O Fundo do Coração – Dir. Francis Ford Coppola – 1982

     Um dos meus filmes favoritos até o momento em 2012 foi “A Invenção de Hugo Cabret” do Scorsese, uma belíssima homenagem aos primórdios do cinema, em especial aos filmes de Georges Méliès. Portanto, foi uma grata coincidência ter escolhido assistir “O Fundo do Coração” na Mostra Filmes da Minha Vida, realizada no MIS. Uma coincidência, pois, “O Fundo do Coração” poderia facilmente ser definido como “Coppola brincando de Méliès”. Antes de explicar essa definição, vale fazer um rápido resumo sobre a história por trás desse filme considerado “maldito” por muitos.

No final dos anos 60 e começo dos 70, a indústria cinematográfica americana passou por uma grande transformação. A chamada “Nova Hollywood” e seus diretores, como Scorsese, Coppola, De Palma, Spielberg, Lucas, Friedkin, Altman, Bogdanovich, Allen, Cimino, entre outros, mudaram os rumos da produção e do mercado do cinema de uma forma geral, fazendo com que os grandes estúdios e seus produtores perdessem o controle absoluto que tinham sobre a produção dos filmes. Os diretores começaram a ganhar mais poder na indústria e passaram a ser reconhecidos como verdadeiros autores, e não apenas como meros artesãos. Nessa época, Coppola já havia alcançado o reconhecimento do público e da crítica com os dois primeiros capítulos da saga Poderoso Chefão e com Apocalypse Now. Além do talento, o diretor também já havia demonstrado uma tendência à grandiosidade que não agradava aos estúdios. Seus filmes ultrapassavam os prazos, estouravam o orçamento, tinham filmagens conturbadas, brigas com atores, e o gênio difícil do diretor também não ajudava muito. Para poder ter mais liberdade criativa, Coppola criou o seu próprio estúdio, a Zoetrope e após o sucesso de Apocalypse Now resolveu realizar o projeto de seus sonhos: “O Fundo do Coração”. Um projeto arriscado, caro (custou mais de 30 milhões de dólares, valor absurdo para a época), filmado totalmente nos estúdios da Zoetrope. Quando lançado em 1982, o filme foi um enorme fracasso de público e crítica, levando o estúdio à falência e iniciando uma fase de altos e baixos, na carreira do diretor. Toda essa história foi contada em detalhes no livro “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock ‘n’Roll Salvou Hollywood” (Easy Riders, Raging Bulls), de Peter Biskind, uma leitura fundamental e mais do que recomendada para quem gosta da sétima arte.

Feita essa introdução ao cenário histórico em que o filme foi lançado, podemos voltar à definição do início do texto. Ao escolher recriar a cidade de Las Vegas, cenário do filme, inteiramente dentro de seus estúdios, utilizando fundos falsos claramente artificiais, Coppola nos remete diretamente às produções de Georges Méliès. Assim como o diretor francês, Coppola escolhe o universo da fantasia para contar sua fábula sobre um casal em crise no relacionamento, fugindo do tom realista que marcara a maioria dos filmes da Nova Hollywood nos anos 70 (assim como Méliès fugia da realidade mostrada nos filmes dos irmãos Lumière). O filme é pura experimentação, desde os seus créditos de abertura mostrados nos letreiros em neon típicos de Las Vegas, passando pelas brincadeiras com o primeiro e segundo plano, fazendo fusões de cenários e de cenas que ocorrem em paralelo. Toda a parte técnica é simplesmente espetacular. Os trabalhos de iluminação, direção de arte e fotografia nos fazem ver que os mais de 30 milhões gastos na produção estão ali, na tela. E apesar de seus penteados e figurinos que soam datados dos anos 80, o filme envelheceu muito bem e visualmente continua a impressionar.

A princípio o filme pode causar uma estranheza. Tudo é exagerado, caricato, e a comédia pode parecer até involuntária, mas não é. Essa era intenção de Coppola, abraçar o exagero, o “ridículo”, com paixão, para tirar daí toda a sua força. Depois do início, em pouco tempo somos transportados para dentro desse universo onírico criado pelo diretor, e nos acostumamos com esse clima de fantasia. Por isso, quando o filme vira descaradamente uma homenagem aos grandes musicais da década de 40 e 50, com o elenco todo dançando e cantando nas ruas, achamos isso perfeitamente normal, faz parte da proposta de Coppola. É claro que ter uma trilha assinada por alguém como Tom Waits ajuda muito, e ela é fundamental para a história, transformando-se praticamente em um personagem (um narrador para o filme). As letras das músicas que evidenciam os sentimentos e motivações dos personagens, várias vezes caem no nonsense, algo que casa perfeitamente com o tom de farsa do filme. Até a atuação meio canastrona de Frederic Forrest acaba sendo perfeita para o que Coppola deseja transmitir. Como o próprio personagem principal diz em determinado momento: “O problema com o mundo de hoje são essas luzes, tudo parece artificial”. A ironia permeia o filme o tempo todo, ele não se leva a sério e essa é uma grande virtude. Todo elenco parece ter entendido a proposta de Coppola e mergulha de cabeça nela. Teri Garr, Raul Julia e Harry Dean Stanton estão hilários, e a Nastassja Kinski, no auge de sua beleza, mereceria um texto só para ela.

Dentro dessa sua “salada de referências”, além dos musicais, Coppola acrescenta pitadas da screwball comedy (com seus diálogos rápidos e trocas de casais) e também da mais pura comédia pastelão, como na cena em que o personagem de Frederic Forrest tenta invadir o quarto de motel onde estão Raul Julia e Teri Garr. Cena com direito a um choque que faz o cabelo do personagem ficar em pé, e efeitos sonoros que parecem saídos diretamente de um episódio de “Os Três Patetas”. Mas mesmo com toda essa “loucura” acontecendo na tela, conseguimos nos identificar com os personagens e com sua história. Pois, apesar de estarem em um mundo fantástico, seus problemas, suas dúvidas e seus desejos são comuns a qualquer um de nós.

Não chega a ser uma surpresa que o filme não tenho sido compreendido pela grande maioria. Coppola definitivamente ousou, e como sempre ocorre com quem ousa, correu o risco de ser julgado e mal interpretado. Talvez o filme tenha sido mesmo algo à frente do seu tempo, e talvez o passar dos anos fosse necessário para que o público o redescobrisse. Felizmente, essa redescoberta aconteceu, já que “O Fundo do Coração” não é só um dos melhores filmes do diretor, ou um dos melhores da década de 80, é um dos grandes filmes da história do cinema. Uma obra única, icônica e fascinante.

por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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