Valente – Dir. Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell – 2012

Ainda mais difícil do que atingir um elevado grau de excelência, é conseguir mantê-lo. Depois de revolucionar o cinema de animação com o lançamento do primeiro “Toy Story”, em 1995, os estúdios Pixar estabeleceram um patamar de qualidade altíssimo para suas produções, lançando filmes como “Vida de Inseto”, “Monstros S.A”, “Procurando Nemo”, “Os Incríveis”, “Ratatouille”, “Wall-E”, “Up – Altas Aventuras” e as continuações do já citado “Toy Story”. A cada novo trabalho, a expectativa de público e crítica se tornou ainda maior, por isso é compreensível certo sentimento de decepção diante de um lançamento que fique um pouco abaixo desse padrão criado pelos magos da Pixar. E esse é exatamente o caso de “Valente”.

Escrito e dirigido a seis mãos por Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell, o longa conta a história de Merida (voz original de Kelly Macdonald) a princesa de uma Escócia medieval mítica, que possui um espírito aventureiro e sonha em ser uma grande arqueira. Apesar de seu pai, o Rei Fergus (Billy Connolly), não reprimir e até apoiar o comportamento da garota, a Rainha Elinor (Emma Thompson) tenta ensinar a Merida tudo o que ela precisa saber para se tornar uma verdadeira princesa. Quando a Rainha anuncia que os primogênitos dos três clãs do reino aceitaram participar de uma disputa pela mão da Princesa, o confronto entre mãe e filha irá tomar proporções inesperadas.

O relacionamento das duas personagens é a base de todo o filme. Diferente da maioria das aventuras, a jornada aqui não é em busca de um grande amor, ou de algum tesouro, mas sim para resolver esse conflito familiar, que ganha contornos de fantasia com a presença de uma bruxa na trama. “Valente” já entra para a história como a primeira animação da Pixar com uma protagonista feminina, além de ser também a sua primeira história de época, portanto é uma pena que uma personagem tão interessante perca um pouco de sua força devido a alguns clichês e situações mal desenvolvidas do roteiro. A virada na história, que ocorre devido à interferência da bruxa, é divertida e inesperada, mas se ela serve muito bem aos propósitos cômicos do filme, acaba pesando um pouco a mão na parte emocional.

Fica bem claro que a intenção dos diretores foi fazer um filme muito mais voltado para a comédia do que os trabalhos anteriores do estúdio. Por isso, quase todos os personagens coadjuvantes acabam virando um alívio cômico: os três irmãos caçulas de Merida (que têm alguns dos melhores momentos do filme), o Rei, a empregada, o cavalo, os três chefes dos clãs e seus filhos, a própria bruxa, etc. As piadas são engraçadas, com muito humor físico e fazendo graça com os costumes do povo escocês na época medieval, mas poucas se destacam. São quase todas realmente voltadas para um público mais infantil, com exceção de alguns detalhes e referências mais adultas.

Na parte técnica, o estúdio continua impecável. A animação enche a tela de cores e cenários incríveis. Os detalhes como os cabelos ruivos e encaracolados de Merida ou os pelos molhados do urso são extremamente realistas, assim como os planos gerais das paisagens das highlands escocesas, que evocam as belíssimas imagens vistas em filmes como “Coração Valente”, “Rob Roy” ou “Highlander”. Outro ponto alto de “Valente” são as cenas de ação. Os movimentos dos personagens, os planos escolhidos, a edição, tudo é muito bem trabalhado, resultando em algumas sequências de tirar o fôlego, como quando Merida encontra o castelo abandonado ou em todo o clímax do terceiro ato. A empolgante trilha sonora de Patrick Doyle também contribui para manter esse ritmo aventuresco, e as boas canções originais são integradas a trama sem aborrecer ou atrapalhar seu andamento.

Falta mesmo ao filme o equilíbrio entre o lado cômico e o sentimental, que havia se mostrado uma das especialidades da Pixar. Não chega a ser um deslize tão grande quanto a franquia “Carros” (em especial a segunda parte, que apesar de render ao estúdio muito dinheiro com merchandising e venda de brinquedos, é o filme mais fraco de seu catálogo), mas fica a sensação de uma oportunidade perdida, visto o potencial de sua personagem principal. O filme busca embarcar no sucesso de animações de outros estúdios como “Shrek” e “Como Treinar o Seu Dragão”, tentando incorporar alguns de seus elementos. Não que essas animações sejam ruins, pelo contrário, mas é que nos acostumamos a ver justamente o oposto: a Pixar no papel de modelo a ser seguido. Por isso o desapontamento quase geral.

Mesmo sendo divertido e extremamente bem realizado, o padrão de qualidade citado anteriormente acaba se tornando o grande obstáculo enfrentado por “Valente. Mas tudo bem, até a Pixar tem o direito de cometer suas falhas, e eles ainda têm muito crédito para gastar.

Obs: Seguindo a tradição, antes do longa é exibido o magnífico curta “La Luna” de Enrico Casarosa. Esse sim, um filme que está no nível dos melhores trabalhos do estúdio.

 Por Leonardo Ribeiro

 

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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