Os Melhores Filmes de 2014

Depois de 365 dias e 172 filmes assistidos, chega a hora de selecionar os melhores de 2014. Lembrando que são válidos para a lista apenas filmes lançados nos cinemas (circuito comercial, mostras e festivais), deixando de lado filmes antigos de retrospectivas, como as de Ferreri ou Cimino. Ficam fora também alguns ótimos longas lançados comercialmente em 2014, mas que já haviam entrado na lista de 2013, como “O Lobo Atrás da Porta”, “Vidas ao Vento”, “Miss Violence” e “Amor Materno”. Então, sem mais delongas, segue a lista:

50) Magia ao Luar (Magic in the Moonlight) – 2014 – EUA – Dir. Woody Allen

Magia ao Luar 2 (650x297)

49) Lucy (Lucy) – 2014 – França – Dir. Luc Besson

Lucy

No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow) – 2014 – EUA – Dir. Doug Liman

No Limite do Amanhã 3

48) Virgínia (Twixt) – 2011 – EUA – Dir. Francis Ford Coppola

Virgínia (650x285)

47) O Grande Mestre (Yi dai zong shi) – 2013 – China – Wong Kar Wai

Grande Mestre 2

46) Vic+Flo Viram Um Urso (Vic + Flo ont vu un ours) – 2013 – Canadá – Dir. Denis Côté

Vic + Flo

Meteora (Metéora) – 2012 – Grécia – Dir. Spiros Stathoulopoulos

Meteora 2 (650x275)

45) O Cidadão do Ano (Kraftidioten) – 2014 – Noruega/Suécia/Dinamarca – Dir. Hans Petter Moland

Cidadão do Ano 4 (650x274)

44) X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past) – 2014 – EUA – Dir. Bryan Singer

X Men

43) Riocorrente – 2013 – Brasil – Dir. Paulo Sacramento

Riocorrente

42) Amor Fora da Lei (Ain’t Them Bodies Saints) – 2013 – EUA – Dir. David Lowery

Amor Fora da Lei (650x273)

Todos os Dias (Everyday) – 2012 – Reino Unido – Dir. Michael Winterbottom

Todos os Dias 2 (650x323)

41) Uma Vida Comum (Still Life) – 2013 – Reino Unido/Itália – Dir. Uberto Pasolini

Uma Vida Simples 2

A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli) – 2014 – Geórgia/Cazaquistão – Dir. George Ovashvili

Ilha dos Milharais 2

40) Glória (Gloria) – 2013 – Chile – Dir. Sebatián Lelio

Gloria

39) O Teorema Zero (The Zero Theorem) – 2013 – Reino Unido/EUA – Dir. Terry Gilliam

Teorema Zero 3

O Congresso Futurista (The Congress) – 2013 – Israel/França – Dir. Ari Folman

Congresso Futurista 2

38) Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy) – 2014 – EUA – Dir. James Gunn

Guardiões

37) Até o Fim (All is Lost) – 2013 – EUA – Dir. J.C. Chandor

Até o Fim

36) Branco Sai, Preto Fica – 2014 – Brasil – Dir. Adirley Queirós

Branco Sai Preto Fica

35) Detetive D: O Dragão do Mar (Di Renjie: Shen du long wang) – 2013 – China – Dir. Tsui Hark

Detetive D

As Bruxas de Zugarramurdi (Las Brujas de Zugarramurdi) – 2013 – Espanha – Dir. Álex de la Iglesia

As Bruxas de Zugarramurdi

34) Relatos Selvagens (Relatos Salvajes) – 2014 – Argentina – Dir. Damián Szifrón

Relatos Selvagens 4 (650x303)

33) Nebraska (Nebraska) – 2013 – EUA – Dir. Alexander Payne

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32) Godzilla (Godzilla) – 2014 – EUA – Dir. Gareth Edwards

GODZILLA

31) The Rover: A Caçada (The Rover) – 2014 – Austrália – Dir. David Michôd

The Rover 4 (650x273)

30) Cães Errantes (Jiao you) – 2013 – Taiwan – Dir. Tsai Ming-Liang

Cães Errantes

Hotel Mekong (Mekong Hotel) – 2012 – Tailândia – Dir. Apichatpong Weerasethakul

Hotel Mekong 2

29) As Noites Brancas do Carteiro (Belye nochi pochtalona Alekseya Tryapitsyna) – 2014 – Rússia – Dir. Andrei Konchalovsky

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A Imagem que Falta (L’image manquante) – 2013 – Camboja/França – Dir. Rithy Panh

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28) O Menino e o Mundo – 2014 – Brasil – Dir. Alê Abreu

O Menino e o Mundo

27) Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron) – 2014 – Suécia – Dir. Roy Andersson

Um Pombo (650x317)

26) O Homem Duplicado (Enemy) – 2013 – Canadá – Dir. Denis Villeneuve

O Homem Duplicado

Quando Eu Era Vivo – 2014 – Brasil – Dir. Marco Dutra

Quando Eu Era Vivo

25) O Ciúme (La Jalousie) – 2014 – França – Dir. Philippe Garrel

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24) O Passado (Le Passé) – 2013 – Irã/França – Dir. Asghar Farhadi

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23) Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August) – 2011 – Noruega – Dir. Joachim Trier

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22) Amar, Beber e Cantar (Aimer, boire et chanter) – 2014 – França – Dir. Alain Resnais

Amar Beber e Cantar (650x307)

Noites Brancas no Píer (Nuits Blanches sur la Jetée) – 2014 – França – Dir. Paul Vecchiali

Noites Brancas no Píer

21) O Abutre (Nightcrawler) – 2014 – EUA – Dir. Dan Gilroy

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20) Uma Família em Tóquio (Tôkiô Kazoku) – 2013 – Japão – Dir. Yôji Yamada

Uma Família em Tóquio 2 (650x297)

O Segredo das Águas (Futatsume no Mado) – 2014 – Japão – Dir. Naomi Kawase

O Segredo das Águas 2 (650x289)

19) Jersey Boys: Em Busca da Música (Jersey Boys) – 2014 – EUA – Dir. Clint Eastwood

Jersey Boys 2

18) A Gangue (Plemya) – 2014 – Ucrânia – Dir. Miroslav Slaboshpitsky

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17) Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria) – 2014 – França – Dir. Olivier Assayas

Acima das Nuvens

Retorno a Ítaca (Retour à Ithaque) – 2014 – França/Cuba – Dir. Laurent Cantet

Retorno a Ítaca 2 (650x290)

16) Garota Exemplar (Gone Girl) – 2014 – EUA – Dir. David Fincher

Garota Exemplar

15) Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown) – 2012 – Bélgica/Holanda – Dir. Felix van Groeningen

Alabama Monroe 3

14) Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit) – 2014 – Bélgica/França – Dir. Luc Dardenne & Jean-Pierre Dardenne

Dois Dias Uma Noite

13) Boyhood: Da Infância a Juventude (Boyhood) – 2014 – EUA – Dir. Richard Linklater

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12) O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) – 2013 – EUA – Dir. Martin Scorsese

O Lobo de Wall Street

11) Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum (Inside Llewyn Davis) – 2013 – EUA – Dir. Ethan Coen & Joel Coen

Inside Llewyn Davis (650x299)

10) Winter Sleep (Kis Uykusu) – 2014 – Turquia – Dir. Nuri Bilge Ceylan

Winter Sleep 2

9) Nós Somos as Melhores! (Vi ar Bäst!) – 2013 – Suécia – Dir. Lukas Moodysson

VI ÄR BÄST!

