Aqui é o Meu Lugar – Dir. Paolo Sorrentino – 2011

Deslocamento. Essa é a palavra-chave em “Aqui é o Meu Lugar”, novo trabalho do diretor italiano Paolo Sorrentino. O deslocamento é também um dos principais sentimentos de seu personagem principal, Cheyenne (Sean Penn), um famoso ex-astro de rock dos anos 80, que após o fim de sua banda, vive agora em uma luxuosa mansão em Dublin ao lado de sua esposa, a bombeira Jane (Frances McDormand). Com seu visual gótico, batom e lápis preto nos olhos, o roqueiro é apresentado como uma figura estranha por onde quer passe. Seja andando pelo shopping na companhia da jovem Mary (Eve Hewson), acompanhando seus investimentos na Bolsa de Valores irlandesa, ou até mesmo em sua própria mansão, Cheyenne parece sempre desconfortável, sem conseguir adaptar-se a esses ambientes.

Enquanto tenta seguir com sua rotina enfadonha e sem grandes surpresas, Cheyenne recebe a notícia da morte de seu pai e viaja até os Estados Unidos para o funeral. Lá, no meio de sua família de judeus tradicionais, ele se sente ainda mais fora de seu habitat, e acaba recebendo uma missão deixada pelo falecido, um último desejo: encontrar o oficial nazista que o humilhou em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, algo que havia se tornado a sua maior obsessão durante a vida. Mesmo sem falar com o pai há mais de 30 anos, o músico sente que possui o dever de cumprir a tarefa e a partir desse momento embarca em uma viagem pelo interior norte-americano.

Como é quase regra em todo road movie, a jornada inicial do protagonista (a busca do algoz de seu pai) acaba virando uma jornada de autodescoberta, onde ele deverá enfrentar seus medos e fantasmas do passado. Para Cheyenne, o maior medo é o de finalmente amadurecer. Como todos fazem questão de lembrar o roqueiro o tempo todo, ele ainda age como uma criança. O comportamento infantil é representado, entre outras metáforas, pelo fato de Cheyenne nunca ter fumado, afinal “fumar é coisa de adulto”. Até mesmo o seu medo de andar de avião acaba ganhando um significado diferente, um medo de buscar novos rumos, alçar novos voos.

O problema de “Aqui é o Meu Lugar” é que o diretor não consegue se aprofundar como deveria nesses problemas do personagem principal. O roteiro do próprio Sorrentino apresenta diversas pontas soltas, situações que se acumulam sem ter um verdadeiro propósito e acabam sem uma conclusão, como a do vocalista de uma banda iniciante que deseja que Cheyenne produza seu disco, a tentativa do roqueiro em aproximar Mary e um jovem garçom, e principalmente o desaparecimento do irmão de Mary. Todas essas tramas paralelas, mesmo que ocasionem alguns momentos divertidos ou mais emotivos, tiram o foco do conflito principal e o enfraquecem. Assim como o seu protagonista, o filme dá a impressão de estar um pouco perdido, tentando encontrar o seu tom.

Com uma câmera em constante movimento, utilizando muitos travellings, Sorrentino consegue criar algumas sequências visualmente belas, mas sem muito significado, especialmente a cena em que um homem com traços indígenas surge no carro de Cheyenne e pega uma carona até um ponto deserto da estrada, para simplesmente descer e caminhar em direção ao horizonte sem dizer uma palavra. Provavelmente há alguma mensagem de tons místicos e fantásticos nessa sequência, que infelizmente não ficam claros para o espectador, soando gratuita.

Quando opta por momentos mais intimistas, com a câmera mais estática, apostando em bons diálogos e no seu ótimo elenco, o filme tem os seus melhores momentos. Todas as cenas de Cheyenne com Rachel (Kerry Condon) neta do nazista e com o filho de Rachel, Tommy (Grant Goodman) são excelentes. Na mais marcante delas, o roqueiro e o garoto interpretam “This Must Be The Place” (canção que dá título ao filme) do Talking Heads, e também discutem sobre a autoria da canção (o garoto acredita que a versão do Arcade Fire é a original). David Byrne, líder do Talking Heads, aliás, é o autor da ótima trilha do longa, além de fazer uma participação especial.

Com todos os seus erros e acertos, o grande destaque do filme é mesmo Sean Penn. O ator constrói um personagem muito interessante, em uma composição repleta de detalhes. O tom de voz sussurrante, a fala pausada, o caminhar lento, além é claro do visual que inevitavelmente remete a Robert Smith do The Cure, tornam Cheyenne uma figura marcante, que consegue ser bem-humorada e transmitir fragilidade, mas que  ao mesmo tempo também é capaz de momentos de explosão, como quando relembra sobre o incidente envolvendo dois jovens que cometeram suicídio influenciados pelas letras depressivas das músicas de sua banda.

É uma pena, portanto, que o roteiro não consiga explorar o máximo desse personagem, não sendo capaz transmitir totalmente suas motivações. No fim das contas, muito mais do que a culpa e o ressentimento em relação a seu pai, ou a vontade de dar uma grande virada em sua vida, Cheyenne busca através de sua missão apenas fugir da monotonia de seu cotidiano. Nesse ponto, o filme alcança o mesmo objetivo de seu personagem principal. “Aqui é o Meu Lugar” provavelmente não deve mudar a vida de ninguém, mas pode ser uma boa opção para quem busca apenas fugir da monotonia de um domingo à tarde.

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

4 respostas para “Aqui é o Meu Lugar – Dir. Paolo Sorrentino – 2011

  • bluevelvetblog

    Pra variar,seus textos sempre ricos em detalhes, informações importantes acerca do filme comentado etc! E nao seria diferente com “aqui é o meu lugar” 🙂 Acho que essa opinião,do filme nao mudar a vida, é quase geral. Parece que o realmente mto bom é o Sean Penn mesmo.
    beijos

    • Leonardo Ribeiro

      hehe brigado, Carol! A atuação do Sean Penn já vale o ingresso mesmo. É uma pena que para mim o filme não consiga ser tudo que poderia. O personagem e o ponto de partida tinham potencial pra um baita filme, mas faltou foco no roteiro e direção. Mesmo assim, acho que vale uma assistida, pelos bons momentos, pelas atuações e pela trilha que é ótima!

  • Max

    Eu queria que vc me explicasse o fim do filme, n entendi. Juro. Quem é akele cara do final? É ele? É o filho dela? N entendi.

    • Leonardo Ribeiro

      Sinceramente eu também não posso afirmar com certeza. Na minha visão era mesmo o Cheyenne, que “amadureceu” e resolveu se transformar, largar o visual antigo e ser um “adulto”. Agora, o que aconteceu com o filho dele, não faço ideia. Essa é uma das pontas soltas do roteiro que impedem o filme de ser melhor.

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