, o diretor consegue passar uma sensação de urgência e de veracidade. Os ótimos diálogos ajudam ainda mais a atingir esse realismo pretendido por Bize. Sem nunca soarem banais ou ensaiadas, as conversas entre o protagonista e todos os outros personagens fluem com naturalidade, como se realmente estivéssemos presenciando o papo entre amigos verdadeiros de longa data. A cena de abertura é um belo exemplo, quando todos se dão conta de que a intimidade de outrora já não é mais a mesma, que o afastamento fez com que os amigos inseparáveis se tornassem quase estranhos um para o outro. E mesmo as cenas que não acrescentam tanto para o conflito principal, são bem escritas e não cansam, além de servirem como alívio cômico, como a conversa sobre sexo na gravidez, as dúvidas sexuais dos garotos da festa que Andrés se vê obrigado a responder, ou o encontro com a irmã mais nova do amigo que cometeu o suicídio.

Contudo, a força do filme está mesmo na relação entre Andrés e Beatriz. Do estranhamento inicial da cena do reencontro até os momentos finais, quando verdades são jogadas na cara sem pudores, o trabalho de Santiago Cabrera e Blanca Lewin nos papéis principais é excelente. Cabrera consegue transmitir toda a melancolia de seu personagem, um homem que assim como seus leitores, vive como um turista, sem conseguir firmar qualquer compromisso e que se ressente por ter deixado para trás o único verdadeiro amor de sua vida. Ela, agora casada e com filhos, seguiu a sua vida, mas ainda tem dúvidas sobre suas escolhas, e Lewin consegue transparecer essa indecisão. As cenas dos dois lembram em alguns momentos o clima de intimidade de Celine e Jesse em “Antes do Pôr-do-Sol” . O reencontro de dois personagens depois de muitos anos, que seguiram rumos distintos, mas ainda sentem algo um pelo outro tem como influência clara o filme de Richard Linklater.

As escolhas que fazemos e que determinam o nosso futuro são definitivas ou podem ser refeitas? Será que nunca é tarde para recomeçar? Devemos deixar as coisas seguirem como quis o destino? E principalmente, existe destino ou apenas as consequências de nossas ações? O filme não tem a pretensão de responder a todas essas perguntas, mas consegue discuti-las de uma forma extremamente sensível e real, fazendo com que as emoções (alegria ou tristeza) surjam sem serem forçadas. O seu belíssimo final, nada fantasioso, é o melhor exemplo.

Mesmo que se alongue um pouco em alguns momentos, talvez a ideia inicial fosse a de um curta ou média metragem, Bize consegue representar a metáfora de seu título de forma exemplar. Nossa vida é como a dos peixes. Por mais que tentemos, nunca conseguiremos conhecer todo o oceano e acabamos trancafiados em um aquário. O aquário que representa exatamente o nosso recorte de universo, nossa realidade. Mesmo quando tentamos fugir, existe algo que sempre nos prende e de alguma maneira nos faz voltar ao mesmo lugar. Seja a vontade de consertar o passado para poder seguir em frente, a necessidade de se reencontrar ou apenas a saudade de algo que ficou para trás.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “A Vida dos Peixes – Dir. Matías Bize – 2010

  • bluevelvetblog

    Vontade de assistir ao filme depois de ler seu texto Léo. Parece muito boa a idéia central e a explicação da metáfora(do título).
    beijos,
    Carol

    • Leonardo Ribeiro

      Se estiver passando por aí, pode conferir Carol! O filme tem um ritmo meio lento, num sei se agrada todo mundo, mas vale dar uma chance. Acho que você pode curtir! Ahh e sobre a metáfora, essa foi a minha interpretação, porque num tem uma explicação literal para ela no filme. Mas o filme deixa aberta para outras interpretações bacanas também. Só assistindo mesmo hehe
      Bjo

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