8) Ida (Ida) – 2013 – Polônia – Dir. Pawel Pawlikowski

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7) O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel) – 2014 – EUA – Dir. Wes Anderson

Grand Hotel Budapeste

6) Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive) – 2013 – Reino Unido/França – Dir. Jim Jarmusch

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5) Leviatã (Leviafan) – 2014 – Rússia – Dir. Andrey Zvyagintsev

Leviatã

4) Bem-Vindo a Nova York (Welcome to New York) – 2104 – EUA – Dir. Abel Ferrara

Bem Vindo a Nova York

3) Sob a Pele (Under the Skin) – 2013 – Reino Unido – Dir. Jonathan Glazer

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2) Ela (Her) – 2013 – EUA – Dir. Spike Jonze

Ela

1) Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant) – 2013 – EUA – Dir. James Gray

Era Uma Vez em Nova York

Menções Honrosas: Philomena |Sem Escalas | 12 Anos de Escravidão | Capitão América 2: Soldado Invernal | Planeta dos Macacos: O Confronto | Toque de Mestre | Debi & Lóide 2 | Eles Voltam | Vida Que Se Desfaz | Praia do Futuro | Avanti Popolo | Sobrevivente | O Melhor Lance | De Menor | Mesmo Se Nada Der Certo | Pássaro Branco na Nevasca | No Lugar Dela | Inseguro | Au Fil D’Ariane | Queen & Country | Almas Negras | Entre Vales | Motivação Zero | Entre Mundos | A Pequena Morte | Smetto Quando Voglio (Paro Quando Eu Quiser) | Os Amigos | O Vento Lá Fora | De Volta ao Jogo

Por Leonardo Ribeiro


Os Piores Filmes de 2014

Começando as listas de 2014 pelo que tivemos de mais fraco nos cinemas no ano que passou. Aqui ficam aqueles quase indefensáveis ou que realmente decepcionaram. Lembrando que valem para a lista apenas filmes vistos nos cinemas, em circuito comercial, mostras ou festivais.

10) Walt Nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks) – 2013 – EUA – Dir. John Lee Hancock

A interessante história de bastidores e as ótimas atuações de Tom Hanks e Emma Thompson acabam submersas num mar de pieguice.

Walt Nos Bastidores de Mary (650x315)

9) Caçadores de Obras-Primas (The Monuments of Men) – 2013 – EUA – Dir. George Clooney

Nem Bill Murray é capaz de salvar o mais recente trabalho de Clooney, que representa um tipo de cinema não só antigo, como ultrapassado.

George Clooney;Matt Damon;John Goodman;Bob Balaban

8) Sin City: A Dama Fatal (Sin City: A Dame to Kill For) – 2014 – EUA – Dir. Robert Rodriguez & Frank Miller

Uma continuação tardia, que busca sustentação em seu visual outrora inovador, mas hoje já sem o mesmo frescor, em que o único real atrativo é a presença de Eva Green.

Sin city 2 (650x316)

300: A Ascensão do Império (300: Rise of an Empire) – 2014 – EUA – Dir. Noam Murro

“Sin City: A Dama Fatal”: Ctrl + C / Ctrl + V.

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7) Prenda-Me (Arrêtez-moi) – 2013 – França – Dir. Jean-Paul Lilienfeld

Duas boas atrizes (Sophie Marceau e Miou Miou) perdidas em um roteiro inverossímil e tão indeciso quanto suas personagens principais, que mudam de atitude e motivação a cada dois minutos.

Prenda-Me (650x272)

6) A Fuga (I Ekrixi) – 2014 – Grécia – Dir. Syllas Tzoumerkas

Entre tantos filmes gregos recentes que buscam fazer analogias sobre a crise financeira de seu país, o diretor Syllas Tzoumerkas escolhe um caminho que desconhece a sutileza, apostando num exagero que representaria um grito de desabafo de seu povo, mas cuja histeria de sua narrativa e personagens beira o insuportável.

Fuga (650x297)

5) À Procura (The Captive) – 2014 – Canadá – Dir. Atom Egoyan 

A carreira de Egoyan anda em baixa há algum tempo, mas 2014 definitivamente não foi o ano do diretor de “Exótica” e “O Doce Amanhã”, apresentando dois thrillers com premissas promissoras, mas com resultados extremamente frustrantes.

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Sem Evidências (Devil’s Knot) – 2013 – EUA – Dir. Atom Egoyan

Sem Evidências (650x306)

4) Isolados – 2014 – Brasil – Dir. Tomas Portella

A incursão pelo cinema de gênero na produção nacional é louvável, os atores se esforçam e o diretor Portella até consegue criar uma ambientação interessante. Mas o roteiro óbvio, as reviravoltas manjadas e a explicação desnecessária, que subestima o espectador, acabam com qualquer boa intenção.

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3) As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles) – 2014 – EUA – Jonathan Liebesman

Um dos ícones da infância dos anos 80/90 sob a fórmula Michael Bay: muitos efeitos, testosterona e explosões, mas quase nenhuma empatia ou carisma.

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2) 47 Ronins (47 Ronin) – 2013 – EUA – Dir. Carl Rinsch

Um pastiche mal feito de diversos gêneros fantásticos, que desperdiça os interessantes elementos da cultural oriental, bem como seu bom elenco internacional, em mais uma fórmula clichê hollywoodiana.

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1) Frankenstein: Entre Anjos e Demônios (I, Frankenstein) – 2014 – EUA – Dir. Stuart Beattie

A moda do momento é revisitar personagens clássicos da literatura de terror com uma “nova roupagem”. Em um ano que também teve a origem de “Drácula”, este longa, baseado em uma HQ, joga o personagem do monstro de Frankenstein, de Mary Shelley, em meio a uma batalha milenar entre demônios, anjos, gárgulas e outros seres fantásticos. Pouca coisa faz sentido ou consegue divertir, enfileirando uma sequência de cenas que só provocam a vergonha alheia, estampada na expressão visivelmente constrangida de Aaron Eckhart no papel principal.

