Sombras da Noite – Dir. Tim Burton – 2012

O projeto de levar a série sessentista “Dark Shadows” para as telas do cinema é um sonho de infância do ator Johnny Depp. Para tornar essa empreitada realidade, Depp trabalhou novamente com seu amigo, o diretor Tim Burton, resultando na oitava colaboração entre os dois. “Sombras da Noite” conta a história de Barnabas Collins (Depp), um rico aristocrata inglês do século XVIII que se muda para os EUA, na cidade de Collinsport – Maine, com sua família. A sorte dos Collins começa a mudar quando Barnabas se apaixona por Josette (Bella Heathcote) e termina seu romance com a empregada da família, Angelique (Eva Green) que na verdade é uma bruxa. Enciumada, a feiticeira usa seus poderes para causar a morte de Josette e dos pais de Barnabas. Para completar sua vingança, Angelique transforma seu amado em um vampiro, aprisionando-o em um caixão. Duzentos anos depois desses eventos, Barnabas é involuntariamente libertado e resolve procurar os membros atuais da sua decadente família para restaurar o seu nome e reerguer o império dos Collins.

Nessa adaptação, Burton acaba encontrando um terreno familiar e perfeito para trabalhar o seu estilo e temas favoritos: a inadequação do personagem principal, o amor impossível, a família problemática, além de poder explorar o seu visual gótico característico. Em seus últimos trabalhos, especialmente “Alice no País das Maravilhas”, Burton parecia estar perdendo um pouco a sua habilidade para balancear a temática “dark” com o humor, algo que sempre foi uma de suas principais qualidades. Aqui, o cineasta dá um passo na direção certa, de volta aos seus melhores dias, ainda que com alguns deslizes. Toda a sequência inicial do filme, com seu tom de conto de fadas gótico e referências ao Drácula de Coppola, se enquadra com perfeição e naturalidade no universo criado pelo diretor. O belo plano em que a personagem Victoria (papel duplo de Heathcote) chega a Collinsport de trem serve também para comprovar que Burton ainda não perdeu o seu apuro estético e sua sensibilidade.

A principal dificuldade encontrada pelo diretor em “Sombras da Noite” é mesmo o roteiro. Adaptar uma série de 6 temporadas, com uma narrativa bem característica das novelas (soap operas) é uma tarefa complicada, e o roteirista Seth Grahame-Smith acaba se perdendo em alguns momentos, principalmente no desenvolvimento dos membros da família Collins. Além de Barnabas e Angelique, a matriarca dos Collins, Elizabeth (Michelle Pfeiffer) é a personagem mais bem resolvida, ajudada muito pela beleza e talento de Pfeiffer. A jovem Carolyn (Chloë Grace Moretz) também tem ótimos momentos, como na hilária cena em que dá dicas para Barnabas de como conquistar uma mulher da década de 70, provando que Moretz é mesmo uma das grandes revelações de sua geração. Mesmo assim, a surpresa que o roteiro reserva para sua personagem perto do final do filme surge de forma abrupta e é mal aproveitada. O resto do elenco coadjuvante tem menos a fazer, mas os atores mantém o bom nível das atuações, incluindo a mulher de Burton, Helena Bonham Carter.

Os grandes destaques do elenco ficam mesmo com Green e Depp. A atriz parece se divertir bastante com a sua interpretação quase caricatural, enquanto Depp constrói um personagem digno de seus melhores trabalhos. Sua caracterização com um toque de humor britânico, no sotaque e na formalidade ao falar, faz com que o choque cultural do vampiro de duzentos anos com a sociedade do século XX seja ainda mais engraçado. A piada com o McDonald’s é genial, assim como toda a sequência com os hippies e outras em que Barnabas tenta se adaptar a sua nova realidade. Outros detalhes trazem mais charme ao filme, como sua excelente trilha sonora (T-Rex, Donovan, The Moody Blues, Deep Purple, The Stooges, Curtis Mayfield, entre outros), a participação especial de Alice Cooper e as referências de Burton aos antigos filmes de terror da Hammer, incluindo uma ponta do eterno Drácula da produtora inglesa, o ator Christopher Lee.

O que parece realmente impedir que “Sombras da Noite” entre para galeria de clássicos de Burton, como “Os Fantasmas Se Divertem”, “Edward Mãos de Tesoura” e “Ed Wood”, é uma aparente necessidade de agradar um público mais abrangente. Com o enorme sucesso de bilheteria de “A Fantástica Fábrica de Chocolates” e “Alice”, fica a impressão de que o diretor foi engessado pelos estúdios, ou pela sua própria vontade, tirando um pouco de sua liberdade criativa e freando as viagens e loucuras de outros tempos. A ironia, o humor negro e o sarcasmo estão presentes, mas falta um pouco da subversão, do prazer por abraçar o nonsense demonstrado em seus primeiros trabalhos. “Sombras da Noite” ainda consegue reviver esse espírito em determinados momentos, como na cena da sex/fight entre Barnabas e Angelique, ou em todo exagero do clímax no terceiro ato (que por muitas vezes me lembrou “A Morte lhe Cai Bem” de Robert Zemeckis). São ótimas sequências, mas isoladas, e com isso o que sobra para o público é apenas um recorte incompleto do imaginário Burtoniano.

Talvez o relativo fracasso de público do filme nos EUA possa ser um fator positivo para que Burton volte à velha forma. Seu próximo projeto, “Frankenweenie”, uma versão animada e estendida de seu primeiro curta- metragem nos faz crer que esse retorno está próximo. Fica então a torcida de todos os cinéfilos, pois ver um dos cineastas mais importantes e significativos dos últimos 30 anos sem conseguir entregar ao público 100% de seu talento é um grande desperdício.

por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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