Tiranossauro – Dir. Paddy Considine – 2011

Tudo é nebuloso em “Tiranossauro”. O Sol nunca brilha, e o céu está sempre encoberto.  A fotografia cinza, os ambientes escuros e claustrofóbicos, tudo contribui para criar o clima opressor que domina o filme até os seus créditos finais. Em seu primeiro trabalho na direção, o ator Paddy Considine apresenta uma visão nada animadora da sociedade através da história de Joseph (Peter Mullan), um aposentado inglês, cuja rotina se limita a beber cerveja em seu pub favorito e gastar o seu dinheiro em casas de apostas. O temperamento agressivo do personagem nos é mostrado de imediato, quando logo na primeira cena, Joseph em um de seus ataques de fúria, desconta sua frustração por uma aposta perdida em seu cachorro, matando o animal com um pontapé. No momento seguinte vemos a imagem do personagem ajoelhado, chorando por sua atitude.

Essa dualidade é o principal traço da personalidade de Joseph, um homem amargurado, violento e solitário, que sofre por ter ciência de seu comportamento e por não saber como controlá-lo. Em outra cena, ainda nos primeiros minutos do filme, o personagem agride três jovens que o provocaram no pub, para em seguida sair sem rumo pelas ruas até encontrar abrigo em um brechó, onde se esconde atrás dos cabides de roupas como se fosse uma criança assustada. É a representação perfeita dos sentimentos de Joseph, buscando fugir de si mesmo e se fechando para tentar evitar que suas ações afetem as outras pessoas. Nessa sua “fuga”, Joseph acaba conhecendo Hannah (Olivia Colman) a dona do estabelecimento. Como uma cristã fervorosa, que destina o dinheiro ganho em seu brechó para a caridade, Hannah oferece ajuda ao homem, tentando confortá-lo e rezando para que ele “encontre o seu caminho”.

A partir desse primeiro encontro, Joseph passa a visitar com frequência o brechó, e os dois começam a desenvolver uma relação. Essa relação se estreita quando descobrimos mais sobre a vida de Hannah. Vivendo um casamento conturbado, sem poder realizar o seu desejo de ter filhos e sendo violentada e agredida por um marido abusivo, Hannah tenta se apegar a sua fé para conseguir lidar com todos os seus problemas. Mas quando nem mesmo a religião parece lhe mostrar a salvação, é em Joseph que Hannah vai buscar proteção, mesmo que esse não hesite em dizer que “ninguém está a salvo a seu lado”.

Demonstrando muita segurança para um diretor estreante, Considine filma de forma seca e direta. Apesar de alguns travellings bem trabalhados, o cineasta opta por um estilo mais rígido, sem grandes ousadias estéticas, mas que condizem sempre com o tom realista do filme. A violência está presente em quase todos os momentos da história, mas na maioria das vezes ela não chega a ser gráfica. Considine consegue utilizar muito bem a sua montagem para obter um efeito impactante, sem precisar exagerar visualmente. Vemos pouco dos atos violentos em si, o foco do diretor está nas marcas deixadas por eles, essas sim estão o tempo todo a mostra, gerando uma representação do passado dos personagens, que assim como o clima inglês, também é nebuloso. Não presenciamos os acontecimentos que levaram os dois até ali, mas sabemos os efeitos causados por esses fatos, como a morte da esposa de Joseph.

Na pele desses personagens complexos e difíceis, Mullan e Colman estão fantásticos. Vinda de grande experiência na TV britânica, Colman oferece uma interpretação comovente e sensível. A cena em que a personagem chega ao fundo do poço, esperando um ato de humanidade de Joseph, quando pede a ele que pelo menos a abrace depois de um momento muito crucial da história, é angustiante e brilhante.

Mas é Peter Mullan a grande força de “Tiranossauro”. Impressiona a maneira como o ator – que assim como Considine também já se arriscou atrás das câmeras com sucesso, chegando até a ganhar um Leão de Ouro em Veneza por seu filme “Em Nome De Deus” – consegue gerar empatia com o público, mesmo com um personagem a princípio desprezível, que admite com naturalidade que “não é uma boa pessoa”. Talvez seja essa sinceridade (de Joseph e do ator) que consiga transformar um monstro em ser humano.  Mullan consegue até mesmo ser engraçado, nos raríssimos momentos de humor (negro) do filme, como quando conta a história que explica a razão do título do filme. O personagem não busca redenção em nenhum momento, mesmo que consiga vez por outra demonstrar alguma bondade, em especial com o seu velho amigo que está morrendo de câncer e com o jovem garoto Sam (Samuel Bottomley), vizinho de Joseph. O personagem de Sam, aliás, parece ser o único que consegue ver esperança para Joseph, como se representasse um prenúncio de um futuro menos turbulento. Mas Considine deixa bem claro também o seu pessimismo em relação ao futuro. E não deixa de ser irônico e simbólico que o único momento de real felicidade dos personagens ocorra em função de um funeral, como se a morte fosse necessária para que a vida acontecesse.

Reservando ainda uma surpresa no roteiro, perto do final, o filme termina sem concessões e sem julgar os seus personagens. Não existe lição de moral, apenas a afirmação de que ninguém é inteiramente mau ou inteiramente bom. Todos nós temos falhas. E essa constatação do diretor, infelizmente, não é pessimista, é apenas realista.

por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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