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Por Leonardo Ribeiro


Nós Somos as Melhores! – Dir Lukas Moodysson – 2013

vi-ar-bast-poster (566x800)Um conto de formação com espírito punk. Essa seria a melhor definição para “Nós Somos as Melhores!”, longa que acompanha o cotidiano de três amigas de apenas 13 anos de idade, na Suécia do início dos anos 80, que, entre seus dias de monotonia fora da escola, resolvem formar uma banda de punk rock. Em um registro leve e aparentemente despretensioso, o diretor sueco Lukas Moodysson (“Amigas de Colégio”, “Para Sempre Lilya”) utiliza o gênero que revolucionou o meio musical no final da década de 70 como o fio condutor para falar sobre os dilemas da pré-adolescência e as dificuldades do amadurecimento.

A relação com os pais, muitas vezes ausentes, o convívio social do ambiente escolar, a primeira paixão, a formação de uma consciência política. Todos estes conflitos e descobertas são apresentados traçando um paralelo com as principais características do estilo imortalizado por expoentes como os Ramones, New York Dolls, Sex Pistols e The Clash (ainda que a trilha sonora do longa tenha um foco quase exclusivo em bandas suecas da época). Com isso, Moodysson encontra espaço para falar dos temas mais caros ao punk, como contestação política, desigualdade e deslocamento social, religião, etc.

A estética naturalista adotada pelo cineasta também vai de encontro aos preceitos do punk, com sua simplicidade de três acordes, em que a atitude é tão ou mais importante do que a técnica. Para isso, Moodysson utiliza uma câmera na mão em constante movimento, captando com intensidade, através de closes constantes, as expressões, gestos e falas de suas excelentes atrizes-mirins (Mira Barkhammar, Mira Grosin e Liv LeMoyne), que conseguem transmitir uma grande veracidade em suas atuações. A maneira como o filme mostra a rebeldia das garotas contra as convenções de seu universo particular é extremamente divertida e cativante.

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Há sempre um certo clima de ingenuidade nas atitudes das personagens, como quando elas resolvem compor sua primeira canção, afirmando que, por serem punks, devem falar sobre a luta de classes e as adversidades do mundo, como a fome na África, por exemplo. Esse pensamento, à primeira vista pueril, parece inerente a qualquer pessoa ou movimento que acredita ser realmente possível mudar o mundo e promover revoluções através da arte. É preciso de pureza para crer em ideais, e este sentimento transparece no filme o tempo todo de forma bastante sincera.

E é essa sinceridade a grande qualidade do trabalho de Moodysson, capaz de se sobrepor a qualquer fragilidade na construção do roteiro, como o tratamento simplista dado a algumas situações e personagens secundários, como os pais das garotas. É daí que o diretor tira forças para realizar um sensível e tocante libelo à amizade, na melhor tradição de longas como “Conta Comigo”, de Rob Reiner.

Vi är bäst! Foto: Sofia Sabel

Para Moodysson, enquanto houver qualquer pessoa que se levante contra as imposições e os padrões da sociedade, sejam eles de qualquer espécie, o espírito do punk nunca morrerá. Assim como as verdadeiras amizades.

Por Leonardo Ribeiro


O Congresso Futurista – Dir. Ari Folman – 2013

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Após o sucesso de crítica de “Valsa com Bashir”, o cineasta israelense Ari Folman continua a explorar a linguagem da animação com seu novo trabalho, a ficção científica “O Congresso Futurista”.  Se no longa anterior Folman realizava uma espécie de documentário animado, aqui o diretor opta por um formado que mescla animação e live action, para apresentar uma trama complexa, por vezes confusa, que tem como inspiração o livro “O Incrível Congresso de Futurologia”, do consagrado escritor polonês Stanislaw Lem.

Aparentemente, Folman se utiliza apenas de alguns elementos básicos do romance de Lew, como o futuro utópico onde realidade e fantasia se confundem, com a população da Terra migrando entre esses dois mundos através do consumo de drogas psicoativas. Com esse cenário em mãos, o diretor realiza diversas alterações no texto de Lew, a começar pela protagonista. No filme acompanhamos a história de uma atriz, Robin Wright, interpretando uma versão de si mesma. Perto da casa dos 50 anos e com uma carreira em decadência, Robin recebe uma proposta derradeira do executivo de seu estúdio, ser escaneada e transformada em um produto de propriedade exclusiva, para que possa ser modelada pelos técnicos dessa Hollywood do futuro e “atue” em qualquer filme que seus donos desejem.

Incentivada por seu agente e amigo de longa data, Al (Harvey Keitel) e pensando no bem-estar de seus dois filhos, Sarah (Sami Gayle) e o jovem Aaron ( Kodi Smit-McPhee), que sofre de uma rara doença que gradativamente afetará todos os seus sentidos, começando pela audição e pela visão, Robin aceita a proposta e assina um contrato para ser escaneada. Passado um período de 20 anos estipulado, Robin é chamada para renovar o contrato às vésperas do Congresso Futurista do título, realizado em um universo paralelo onde todos possuem sua versão animada. Durante o evento, uma rebelião acontece e a linha que separa o mundo real do fantasioso começa a se estreitar até que eles se confundam por completo.

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Existem diversos temas interessantes e relevantes presentes em “O Congresso Futurista”. O viés político de Folman continua evidente, com a discussão sobre divisão de classes e segregação. Há também diversas reflexões sobre o futuro não tão distante da humanidade, em sua relação obsessiva com a tecnologia e a busca por uma fuga da vida real através do espaço virtual. O horizonte que aguarda a indústria cinematográfica também é explorado no longa, desde o modo de produção dos filmes (os atores escaneados que extinguem o exercício clássico de atuação) até a maneira como o público consome o cinema, com a ideia da transformação dos artistas em produtos, chegando ao extremo de tornarem-se substâncias que podem ser consumidas em comidas, bebidas, etc. O estúdio que se torna uma multinacional ao realizar uma fusão com um laboratório farmacêutico japonês é outro detalhe bem inserido nessa discussão. O longa fala também sobre a ditadura da aparência, do medo de envelhecer e da morte. Já que, depois de escaneada, Robin mantém sua aparência jovem, no auge de sua beleza, para sempre. Uma imagem eternizada e idealizada da atriz.

