Na Estrada – Dir. Walter Salles – 2012

Adaptações literárias sempre fizeram parte do mundo do cinema, assim como as polêmicas que geralmente as cercam. Transpor uma história das páginas para as telas quase sempre é uma tarefa complicada, em especial quando a obra a ser adaptada é tão cultuada quanto “On The Road” de Jack Kerouac. Mesmo tendo seus detratores, o livro foi considerado revolucionário por muitos e acabou se tornando um símbolo da geração Beat e da juventude americana dos anos 60. Devido a toda essa mística em torno da obra e ao estilo de escrita de Kerouac, “On The Road” sempre foi considerado um livro impossível de ser adaptado. Depois de algumas tentativas fracassadas, coube ao diretor brasileiro Walter Salles a missão de finalmente transformar a história em filme.

“Na Estrada” acompanha Sal Paradise (Sam Riley), um jovem escritor que vive em Nova York com sua mãe e que, entre encontros com amigos para beber e falar sobre literatura, sonha em escrever o seu primeiro livro. A vida de Sal começa a ganhar novos rumos quando ele conhece Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um “rebelde sem causa” que chega a Big Apple acompanhado de sua namorada de 16 anos, Marylou (Kristen Stewart). Com seu carisma e espírito aventureiro, Dean consegue conquistar a confiança e ganhar a admiração de praticamente todos os que o cercam, e Sal se torna um de seus principais admiradores. Essa admiração faz com que o aspirante a escritor embarque em uma viagem pelo oeste americano, regada a muito álcool, benzedrina, sexo e bebop.

Com tom autobiográfico, o texto de Kerouac fala essencialmente sobre liberdade e descobertas, elementos que se tornaram característicos da maioria dos road movies como “Na Estrada”. Infelizmente, apesar de sua experiência no gênero (com “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”), Salles raramente consegue transmitir esse sentimento libertário, pelo contrário, o filme parece sempre preso pela preocupação em honrar a obra original. Além de falar diretamente com os desejos e problemas da juventude de sua época, a prosa de Kerouac é seu grande diferencial, e isso é extremamente difícil de ser traduzido para as telas. Vemos as imagens dos personagens se divertindo, se drogando, transando, mas são poucos os momentos em que essas imagens se conectam com o público. Momentos como o que Dean chega durante os feriados de final de ano na casa da família de Sal e conta sobre suas aventuras sexuais, ou nas cenas em que os personagens dançam ao som do bebop, conseguem essa conexão, mas são muito pouco para um filme de 137 minutos. Falta ao longa exatamente a espontaneidade dessa vertente do jazz, falta o improviso.

O respeito do diretor pelo material é inegável, assim como o de todo o elenco principal, que se entrega em seus papéis. Sam Riley confirma o talento demonstrado desde “Control” e Garrett Hedlund também apresenta uma ótima interpretação. Até mesmo a contestada Kristen Stewart está bem como Marylou. Suas atuações são sem dúvidas o ponto alto do filme. Outro destaque é a bela fotografia do francês Eric Gautier de filmes como “Na Natureza Selvagem”. Esse filme, aliás, possui diversos paralelos com o de Salles. Ambos são adaptações de best Sellers, road movies e falam de jovens que largam uma vida tranquila com a família para embarcar em uma viagem de autodescoberta pelas paisagens americanas. É difícil não lembrar do filme de Sean Penn ao assistir “Na Estrada”, e mais difícil ainda não comparar e constatar como “Na Natureza Selvagem” consegue trabalhar muito melhor as experiências de seu personagem principal. Nesse filme todos os encontros de Emile Hirsch com as outras figuras que aparecem pelo seu caminho tem algum significado para todos os envolvidos: o idoso interpretado por Hal Holbrook, o casal de hippies, a jovem apaixonada (interpretada pela própria Kristen Stewart), etc. No filme de Salles, as situações e personagens vão se acumulando e passando muitas vezes sem deixar marcas.

Chega a ser um verdadeiro desperdício de ótimos nomes no elenco coadjuvante: Alice Braga, Steve Buscemi, Terrence Howard, Amy Adams, entre outros, tem no máximo dois minutos na tela. Nenhum deles consegue gerar algum conflito ou ter realmente um significado para a história. Quando parece que isso vai acontecer, como no caso do personagem de Buscemi, que dá a sensação de que causará um confronto entre Sal e Dean, a situação volta à normalidade na cena seguinte. Desses personagens secundários, os que têm mais chance de demonstrarem algo são o mentor de Sal, Old Bull Lee (Viggo Mortensen, bem como de costume) e a mulher de Dean, Camille (Kirsten Dunst). Dunst tem provavelmente a sequência mais dramática do filme e se sai muito bem.

O grande problema do filme é que quase nunca sentimos que os personagens realmente estão sofrendo ou correndo algum risco. Tudo é calculado para ser um filme correto e bem feito, mas que nunca se arrisca. E isso é decorrência do estilo de Salles. Seria necessário um diretor mais arrojado, mais “louco” para conseguir um resultado satisfatório. O filme precisava de algo como um Terry Gilliam de “Medo e Delírio em Las Vegas” ou um Cronenberg de “Mistérios e Paixões”, esse último baseado na obra de William S. Burroughs, outro escritor da geração Beat e que inclusive serviu de inspiração para o personagem Old Bull Lee. Mas Salles definitivamente não é nenhum dos dois. Se fizesse uma viagem com os amigos e todos decidissem pular do alto de uma cachoeira, o diretor seria aquele que não saltaria e nem iria até a borda para acompanhar os outros, preferindo manter a distância mais segura possível.

Essa falsa segurança e esse distanciamento são exatamente os fatores que impedem uma experiência mais real e intensa ao filme. Tudo fica apenas na sugestão. No fim das contas, não falta talento a Salles, falta ousadia.

Por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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