A Primeira Coisa Bela – Dir. Paolo Virzì – 2010

As chamadas tragicomédias estão profundamente incorporadas à tradição cinematográfica italiana. A habilidade em mesclar drama e humor, através de  histórias geralmente centradas no universo familiar, vem atravessando as décadas como uma das principais marcas do cinema do país. Em seu mais recente filme, “A Primeira Coisa Bela”, o diretor Paolo Virzì consegue dar nova vida a esse gênero, sempre com grande reverência ao passado, e honrando assim a obra de grandes mestres como Mario Monicelli, Dino Risi e Luigi Comencini.

A história acompanha Bruno (Valerio Mastandrea) um professor universitário que vive em uma constante fuga. Foge de suas responsabilidades no trabalho (através do consumo ocasional de maconha e outras drogas), foge do compromisso de se casar com sua noiva Sandra (Fabrizia Sacchi) e principalmente de sua família e de seu passado. Mas a vida de Bruno irá sofrer um choque, metaforicamente representado logo em sua primeira cena, quando é acordado no parque por uma bolada no rosto, e concretizado com a visita de sua irmã, Valeria (Claudia Pandolfi), pedindo para que o irmão vá visitar a mãe, Ana (Stefania Sandrelli), que sofre de uma doença terminal, restando-lhe poucos dias de vida. Mesmo relutante Bruno acaba atendendo ao pedido e vai ao encontro de Ana, o que acaba fazendo com que comece a recordar de sua infância e do relacionamento complicado com a mãe.

Apesar de ter seus filmes frequentando festivais pelo mundo, Virzì (nascido em Livorno, onde se passa boa parte da trama) pratica um cinema bastante popular e comercial, algo que de forma alguma pode ser considerado um demérito. O diretor cria um universo típico dos filmes de seu país, com personagens que possuem suas emoções à flor da pele, indo do riso ao choro, do carinho ao desentendimento em questão de segundos. Há uma clara urgência na construção dessas figuras, que precisam o tempo todo expor e liberar os seus sentimentos, falando sem parar, cantando ou dançando. O movimento é vital para os personagens, algo reforçado pelo ótimo trabalho de câmera, que flui com elegância pelos cenários, com pouquíssimos planos estáticos, que quando surgem também são muito bem trabalhados e significativos.

O cuidado com a fotografia também possui um papel importante no filme de Virzì. Utilizando filtros e tonalidades de cores diferentes para as épocas retratadas no vai e vem temporal do roteiro, o diretor consegue transmitir diferentes sensações. Enquanto no presente existe um equilíbrio entre cores fortes e neutras, quando voltamos para os anos 70 e acompanhamos a infância dos personagens, temos a utilização de um filtro dourado que realça ainda mais as cores quentes dos figurinos e cenários. Essa escolha transmite o sentimento de calor humano, de conforto dessa que, apesar de todas as turbulências, foi a melhor época da vida de Bruno, aquela que ele sempre se recorda com nostalgia e que traz a imagem mais afetuosa que possui de sua mãe. Em contraste com isso, durante o período que mostra a adolescência de Bruno, a fotografia é fria, pois é justamente nesse momento, com a morte do pai e uma revelação sobre a mãe, que o garoto resolve fugir e abandonar sua família.

Mesmo que por vezes caia em alguns clichês do cinema italiano (como na cena em que Ana e o marido discutem nas escadas do prédio enquanto todos os vizinhos acompanham, ou quando os funcionários da cozinha do restaurante fofocam o tempo todo sobre o comportamento de Ana), a construção dos personagens é excelente. Todos são verossímeis, assim como os seus relacionamentos. No papel de Ana nos dias de hoje, Stefania Sandrelli está encantadora, como uma mulher que mesmo sabendo de seu estado de saúde, demonstra uma alegria de viver intensa e inesgotável. Na versão mais jovem da personagem, Micaela Ramazzotti consegue o mesmo resultado, sempre belíssima e, mesmo que essa não seja a sua profissão no filme, lembrando outro tipo de personagem muito explorado no país da bota: a prostituta de bom coração e instinto maternal vista em trabalhos que vão de Fellini a Pasolini. Ainda falando em referências a grandes diretores, Virzì encontra espaço para homenagear Dino Risi, na passagem em que Ana consegue um pequeno papel em “A Mulher do Padre” ao lado de Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Um toque que adiciona um charme especial ao longa.

Valerio Mastandrea merece todos os elogios como Bruno. Seu personagem é evidentemente aquele que mais sente as consequências dos atos de sua mãe. É também ele o responsável pelos silêncios e momentos mais reflexivos da história. Sua relação com a irmã é tocante e de grande realismo. “Sinto sua falta, porque apesar de puxar meus cabelos, você me fazia carinho a noite. Mesmo me chamando de idiota, você cantava músicas de ninar para mim. Você me protegia”, desabafa Valeria em relação ao irmão. Esse realismo na dinâmica entre os dois causa uma grande conexão com os espectadores.

Não há dúvidas de que Ana é um personagem riquíssimo, mas o filme é mesmo sobre Bruno. Sobre como ele precisa enfrentar e exorcizar o seu passado. Desenterrar tudo o que foi deixado para trás e assim poder seguir em frente. A cena em que canta a música título do filme ao lado da irmã e da mãe já convalescente é magnífica. Como faz questão de deixar claro em todo o simbolismo de seu belíssimo plano final, “A Primeira Coisa Bela” é um filme feito para “lavar a alma”.

 por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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