Visualmente o longa se constrói a partir de um grande número de referências. O surrealismo (ora sombrio, ora psicodélico) remete aos universos criados por Terry Gilliam, especialmente em “Brazil – O Filme” e “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”. Já os segmentos animados transitam por diferentes estilos de traços, sempre com um tom ácido e subversivo, lembrando os trabalhos de Ralph Bakshi, como “Fritz – The Cat” e “Cool World”.  Existem diversas “participações especiais”, geralmente cômicas, de personalidades que vão de Picasso e Michael Jackson até Elvis e Jesus Cristo. A piada recorrente com a figura de Tom Cruise também é ótima.

Contudo, esse excesso de conceitos e ideias acabam prejudicando a fluência do filme, deixando sua trama extremamente intrincada e oferecendo poucas respostas. Algumas escolhas do roteiro também soam incompletas, como a de ter Robin Wright em um papel com uma parcela autobiográfica. Se por um lado as citações a sua carreira, como “A Princesa Prometida” e “Forrest Gump”, de início geram uma identificação afetiva no público, por outro elas perdem seu efeito à medida que os elementos fantásticos são inseridos e os dramas ficcionais da personagem ganham um ar de artificialidade. Todos os assuntos apresentados por Folman têm seu interesse, mas esse interesse acaba diluído e expõe um desenvolvimento aquém do potencial inicial. Falta a “O Congresso Futurista” o foco narrativo de “Valsa com Bashir”, onde o diretor mostrava-se plenamente ciente de sua proposta e de como executá-la.

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Analisando todas as questões levantadas, ao final, Folman parece até encontrar um tema principal para seu longa: o livre-arbítrio. Antes de aceitar ser escaneada, Robin afirma que perder o seu direito de fazer escolhas, sejam acertadas ou equivocadas, seria ainda pior do que ter perdido o seu estrelato devido a seus medos e insegurança. A personagem também se vê obrigada a fazer outras escolhas, como entre um amor romântico e amor por seu filho. E escolher entre a verdade do mundo real e a fantasia do mundo da animação, um tema recorrente das ficções científicas, como “Matrix”, por exemplo, também está entre os dilemas de Robin. As imagens constantes de voos simbolizam essa valorização da liberdade. Na pipa empinada pelo filho, nos aviões do aeroporto onde Robin vive com sua família (aviões que estão presentes também na cena final) e até o voo da própria personagem no mundo da animação.

Em meio a hesitações e indefinições, o longa ainda consegue exercer um fascínio sobre o espectador. Seja um fascínio pelo bizarro, pelo seu visual incrível e arrebatador, ou pelas sensíveis atuações de Robin Wright e de todo o elenco, que ainda inclui Paul Giamatti, Danny Huston e Jon Hamm (apenas voz). “O Congresso Futurista” é capaz transmitir diversos sentimentos, o que não é pouco no cinema atual. Um trabalho com imperfeições visíveis, mas também com encantos inegáveis.

Por Leonardo Ribeiro 


10 Breves Resenhas

Compilei aqui 10 resenhas mais curtas, que publiquei no Facebook, sobre os filmes: “Caçadores de Obras-Primas”, “Uma Aventura Lego”, “Trapaça”, “Gloria”, “A Fita Azul”, “A Grande Noite”, “Pelos Olhos de Maisie”, “Grand Central”, “O Menino e o Mundo” e “Filha de Ninguém”.

 

 

Caçadores Caçadores de Obras-Primas – Dir. George Clooney – 2013

Em sua carreira como cineasta, George Clooney sempre demonstrou ter inclinação a um tipo de cinema que os críticos e diretores da Nouvelle Vague francesa classificavam como “cinema de qualidade”. Geralmente tendo acontecimentos históricos e tramas baseadas em fatos verídicos como alicerces, seus filmes sempre buscam embasar seus temas (amor, amizade, tolerância, política, etc.) através de um contexto que se mostre importante, relevante. Em “Caçadores de Obras-Primas”, Clooney retrata um capítulo específico e pouco conhecido da Segunda Guerra Mundial, mostrando um grupo de estudiosos e colecionadores de arte que são recrutados pelo exército norte-americano com a missão de localizar, resgatar e preservar objetos de valor artístico (quadros, livros, esculturas) roubados das regiões invadidas pelos alemães a mando de Hitler, um apreciador e aspirante a pintor.

Clooney tinha em mãos diversas possibilidades para dar o tom a seu longa, como seguir a linha dos thrillers ou da aventura ao mostrar o trabalho de caça deste grupo de homens. Poderia optar também por realizar uma comédia, já que possui em mãos um grande e subaproveitado elenco coadjuvante de nomes acostumados ao gênero, como Bill Murray, John Goodman, Bob Balaban, o francês Jean Dujardin e o britânico Hugh Bonneville, além de Cate Blanchett e seu amigo, Matt Damon. Mas Clooney opta por tentar mesclar todas essas linhas e termina sem conseguir dar consistência a nenhuma delas. E pior, o diretor ainda acaba não resistindo à necessidade de tratar dos dramas da guerra, caindo em momentos piegas de melodrama ou de um patriotismo excessivo. Características comuns a grande parte dos filmes hollywoodianos que abordam o nazismo.

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Não que Clooney não demonstre certas qualidades, como já o fizera em alguns de seus trabalhos anteriores (“Confissões de Uma Mente Perigosa” ou “Boa Noite e Boa Sorte”). Ele é capaz de criar alguns belos momentos visuais e conduzir sua narrativa sem que ela aborreça, pois o filme até diverte e deixa-se ver sem problemas. Existem também algumas questões significativas sobre o valor e o papel da arte como um elemento fundamental para a construção da história da humanidade e de nossa noção de civilização. Mas ao buscar a todo custo um ar de solenidade para provar o valor de seu trabalho, Clooney acaba apenas atingindo a superficialidade, sem conseguir explorar as ótimas oportunidades oferecidas por sua interessante história real. Diferente de todas as obras mostradas no longa, como as de Michelangelo, Rodin, Cézanne ou Rembrandt, que independente do quão antigas sejam, resistem ao passar do tempo e permanecem atuais, “Caçadores de Obras-Primas” representa um tipo de cinema não só antigo, como ultrapassado.

 

 

1797620_666967176695893_217455432_nUma Aventura Lego – Dir. Phil Lord e Christopher Miller – 2014

Um filme baseado no brinquedo de peças encaixáveis mais vendido do mundo. Uma ideia que a princípio poderia parecer limitada, mas que acaba tendo um resultado até acima do esperado em “Uma Aventura Lego”, de Phil Lord e Chris Miller. Com um leque interminável de possibilidades no campo visual e estético, em seu aspecto narrativo o longa aposta em uma trama de fórmula já consagrada sobre um personagem comum que descobre ser “o escolhido”, e que se vê diante de desafios que o obrigam a deixar sua vida insignificante para realizar algo extraordinário.

