Histórias que Só Existem Quando Lembradas – Dir. Júlia Murat – 2011

O vilarejo de Jotuomba é um lugar perdido no tempo. Lá as pessoas “esquecem de morrer”, como diz um dos personagens. O cemitério está trancado e a entrada é proibida. Lá já não se marcam mais os nomes dos mortos na parede atrás da igreja. A rotina de seus poucos moradores se repete religiosamente. Todos os dias parecem iguais e nada muda. Na hierarquia social dessa cidade fantasma, cada habitante exerce o seu papel bem definido. O padre, o dono do armazém responsável pelo café, o homem que sempre traz a pinga, o que prepara o almoço de todos, etc. Madalena (Sônia Guedes) é a encarregada de fazer o pão. Fornecer um alimento “divino” é sem dúvidas uma função de extrema importância, que a idosa realiza com orgulho.

É esse cenário quase surreal que a diretora Júlia Murat escolhe para falar sobre o tempo, a solidão, a vida e a morte em “Histórias que Só Existem Quando Lembradas”. O equilíbrio encontrado pelos personagens desse local é abalado drasticamente com a chegada de Rita (Lisa E. Fávero) uma jovem fotógrafa que ao seguir os trilhos do trem se depara com essa realidade totalmente oposta a sua. A garota vai pedir abrigo por uns dias justamente na casa de Madalena, que meio a contra gosto acaba acolhendo-a.

Nas fachadas desgastadas das casas, nos objetos antigos como a máquina registradora do início do século e o moedor de café, tudo sob a luz dos lampiões, Rita encontra um ambiente perfeito para tirar suas fotos, seja com uma máquina moderna ou com sua câmera pinhole feita de lata. As fotos feitas nessa câmera de longa exposição traduzem perfeitamente a atmosfera da cidade e de seus habitantes, transformando-os em verdadeiras almas penadas através de imagens preto e branco que muitas vezes remetem ao estilo visual dos filmes do expressionismo alemão. Com esse material a disposição, a jovem acaba alongando a sua estadia. O convívio entre Rita e os moradores a princípio é baseado na estranheza e na desconfiança, mas aos poucos a jovem começa a descobrir que por trás desse aparente atraso em que vivem, Madalena e os outros escondem suas memórias, histórias que há muito não eram recordadas.

Em seu primeiro filme de ficção, Júlia (filha da também diretora Lúcia Murat) realiza um trabalho de extrema sensibilidade e apuro técnico. A atenção da cineasta aos pequenos detalhes faz a diferença e dá tom ao filme. O ritual de Madalena para preparar os pães, ou escrever cartas para seu falecido marido, por exemplo, é repetido diversas vezes, mas sempre através de ângulos e focos diferentes, que acabam revelando novas nuances a cada cena. Da mesma maneira, objetos que já haviam sido vistos sob a ótica de Madalena ganham novos significados quando filmados do ponto de vista de Rita. Isso representa a interpretação distinta dessas duas gerações para uma mesma situação. A poesia que começa logo no belíssimo título do longa é representada não só através das imagens, mas também dos diálogos e dos silêncios. Silêncio que é quase ensurdecedor para Rita. É interessante notar como antes da chegada da jovem os raríssimos diálogos se restringiam a saudações, aos sermões das missas do padre ou as discussões entre Madalena e o dono do armazém, Antônio (Luiz Serra) sobre ela colocar os pães no armário. “Por que você não pode fazer do meu jeito? Velha teimosa!”, a frase é repetida pelo comerciante diversas vezes. Com a presença de Rita em suas vidas, essa situação muda. Ao falar sobre os jovens, Antônio relembra de seus três filhos já falecidos, ou da jovem namorada que morreu com apenas 18 anos. “Não tê-la visto envelhecer foi melhor, pois lembrar dela aos 18 anos me faz sentir jovem também”, afirma Antônio. A preocupação com o passar dos anos e com a morte parecia não existir antes do encontro com a fotógrafa, e ao mesmo tempo em que desperta esses questionamentos em Madalena e nos outros, ela também injeta vida na cidade.

O brinde proposto por ela na mesa do almoço é o primeiro sinal dessa mudança, já que antes todos ficavam calados após a oração da refeição. “Você bebe pinga?” pergunta um dos personagens. A partir daí a relação entre Rita e os outros começa a se estreitar, culminando na festa de São João próxima do final do filme. Mas o foco aqui é mesmo no relacionamento com Madalena. O trabalho de Sônia Guedes no papel é magnífico. A cena em que após ver seu retrato tirado por Rita, ela limpa toda a poeira acumulada no espelho através dos anos pra se arrumar é belíssima. Guedes consegue transmitir todos os seus sentimentos simplesmente através do olhar. Lisa Fávero encara a veterana sem medo e também dá a profundidade necessária a Rita, que é muito mais do que uma mera espectadora do que acontece em Jotuomba. Com sua câmera, é ela quem guia o olhar do espectador.

E não é só o espelho empoeirado, mas quase tudo no filme tem um significado a mais. O vagão de trem abandonado, representando as novidades e o progresso que nunca chegam à cidade, a virada do disco na vitrola, tudo tem um simbolismo que soa sempre natural. A trilha sonora também tem papel fundamental para criar o clima melancólico e fantasmagórico da trama, e a diretora ainda encontra espaço para utilizar músicas que vão de Noel Rosa a Franz Ferdinand, que se encaixam sem criar ruídos na trama.

“Histórias que Só existem Quando Lembradas” consegue alcançar todos os seus objetivos poéticos e reflexivos. Sabendo exatamente quando fazer rir ou emocionar, Murat cria um universo que parece extremamente distante de nós, mas que no fundo fala aos sentimentos mais comuns e identificáveis por todos, como encontrar o seu espaço no mundo, seu motivo para viver. “Eu ainda não morri porque não sou infeliz o suficiente”, diz Antônio. É por diálogos como esse e imagens que ficam em nossa mente, que a estreia de Murat se torna uma das obras mais contemplativas e hipnotizantes do cinema nacional nos últimos anos.

 por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

2 respostas para “Histórias que Só Existem Quando Lembradas – Dir. Júlia Murat – 2011

  • bluevelvetblog

    Curioso Léo, vc nao é o 1o nem o 2o a ovacionar esse filme!! Eu nao curti…achei lentíssimo e não por ter problemas com narrativas lentas,mas porque achei over, desnecessário. Nao consegui gostar de nada no filme..cheguei até a sentir uma presepada, sabe? rs Um salamaleque pra pouca coisa. O que identificam como poesia, eu entendi ser um rococó! Mas parabéns pelo texto, sempre detalhado e mto bem escrito. beijos

    • Leonardo Ribeiro

      Realmente a linha entre poesia e “perfumaria” é tênue, Carol rsrs Mas para mim o filme conseguiu sempre transmitir sinceridade em suas escolhas (estética, de ritmo, interpretações) sem parecer algo friamente calculado para ser um “filme de arte”. Verdade que no começo, até a chegada da menina na cidade, desconfiei que pudesse ser mesmo um caso de exagero, mas depois a proposta fez todo sentido. Mas mesmo descordando, valeu por continuar prestigiando rsrs
      Bjo

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