Drive – Dir. Nicolas Winding Refn – 2011

      Uma sequência de abertura praticamente sem diálogos, uma trilha sonora típica dos anos 80 (cheia de sintetizadores e com um toque  de Blade Runner), uma fotografia e planos que de cara me remeteram a Mann (Colateral e Miami Vice), Gray (Os Donos da Noite) e Ferrara (Rei de Nova York). Pronto! Foi o suficiente para que eu comprasse por completo a proposta do diretor Nicolas Winding Refn: o estilo. Como diria aquele slogan “Estilo: ou você tem, ou você não tem”, e o diretor dinamarquês tem de sobra.

     Winding Refn não procura reinventar nada, trabalha em cima dos clichês e arquétipos dos filmes de gênero aplicando sobre o máximo de estilo. Além dos nomes citados no parágrafo acima, podemos notar também a influência dos filmes dos anos 70 e de diretores como Martin Scorsese, William Friedkin, Michael Cimino e David Lynch, assim como filmes que marcaram o cinema de ação exagerado dos anos 80. Pois, se o personagem de Ryan Gosling, o motorista sem nome, lembra os heróis de poucas palavras, que seguem o seu próprio código de conduta moral (interpretados anteriormente por nomes como Clint Eastwood, Lee Marvin, Charles Bronson e Steve McQueen) também podemos perceber toques dos heróis de ação dos anos 80. O palito de dentes sempre no canto na boca é uma referência não só aos velhos cowboys, mas também a um Stallone Cobra e seu jeito truculento de resolver os problemas, assim como a trama simples de um dublê que durante noite trabalha como piloto de fuga em assaltos e acaba se envolvendo com sua vizinha, mãe e de nobre coração, poderia facilmente ter sido produzida pela Cannon na década de 80.

Acima de tudo, podemos perceber que Winding Refn aprendeu uma lição valiosa ensinada por grandes mestres como Ford e Hitchcock: acreditar no poder da imagem. É por isso que “Drive” é um filme repleto de silêncios, onde a imagem transmite tudo o que é necessário, seja tensão, ou a solidão e o vazio da noite nas grandes cidades como Los Angeles. Dentro dessa opção narrativa, devemos destacar o trabalho de Ryan Gosling, que se aproveita de todos esses silêncios para construir o seu personagem apenas através de gestos e olhares, deixando a maioria dos bons diálogos que o roteiro possui para os ótimos personagens coadjuvantes (com destaque para Albert Brooks e Bryan Cranston). Essa construção bem realizada do ícone do herói (ou anti-herói, no caso) é o que nos faz sempre crer nas motivações e na personalidade do personagem. Mesmo quando suas atitudes possam parecer inesperadas e surpreendentes, elas nunca soam falsas ou forçadas.

Winding Refn já havia demonstrado talento em seus trabalhos anteriores, mas aqui notamos um equilíbrio perfeito e um domínio pleno de suas opções estéticas. O dinamarquês caminha sempre na linha perigosa da caricatura (que em mãos menos competentes poderia acabar com o filme), e consegue o feito de nunca cair na banalidade, no pastiche mal feito ou na paródia não intencional.

Dito tudo isso, chegamos ao ápice do filme, o momento em que todo o estilo é elevado à milésima potência: a já clássica cena do elevador. Nela todos os elementos que definiram a estética do filme estão presentes. A iluminação, a trilha, o uso da câmera lenta, uma combinação que nos faz acreditar completamente na suspensão da realidade, que nos faz embarcar na fantasia. Nesse momento, nos pegamos naturalmente com um sorriso de satisfação estampado no rosto.

Foi para isso, para momentos como esse, para filmes como “Drive” que esse tal de cinema foi inventado.

por Leonardo Ribeiro

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Sobre Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Da tentativa de unir minha profissão e minha paixão nasceu o Blog, com o sonho de que as duas coisas tornem-se uma só. Quem sabe assim poderei multiplicar a DVDteca de 500 para 5.000 títulos. Escrevo também para o site Cult Cultura e estou sempre em busca de aprimorar o meu conhecimento na sétima (e minha favorita) arte. Ver todos os artigos de Leonardo Ribeiro

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