Mesmo que sua premissa possa ser batida, o filme sabe como driblar seus clichês ao extrair boa parte de seu humor do grande número de marcas, universos e personagens licenciados pela Lego, como Batman, Superman, “Senhor dos Anéis”, “As Tartarugas Ninjas”, entre outros. Com isso, as piadas e referências à cultura pop surgem em quantidade suficiente para garantir o interesse tanto do público infantil quanto do mais adulto. Utilizando novamente o mesmo estilo de humor frenético, e muitas vezes de puro nonsense, de seus trabalhos anteriores (“Tá Chovendo Hambúrguer” e “Anjos da Lei”), Lord e Miller realizam um longa extremamente ágil e divertido. A dupla de cineastas consegue ainda tirar proveito das limitações de movimentos dos personagens e cenários criados a partir das peças do brinquedo, para empregar um estilo próprio, que parece uma mistura de técnicas 3D e stop motion, mas com um ar retrô que se torna o diferencial do filme.

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Longe de possuir o refinamento dos melhores trabalhos da Disney ou da Pixar, “Uma Aventura Lego”, cumpre bem seu papel de entretenimento, apresentando sempre algum traço de criatividade, até mesmo na inevitável lição de moral presente em quase todos os longas de animação. Lord e Miller encontram uma saída interessante, e até surpreendente, através de uma reviravolta em seu último ato para passar a sua mensagem sobre a liberdade criativa.

 

 

TrapaçaTrapaça – Dir. David O. Russell – 2013

Em “Trapaça”, sua homenagem estilística ao cinema de Martin Scorsese (com direito a longos planos-sequência, travellings, closes acelerados, e até uma pequena participação de Robert De Niro como um mafioso), o cineasta David O. Russell confirma novamente sua principal virtude: o talento para a direção de atores. Assim como em “O Vencedor” e “O Lado Bom da Vida”, O.Russell consegue tirar excelentes atuações de seu grande elenco: Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e com destaque para a caracterização física de Christian Bale.

Com uma trama inspirada em fatos reais sobre golpistas que são obrigados a trabalhar em uma operação secreta do FBI, passada nos anos 70, o diretor realiza um retrato tragicômico da decadência do sonho americano, mostrando a desilusão da população em relação aos políticos e a sua própria nação. Afinal, essa é era do pós-guerra do Vietnã e mancha histórica deixada pelo caso Watergate. Esse viés político é representado de forma muito interessante na figura do prefeito interpretado por Jeremy Renner, que mesmo repleto de boas intenções acaba recorrendo a meios escusos para realizar seus projetos. Outra ótima atuação do longa, que poderia ter sido mais lembrada nas premiações recentes.

Amy Adams;Jennifer Lawrence

Na relação com a obra de Scorsese, “Trapaça” acaba se aproximando justamente de seu mais recente trabalho, “O Lobo de Wall Street”. Pois o filme coloca o espectador diante de um fato real encenado em uma atmosfera de farsa e de artificialidade. Com seus penteados, figurinos e direção de arte espalhafatosa, O. Russell compartilha da tendência ao exagero caricatural de “O Lobo de Wall Street”. A diferença é que Scorsese leva sua opção ao extremo, atingindo um nível que beira a insanidade, enquanto em “Trapaça”, esses momentos ocorrem apenas esporadicamente. Isso acaba prejudicando o filme, pois essas sequências, como o surto do agente do FBI interpretado por Cooper ou quando Lawrence realiza uma coreografia ao som de “Live and Let Die”, de Paul McCartney & Wings, para fazer a faxina de sua casa, acabam soando deslocadas do conjunto.

Ainda que possua outros defeitos, como sua longa duração que acaba interferindo no ritmo, o resultado final de “Trapaça” é positivo. Seu roteiro de reviravoltas é bem amarrado (como é de se esperar em um filme sobre golpes) e muito bem-humorado. Talvez o filme não possua a importância ou a profundidade que aparentemente lhe vem sendo atribuídas, mas é um trabalho extremamente competente e, acima de tudo, divertido.

 


Gloria
Gloria – Dir. Sebastián Lelio – 2013

Cada vez mais a média da produção cinematográfica se mostra voltada para um público jovem, geralmente adolescente. Com isso, o número de obras que dialogam com uma plateia mais madura, e que abordam temas relacionados a essa parcela dos espectadores, se torna mais escasso. Algo que resulta não só no desinteresse por parte desse público, como cria dificuldades para que atores mais velhos, inclusive os mais renomados, encontrem bons papéis protagonistas. Por esse motivo, é ainda mais gratificante assistir a um longa como o chileno “Gloria”, de Sebastián Lelio.
A trama do filme mostra o cotidiano da personagem-título, uma mulher na casa dos 50/60 anos, divorciada há 12, que divide seu tempo entre o trabalho, o relacionamento com os filhos e as baladas que frequenta para flertar e saciar o seu prazer pela dança. É em uma dessas saídas noturnas que Gloria conhece Rodolfo, homem também divorciado, com quem inicia uma relação intensa, porém conturbada.

“Gloria” é um típico estudo de personagem, em que o sucesso da proposta depende essencialmente de sua intérprete, e o diretor Lelio não poderia ter encontrado uma melhor do que a atriz Paulina García. Em uma atuação premiada no último Festival de Berlim, a chilena se agarra corajosamente ao papel, apresentando uma composição cheia de sutilezas e de entrega total, emocional e fisicamente, pois Lelio explora a alma e o corpo de Gloria na mesma proporção. Além de uma magnífica protagonista, o filme de Lelio possui outros méritos, como personagens coadjuvantes interessantes, uma condução segura e capaz de gerar belos momentos visuais e dramáticos, como na sequência do Cassino, e também um ótimo trabalho musical. A trilha sonora (que inclui músicas de artistas brasileiros, como Tom Jobim e Rita Lee) é fundamental para delinear as emoções de Gloria e o desenvolvimento da história.

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O cineasta encontra ainda espaço para traçar um paralelo entre o momento da vida de Gloria e o momento sócio-político de seu país. Assim como quase todas as nações sul-americanas, o Chile também passa por mudanças, com sua juventude indo às ruas e lutando por seus direitos. E seja com uma reportagem na TV, uma passeata ou um panelaço realizado pelos moradores dos prédios de Santiago, este clima de mudança está sempre presente como pano de fundo do filme. Como cita um dos personagens, um sociólogo amigo de Gloria, o Chile da atualidade não possui uma identidade definida. É uma réplica do passado que conflita com os novos tempos e com a cultura de sua população mais jovem. O mesmo acontece com Gloria, que busca se reencontrar, se reinventar, seja no amor ou no modo de encarar sua vida, mas passa por dificuldades para se afirmar nesse novo espaço. E acompanhar os percalços e descobertas desta jornada da personagem é o grande prazer gerado pelo filme.

