As Neves do Kilimanjaro – Dir. Robert Guédiguian – 2011

Ainda existe esperança nesse mundo, pelo menos na cidade de Marselha, onde se passa a história de “As Neves do Kilimanjaro” do francês Robert Guédiguian. Não se trata de uma adaptação da obra de Ernest Hemingway, nem de um remake do filme dirigido por King Vidor e estrelado por Gregory Peck em 1952. Esse novo trabalho de Guédiguian baseia-se livremente no conto “Os Pobres” de Victor Hugo. O filme nos apresenta a Michel (Jean-Pierre Darroussin), um trabalhador e líder sindical de uma fábrica próxima ao porto da cidade, que acaba demitido (depois de 20 anos) de seu emprego junto com outros 19 funcionários, em um sorteio realizado por ele mesmo. Já de início, a conduta íntegra de Michel fica clara para o espectador, já que ele poderia muito bem ter tirado o seu nome do sorteio, como aponta o seu colega de trabalho e amigo de infância, Raoul (Gérard Meylan).

A princípio, a demissão parece não causar grande impacto na vida de Michel. Com sua aposentadoria e benefícios garantidos, ele convida sua mulher, Marie-Claire (Ariane Ascaride) para jantar e conta sobre o ocorrido. Ela, que trabalha como empregada doméstica, tomando conta da casa e fazendo companhia a uma senhora idosa, aceita tranquilamente a notícia, ressaltando que agora o marido terá mais tempo para aproveitar a companhia dos netos e filhos, o que inclui ocupar suas tardes construindo uma pérgola para a casa de seu filho mais velho, e também realizar uma viagem para a Tanzânia (para conhecer o Monte Kilimanjaro), um presente de casamento dado por seus filhos e amigos.

Toda essa tranquilidade muda quando Michel, Marie, Raoul e sua esposa, Denise (Marilyne Canto) são assaltados em casa. Além de amarrar e agredir os dois casais, os ladrões levam cartões de crédito, o dinheiro da viagem e as passagens para a Tanzânia. Esse acontecimento traumático afeta profundamente a rotina de Michel e Marie, trazendo à tona também diversos questionamentos sobre as pessoas que eles se tornaram. Em determinada cena, Michel se pergunta o que ele, 30 anos antes, diria de si mesmo hoje em dia. “Acharíamos que somos pequenos burgueses”, responde Marie. Esses questionamentos ganham mais força depois da descoberta de que um dos criminosos, Cristophe (Grégoire Leprince-Ringuet), trabalhou e foi demitido junto com Michel da fábrica. Para o aposentado, a perda material não é o que realmente importa, mas sim o fato de Christophe ter assaltado um colega, alguém que lutava para defender os seus direitos. Ao confrontar o ladrão na delegacia, Michel o agride quando esse o acusa de fazer acordos com o sindicato. Mais do que o ferimento deixado em seu ombro durante o assalto, Michel sente a sua honra e seu caráter feridos.

Guédiguian filma com firmeza, de forma direta, sem grandes arrojos técnicos. Seu grande trunfo está em saber exatamente como utilizar o tempo. As cenas nunca se alongam mais do que deveriam e o diretor aproveita muito bem cada momento dos closes nos rostos de seus personagens ou dos planos abertos da cidade de Marselha, além de demonstrar uma ótima condução de atores. O casal protagonista está excelente, em especial Darroussin (que esse ano já pôde ser visto no ótimo “O Porto” de Aki Kaurismäki).  Michel é retratado como um homem que possui um vazio existencial, que no fundo se culpa pela prisão de Christophe e sente-se frustrado por seus sonhos não realizados. Sonhos impedidos pela globalização, como diz um dos personagens. Pois nem Michel, um homem de esquerda e que sempre lutou contra o “colonialismo”, consegue fugir dessa globalização. Isso é mostrado pelo diretor através da trilha sonora (na festa de bodas, os personagens dançam ao som de “Heart of Glass” do Blondie), de cenas como a de Michel demonstrando seu conhecimento em inglês com nomes de músicas dos Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan,  e principalmente na figura do Homem-Aranha, um dos heróis de Michel. Aliás, uma revista em quadrinhos rara do aracnídeo tem papel fundamental para o desenrolar da trama.

O terceiro ato gira em torno dos irmãos mais novos de Cristophe, que com ele na cadeia, e uma mãe totalmente ausente, acabam abandonados. A partir desse momento, da relação estabelecida entre Michel, Marie e os jovens garotos, é que Guédiguian se mostra um verdadeiro otimista.  Talvez os acontecimentos finais – quando o casal percebe que a viagem à África é desnecessária, pois já estão em seu habitat natural – possam transmitir a ideia de que o diretor seja um “último romântico” e que a resolução da história seja utópica. Mas em tempos em que o cinema parece mostrar apenas o pior lado da sociedade, sem compaixão ou preocupação com o próximo, a sensação reconfortante deixada pelo filme não só é bem-vinda, mas é quase necessária. Afinal, se todos desistirem da humanidade, o que nos restará?

por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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