Deus da Carnificina – Dir. Roman Polanski – 2011

A transposição de um texto do teatro para o cinema, geralmente representa um desafio para os realizadores. Muitas vezes, as tentativas de alterar o espaço cênico limitado de uma montagem teatral, com a intenção de ampliá-lo para imprimir uma linguagem mais cinematográfica ao material, acabam falhando, pois fogem demais da proposta inicial. Ao mesmo tempo, utilizar o formato de “teatro filmado” quase sempre resulta aborrecido, caindo em um meio-termo insatisfatório entre as duas formas de arte. Encontrar um equilíbrio entre essas formas exige um grande talento, algo que o diretor polonês Roman Polanski já demonstrou ter de sobra.

Em “Deus da Carnificina”, Polanski adapta para as telas a peça “Le Dieu du Carnage”, da escritora francesa Yasmina Reza. A premissa é bem simples: após uma briga entre dois colegas de escola, os pais dos garotos resolvem se encontrar para discutir e resolver cordialmente as desavenças entre os filhos. Obviamente, para que a trama se desenvolva, as coisas não ocorrem exatamente como o planejado, e aos poucos a cordialidade e as boas intenções dos dois casais vão dando lugar a discussões éticas, desvios de caráter, revelações sobre seus relacionamentos, e muitas críticas a diversos aspectos comportamentais da sociedade atual, em especial a norte-americana.

A princípio o filme apresenta o que parece ser uma divisão bem definida entre os arquétipos que os dois casais representam. Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), os pais do garoto “agressor”, formam o casal workaholic, um advogado que pensa no trabalho 24 horas por dia e nunca larga seu celular e uma atarefada corretora de imóveis, que não têm tempo para acompanhar a vida do filho mais de perto e parecem estar indo ao encontro apenas por pura burocracia. Do outro lado temos Penelope (Jodie Foster), uma professora/escritora interessada em arte e preocupada com os problemas do terceiro mundo, e Michael (John C. Reilly) um simpático vendedor de equipamentos hidráulicos, que representam o casal liberal, que mesmo sendo pais da “vítima”, estão dispostos a resolver tudo pacificamente.

A situação incômoda só vai piorando com o passar do tempo, fazendo com que as máscaras dos personagens comecem a cair pouco a pouco. A tentativa de manter o jogo de aparências vai por água abaixo de vez após a cena do vômito de Nancy. A partir dessa metáfora, propositalmente sem nenhuma sutileza do texto, os quatro protagonistas são obrigados a revirar toda a sujeira acumulada debaixo do tapete.

Polanski filma com habilidade e elegância ao trabalhar em um espaço limitado (algo que já havia realizado anteriormente em filmes como “A Morte e a Donzela” e “O Escritor Fantasma”), conseguindo sempre manter o público interessado e utilizando a cenografia da melhor maneira possível. O apartamento de Penelope e Michael, com exceção da primeira e da última cena, é o único ambiente em que ocorre a ação do filme.  Com todos os objetos que simbolizam a personalidade do casal – os livros raros de arte de Penelope, os charutos e o uísque de Michael – e os diversos espelhos utilizados de forma extremamente inteligente, tanto com objetivos concretos (mostrar acontecimentos paralelos entre o primeiro e segundo plano), como simbólicos (serem um reflexo das ações e do caráter dos personagens), o diretor consegue transformar esse apartamento quase que em um personagem a parte na história.

Aproveitando bem os excelentes diálogos escritos por Reza e a sua curta duração (pouco mais de 80 minutos), “Deus da Carnificina” faz rir sem nunca cansar a plateia. E como não poderia deixar de ser em uma adaptação teatral, estamos diante de um filme onde os atores são ainda mais fundamentais do que o normal, e todos correspondem à altura.  Foster e Winslet confirmam o talento de sempre, enquanto John C. Reilly demonstra mais uma vez que não é apenas um coadjuvante de luxo, e que merece mais papeis de destaque. Mas quem realmente rouba a cena é o austríaco Christoph Waltz. Alan é o personagem que talvez seja o menos hipócrita de todos. Não que não tenha seus defeitos como todos os outros, mas parece ser o único a admitir desde o começo seu desconforto com toda a situação. A piada em que compara a personagem de Foster à atriz Jane Fonda é um dos pontos altos do filme, assim como a amizade que começa a surgir entre Alan e Michael. É também a trama paralela que envolve um de seus clientes, uma indústria farmacêutica, que promove um encerramento para a história.

Ainda que a certa altura todos do elenco caiam um pouco no exagero, não é nada que comprometa o resultado final. “Deus da Carnificina” é ácido, divertido e crítico. Um daqueles filmes em que, mesmo não gostando de admitir, vemos um pouco de nós em cada um dos personagens e em suas imperfeições. Isso só prova que um Polanski menor ainda tem muito mais a dizer do que praticamente todos os filmes que são lançados nos dias de hoje.

 por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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