 

 

Fita AzulA Fita Azul – Dir. Rebecca Thomas – 2012

A sinopse de “A Fita Azul”, elogiado trabalho de estreia na direção da atriz Rebecca Thomas, é inusitada e interessante: em uma pequena comunidade mórmon norte-americana, a jovem Rachel, de 15 anos, descobre uma antiga fita K-7 de cor azul no porão de sua casa. Ao ouvir uma versão da canção “Hanging on the Telephone”, do Blondie, interpretada por uma voz masculina, Rachel descobre estar grávida, mesmo ainda sendo virgem. A garota acredita que a gravidez seja resultado da vontade divina, e que o dono da voz na fita seja o homem destinado a ser seu marido. Os pais de Rachel, por sua vez, desconfiam de um incesto praticado pelo irmão, expulsam o garoto da comunidade e arranjam um casamento forçado para a filha. Diante da situação, Rachel foge pelo deserto na caminhonete da família rumo à Las Vegas, onde acredita que irá encontrar o cantor da fita azul.

A diretora de primeira viagem consegue manter o interesse de sua trama peculiar, através de uma jornada de descobertas, e auxiliada pelo carisma de seus atores, em especial Julie Garner no papel de Rachel e Rory Culkin, como Clyde (em uma referência clara ao clássico personagem de “Bonnie & Clyde”), um jovem delinquente que cruza o caminho da garota grávida. Thomas ainda acerta em suas escolhas visuais, com alguns planos muito bem concebidos, mas falha ao optar por uma narrativa de leveza excessiva, que evita se aprofundar nos temas polêmicos que levanta. E não necessariamente por sua opção de não explicar a natureza sobrenatural da gravidez de Rachel, já que isso se mostra um acerto, deixando um bem-vindo espaço para a imaginação do espectador. Mas sim por tratar superficialmente tópicos com grande potencial dramático, como religião, preconceito, fé, ou até mesmo amadurecimento de sua personagem principal.

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Mesmo que pretenda ser um filme de formação, seguindo a fórmula dos road movies, as mudanças drásticas ocorridas na vida de Rachel são pouco exploradas. Nem mesmo o contraste entre a vida na cidade das luzes e do pecado (Vegas) e na aldeia mórmon ganha o destaque merecido.

Apesar de sua embalagem indie, “A Fita Azul” termina sendo um produto bem convencional e comercial. Um produto agradável, simpático e divertido, é verdade, mas que sabota sua aparente pretensão (e potencial) inicial de oferecer algo diferenciado.

 

 

Grande NoiteA Grande Noite – Dir. Gustave de Kervern e Benoîte Delépine – 2012

“A Grande Noite”, dos franceses Gustave de Kervern e Benoîte Delépine, mostra a relação entre dois irmãos, Not (Benoîte Poelvoorde) um punk de 40 anos, que vive vagando pelas ruas acompanhado de seu cachorro, e Jean-Pierre (Albert Dupontel) um vendedor de uma loja de colchões, que enfrenta problemas em seu trabalho e também em seu casamento, com a esposa lutando pela guarda de sua filha recém-nascida. Seguindo o estilo de seus trabalhos anteriores, como “Mamute”, a dupla de cineastas adota um tom que beira o surrealismo, mas que poderia ser melhor definido como grotesco.

Com seus personagens excêntricos e situações bizarras, os filmes de Kervern e Delépine por vezes lembram o trabalho do norte-americano John Waters. Assim como o realizador de “Pink Flamingos”, a dupla francesa também tende a retratar o cotidiano das classes mais baixas e suas figuras marginalizadas, excluídas, através do humor. Um humor que em grande parte do tempo provoca um riso diferente, incômodo. Em “A Grande Noite”, os cineastas trabalham em uma chave claramente política, situando praticamente toda a ação do longa em um centro comercial de outlets, lojas de departamentos e alimentação, para atacar os efeitos do capitalismo. Ao assumir seu posicionamento de crítica social, o filme até consegue elaborar questionamentos pertinentes sobre a crise econômica europeia atual, sobre o consumismo, sobre a vigilância exercida pelos altos escalões ou sobre a alienação da classe média e sua passividade ao não se unir e não se rebelar contra o sistema.

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O problema de “A Grande Noite”, assim como dos filmes anteriores da dupla, é atingir apenas um meio termo. E isso se dá pela clara indecisão dos diretores. A começar pelo contraste entre a essência surreal de sua trama/personagens e a estética realista e crua utilizada no longa, que causa um ruído em sua comunicação. Além disso, o discurso crítico por vezes se confunde com o simples deboche. E seus personagens, apesar de chamarem a atenção por sua excentricidade, quase sempre se mostram unidimensionais, em especial os coadjuvantes, como os pais dos irmãos protagonistas.

Com isso, Kervern e Delépine terminam criando sua própria armadilha, pois os elementos visivelmente interessantes de seu trabalho acabam não conseguindo atravessar sua embalagem artificial de bizarrices e estranhezas. Assim como Not e Jean-Pierre, que se vêem aprisionados em um microuniverso capitalista, os cineastas também parecem se isolar em sua busca por um estilo autoral, impedindo muitas vezes que o público também faça parte de seu universo particular. E enquanto não perceberem a importância desse envolvimento da plateia, Kervern e Delépine nunca conseguirão realizar uma obra plenamente satisfatória.

 

 

Olhos de MaisiePelos Olhos de Maisie – Dir. Scott McGehee e David Spiegel – 2012

“Pelos Olhos de Maisie”, da dupla Scott McGehee e David Spiegel (“Até o Fim”), adapta o livro homônimo de Henry James sobre a disputa judicial entre um casal recém-separado, pela guarda de sua jovem filha, Maisie. Ao atualizar a trama para os dias atuais, já que o livro de James foi publicado em 1897, McGehee e Spiegel realizam diversas alterações no texto original, mantendo apenas a sua essência sobre os efeitos traumáticos de uma separação na vida de uma criança. Nessas alterações, as figuras dos pais acabam sendo menos desenvolvidas do que deveriam, mas, ainda assim, Julianne Moore e o britânico Steve Coogan conseguem dar dignidade a seus papéis, como pais que, apesar do amor pela filha, mostram-se egocêntricos e visivelmente despreparados para a vida em família, preocupados mais em trocarem provocações do que com o bem-estar de sua filha.

