O Espetacular Homem-Aranha – Dir. Marc Webb – 2012

A mania dos reboots, remakes e das histórias de origem parece que não irá terminar tão cedo em Hollywood. Se antes as refilmagens eram mais voltadas a filmes estrangeiros, ou antigos clássicos, agora elas não tem mais restrição. Se um filme recente vai mal nas bilheterias, os produtores e estúdios tratam logo de preparar um novo produto para tentar concertar os erros do anterior e assim agradar o público. Com as produções baseadas em histórias em quadrinhos isso é ainda mais comum, pois em muitos casos se o estúdio não filmar rapidamente pode perder os direitos sobre a HQ em questão.

Depois de tentativas fracassadas de diversos cineastas nos anos 70, 80 e 90 de contar as histórias do Homem-Aranha no cinema, o diretor Sam Raimi conseguiu levar o herói para a tela grande no começo dos anos 2000. Os dois primeiros filmes da trilogia de Raimi foram um grande sucesso de crítica e público, já o terceiro não agradou e foi muito criticado. Boa parte desse fracasso foi causada pela grande interferência dos produtores no filme, que impediram o diretor de utilizar os vilões que desejava, tirando muito de sua liberdade criativa. Vendo que o mesmo aconteceria em um novo filme, Raimi abandonou o barco e levou com ele o ator Tobey Maguire. A saída encontrada pela Sony, para aproveitar também o enorme sucesso dos personagens da Marvel nos cinemas com o projeto dos Vingadores, foi não fazer uma continuação, mas sim recomeçar com uma nova trilogia. E aí temos o grande problema de “O Espetacular Homem-Aranha”.

A origem do personagem foi estabelecida de maneira exemplar por Raimi em seus dois primeiros filmes, e por serem obras recentes, ainda estão frescas na memória do público. Portanto não havia a menor necessidade de recontar a história de Peter sendo picado pela aranha, descobrindo seus poderes, lidando com a morte do Tio Bem e o peso das “grandes responsabilidades”. Tudo isso já foi feito antes, e muito bem aliás, deixando nessa nova produção uma sensação de mais do mesmo. Para poder se diferenciar da trilogia anterior, o estúdio escolheu utilizar o arco das HQ’s que mostra um Peter um pouco mais jovem, ainda antes de trabalhar no jornal o Clarim Diário, e trocando o interesse amoroso de Mary Jane para Gwen Stacy, a primeira grande paixão do aracnídeo.

É dessa relação que o filme consegue tirar alguns de seus melhores momentos, devido ao carisma de Emma Stone e Andrew Garfield e a habilidade do diretor Marc Webb em filmar diálogos românticos geeks, além de mostrar suas referências cinéfilas (o pôster de “Janela Indiscreta” de Hitchock no quarto de Peter é um detalhe divertido, já que o personagem de James Stewart no filme é um fotógrafo como Parker), reafirmando o talento que ele já havia demonstrado em seu filme anterior “(500) Dias com Ela”. Apesar do carisma, Garfield é menos talentoso que Maguire, e mesmo sendo fisicamente mais parecido com o personagem nos quadrinhos, não consegue transmitir toda a “nerdice” do protagonista anterior. Isso é na verdade mais culpa do roteiro do que do próprio ator, já que o novo Peter enfrenta os valentões da escola, anda de skate, enfim, é mais descolado. O resto do elenco se sai muito bem. Martin Sheen está excelente como o novo tio Bem e Denis Leary, mesmo com pouco tempo em cena, consegue marcar sua presença como o capitão de polícia e pai de Gwen. Na pele do vilão Dr. Connors / Lagarto, o britânico Rhys Ifans cumpre bem o seu papel, mesmo que seu personagem siga a mesma linha dos antagonistas anteriores, um gênio que pelos motivos errados acaba se tornando uma ameaça, mas que no fundo não é mau.

Mesmo enfrentando a desconfiança inicial, Webb consegue realizar um trabalho competente, em especial nas cenas de ação, que na teoria não deveriam ser o seu forte. Contando com a evolução cada vez mais rápida da tecnologia, no aspecto dos efeitos especiais o novo filme realmente mostra um avanço em relação aos anteriores. O visual do Lagarto, e principalmente os movimentos do personagem principal em ação são incríveis, como se tivessem saído diretamente das páginas criadas por Stan Lee. Por falar em Lee, a sua ponta é definitivamente um dos pontos altos do filme. O humor dessa cena infelizmente não é reprisado como deveria durante o resto do filme. Com exceção de algumas sequências do herói debochando dos ladrões e bandidos, não existem alívios cômicos como o J.J Jameson – editor do Clarim e chefe de Peter – que era um dos grandes trunfos dos filmes de Sam Raimi.

Além dessa falta de mais humor, o roteiro também peca pela insistência no passado dos pais de Peter, e pelo excesso de coincidências que ligam a história. É claro que não devemos exigir extremo realismo de uma trama que mostra um homem que se transforma em lagarto, ou outro com poderes de aranha. Mas acreditar que uma menina de 17 anos como Gwen tem acesso livre em uma das maiores empresas do mundo, ou que em poucos dias um estudante possa construir um lançador de teias (aliás onde ele consegue tanto material para as teias? A solução encontrada para isso na trilogia anterior era mais bem resolvida) é difícil. A sequência que envolve o pai de um garoto salvo pelo aranha (interpretado pelo ex-astro dos anos 80, C. Thomas Howell), que acaba ajudando o herói e sendo fundamental para o clímax do filme também é forçada.

O resultado final de “O Espetacular Homem-Aranha” é divertido. Bem feito, com boas cenas de ação, 3D competente, bom elenco. O que vai  mesmo contra o filme é a existência do excelente trabalho anterior de Sam Raimi. Nessa comparação, a nova aventura sai derrotada, e com carimbo de desnecessária. Quem sabe as continuações possam reverter esse quadro. Resta esperar.

por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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