Mesmo com suas imperfeições, o filme acerta no tom, sem soar superficial demais e sem pesar a mão no melodrama. Em meio ao sentimento de incredulidade gerado pela negligência e pelas atitudes irresponsáveis dos pais, ainda há espaço para momentos de leveza, especialmente quando entram em cena os carismáticos personagens de Joannna Vanderham e Alexander Skarsgård, figuras que criam um grande afeto pela garota. Mas o grande trunfo do longa é mesmo a jovem revelação Onata Aprile, no papel de Maisie. Com naturalidade e um olhar que transmite uma constante melancolia, Aprile consegue com que o público perceba o amadurecimento forçado da personagem com poucas palavras e muita expressividade.

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Assim, a jovem atriz foge do estereótipo de “criança prodígio que age como um adulto”. Independente de sua pouca idade, Maisie parece ter consciência de tudo que a rodeia, mas reage a isso como uma criança real, emocionando por mostrar sua fragilidade de maneira verdadeira, sem exageros. E para um filme que desde o título se propõe a oferecer uma experiência através de um olhar infantil, essa atuação natural é fundamental para um bom resultado.

 

 

Grand CentralGrand Central – Dir. Rebecca Zlotowski – 2013

Um dos melhores filmes exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2013, “Grand Central”, segundo longa da diretora francesa Rebecca Zlotowski (“Belle Épine”), confirma o talento de sua realizadora, apresentando uma mise en scène crua e direta, que por vezes lembra os melhores momentos de sua compatriota, Claire Denis.

Através da trama que narra um romance proibido entre dois jovens, Gary (Tahar Rahim, de “O Profeta”) e Karole (Léa Seydoux, de “Azul É a Cor Mais Quente”), que trabalham em uma usina nuclear no interior da França, Zlotowski retrata a crise econômica europeia pelos olhos de uma parcela da população de seu país que vive às margens do rio que rodeia a comunidade, e também às margens da sociedade. A imagem das torres da usina, sempre ao fundo da paisagem, se torna uma ameaça, um lembrete constante da vida contaminada dessas pessoas e dos riscos de uma paixão avassaladora, filmada pela cineasta com extrema urgência, explorando de forma intensa os corpos de seu casal protagonista.

Esse caráter urgente permeia todo o longa, em que o passado de seus personagens, em especial o de Gary, surge sempre nebuloso e o futuro permanece incerto e misterioso. Com isso, Zlotowski fixa-se com todas as suas forças no presente tumultuado e desesperançoso, repleto de sentimentos conflitantes dos habitantes de seu universo particular. Um universo que apresenta reviravoltas dramáticas consistentes, onde potenciais vilões são humanizados e heróis tornam-se cada vez mais dúbios moralmente. Essa inversão de expectativa é feita com naturalidade e sem pré-julgamentos em relação aos personagens, mantendo intacta a sua complexidade.

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Com um estilo seco e pessimista, Zlotowski mostra que uma paixão pode ser tão intoxicante quanto o material radioativo de uma usina nuclear. O amor pode ser perigoso, pode ser letal. Como deixa claro em seu plano derradeiro, o som opressor do sinal de alerta de contaminação da usina, que permanece ecoando na mente do espectador durante e após os seus créditos finais.

 

 

Menino e o MundoO Menino e o Mundo – Dir. Alê Abreu – 2013

Não só dentro da produção nacional, mas de modo geral no cenário de seu segmento, “O Menino e o Mundo”, segundo longa de Alê Abreu (“Garoto Cósmico”) surge como uma das mais belas animações do cinema recente. Partindo da simplicidade do traço utilizado para representar seu personagem principal, e da singela história de um garoto que parte para a cidade grande em busca do pai, que deixou a fazenda da família atrás de trabalho e de obter melhores condições de vida para mulher e filho, Abreu utiliza diversas técnicas de animação (aquarela, giz de cera, lápis pastel e recortes) para contar sua fábula em um tom extremamente poético. A trama reserva momentos realmente tocantes, incluindo uma virada narrativa inteligente e inspirada, que surge de forma natural no longa.

Aliado ao incrível trabalho de composição visual, o cineasta conta também com um cuidadoso estudo sonoro, que inclui uma trilha musical marcante a cargo de diversos artistas dos mais variados estilos, como Naná Vasconcelos, Emicida, Os Barbatuques e GEM – Grupo Experimental de Música. Ao optar por uma narrativa fantasiosa, aproveitando a criatividade e a imaginação do universo infantil, Abreu torna seu trabalho atemporal e ainda abre brechas para fazer críticas sociais sobre o consumismo e a desigualdade de classes.

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Essa capacidade de mesclar gêneros e temas com tanta sensibilidade, coloca “O Menino e o Mundo” ao lado dos melhores momentos da Pixar, e de outros grandes nomes da animação mundial, como o japonês Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”), o francês Sylvain Chomet (‘O Mágico”) ou o holandês Michael Dudok de Wit (“Pai e Filha”). Mesmo com as comparações sendo pertinentes, outro dos grandes méritos da animação é exatamente buscar ser um produto único, com uma identidade própria. Isso fica claro não só nas escolhas estéticas, como também na opção por utilizar o “português ao contrário”, como idioma dos raros diálogos da projeção. Esse artifício, além de tornar a experiência ainda mais lúdica, também sintetiza o resultado final deste trabalho, que apresenta características e elementos tipicamente brasileiros, mas consegue atingir a todos os tipos de público, através da linguagem mais universal que existe: a dos sentimentos.

 

 

Filha de Ninguém (1)Filha de Ninguém – Dir. Hong Sang-soo – 2013

É bem raro que três longas de um mesmo diretor cheguem aos cinemas brasileiros no mesmo ano, como foi o caso do sul-coreano Hong Sang-soo em 2013. Depois dos ótimos “Hahaha” e “A Visitante Francesa”, Sang-soo lança “Filha de Ninguém” o melhor dessa trinca. Continuando a trabalhar temas como os relacionamentos, a solidão e as desilusões amorosas, o cineasta apresenta mais uma vez uma narrativa fragmentada, marcada por seu estilo naturalista de longos planos sem cortes, com zooms rápidos e repentinos, para tratar do envolvimento da bela jovem Haewon com seu professor (e também diretor de cinema, elemento recorrente nos filmes de Sang-soo), Sung-Joon.

Da 7ª Sinfonia de Beethoven que o professor escuta em um velho toca-fitas, passando pelos cenários de templos, fortes, bustos de personagens históricos e bibliotecas, tudo faz com que “Filha de Ninguém” seja um filme sobre o passado, sobre o valor das memórias, sejam essas memórias quase esquecidas ou as que ainda deixaremos como herança na mente de outras pessoas. Os diálogos que vão das situações mais triviais a análises filosóficas, aliados a momentos que flertam com a fantasia, como o encontro da jovem com a atriz Jane Birkin ou o personagem do professor que vive nos Estados Unidos, ajudam a consolidar a imagem de quebra-cabeças de sua trama.

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O cinema de Hong Sang-soo definitivamente não apresenta respostas fáceis, deixando muito espaço para interpretações e reflexões. Mas sua proximidade com temas tão cotidianos e de fácil identificação, nunca deixa que seus filmes soem prepotentes ou vazios. Pelo contrário, a experiência é sempre agradável, com seu aparente desapego formal escondendo uma bem calculada mise en scène. E este melancólico “Filha de Ninguém”, que encanta pela espontaneidade e fragilidade, assim como sua personagem principal, é mais um belo exemplo da habilidade de seu diretor.

Por Leonardo Ribeiro


Philomena – Dir. Stephen Frears – 2013

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Após ser demitido de seu cargo no Labour Party britânico, em meio a um grande escândalo, o assessor político Martin Sixsmith (Steve Coogan) se vê obrigado a retomar sua antiga carreira como jornalista. Sem espaço para escrever um sonhado livro sobre a história da Rússia, Martin acaba encorajado por uma editora a escrever um artigo de interesse humano e encontra a história perfeita ao ser abordado por uma jovem, cuja mãe havia acabado de lhe revelar um segredo guardado há mais de 50 anos. Quando adolescente, Philomena Lee (Judi Dench), engravidou de um jovem rapaz que conhecera em um parque de diversões. Abandonada pela família e levada para o convento das Irmãs de Maria Madalena, a garota foi tratada como uma pecadora, sendo obrigada a pagar sua estadia com trabalhos quase escravos e tendo seu filho tirado de seus braços para ser vendido para adoção a um casal norte-americano.

Baseado nesta história real, contada por Sixsmith no livro “The Lost Child of Philomena Lee”, o cineasta Stephen Frears (“Os Imorais”, “Ligações Perigosas”, “Coisas Belas e Sujas”, “Alta Fidelidade”) aposta na simplicidade para narrar a comovente trajetória da personagem principal na busca por seu filho perdido. Simplicidade essa que emana de Philomena. Não em seus traumas e conflitos morais, que são bem complexos, mas na maneira como a encantadora velhinha irlandesa se relaciona com todos ao seu redor. Philomena transmite uma inocência pura, como se houvesse criado para si um escudo de proteção do mundo externo, resultado dos abusos sofridos no convento e de sua religiosidade. Assim, se a personagem demonstra simpatia e afeto por todos que cruzam o seu caminho, é porque está tentando tratar o próximo exatamente da maneira oposta à qual foi tratada durante boa parte de sua vida.

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Todas essas características da personalidade de Philomena são representadas com perfeição, através da sublime atuação de Judi Dench. A dama do cinema britânico oferece uma interpretação que também aparenta ser simples, no melhor sentido da palavra. Sem grandes artifícios (maquiagem, figurino, etc.) ou maneirismos para compor sua personagem, Dench é capaz de transmitir uma gama enorme de sentimentos apenas através de seus expressivos olhos azuis, de pequenos gestos ou na entonação de voz. Sem nunca cair no exagero, Dench transita com naturalidade por momentos bem-humorados, como quando reconta para Martin toda a trama de um romance barato que está lendo, ou momentos de fúria, como na série de discussões religiosas e existencialistas que tem com o cético jornalista, até os mais emotivos, como na mais bela sequência do filme, quando a personagem desaba emocionalmente ao chorar dentro de um confessionário. Uma cena chave para o filme, pois é quando pela primeira vez, Philomena coloca em cheque suas crenças e todo o seu modo de vida.

Como todo bom filme de “duplas inusitadas”, é preciso que a outra parte seja oposta e complementar. Esse papel é preenchido de forma brilhante pelo comediante Steve Coogan, extremamente popular na Inglaterra (em especial por seus trabalhos com o cineasta Michael Winterbottom), mas ainda não tão reconhecido fora de sua terra natal. Coogan interpreta Martin com cinismo e arrogância na medida exata para se tornar um contraponto à Philomena, mas sem criar antipatia com o público. Pelo contrário, com seu ateísmo e humor afiado, que algumas vezes se perde em meio à tradução das legendas, Coogan faz com que o jornalista represente os sentimentos e desejos da plateia ao presenciar as atrocidades sofridas por Philomena.

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Na direção, Frears se recupera do fraco “O Dobro ou Nada”, conduzindo tudo sem virtuosismo, buscando não chamar a atenção para si e contando sua trama de forma enxuta. O diretor até apressa um pouco a apresentação dos personagens e a exposição da premissa, para já colocar Philomena e Martin juntos, viajando para os EUA atrás do filho, mas desenvolve tudo de maneira bastante envolvente. Utilizando pequenos detalhes para dar significados às suas cenas, como um leve toque de mãos entre Philomena e Martin em seu primeiro encontro, a bacia de água benta não tocada pela irlandesa ou a imagem do santo pendurada no espelho retrovisor do carro, Frears acerta no tom do longa, que nunca soa superficial demais ao mesmo tempo em que mantém uma leveza em relação ao tema pesado e às denúncias que realiza. É interessante também a maneira como Frears trabalha com as reviravoltas que a investigação sobre o paradeiro e identidade do filho perdido reservam, especialmente na reação de Philomena a essas surpresas. A personagem também surpreende nesses momentos, mostrando-se muito mais liberal do que sua postura conservadora poderia aparentar. Novamente deve-se elogiar o trabalho de Dench, que já havia sido dirigida por Frears anteriormente em “Sra. Henderson Apresenta”, outra atuação que lhe valeu uma indicação ao Oscar.

Em seu ato final, Frears cede a algumas convenções, como a necessidade de dar um rosto ao “vilão” da história na figura da Irmã Hildegarde, diretora do convento, o que tira um pouco o foco da instituição como um todo, essa sim, a verdadeira culpada. De qualquer forma é algo que não afeta o resultado de “Philomena” e de sua mensagem. A mensagem de que o fanatismo religioso, independente de qual seja a religião, deturpa o estado puro da fé. Pois a fé, em seu significado mais amplo, de crer em algo, de ter perseverança e esperança, possui um grande poder e é fundamental para atingir qualquer objetivo de vida. Essa é a lição de Philomena para Martin e para todos nós.

Por Leonardo Ribeiro

 

 


Ela – Dir. Spike Jonze – 2013

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Nos anos 90, o norte-americano Spike Jonze tornou-se um dos principais nomes do mundo dos videoclipes. Responsável por vídeos icônicos, como “Sabotage” dos Beastie Boys, “Buddy Holly” do Weezer, “Praise You” e “Weapon of Choice” do Fatboy Slim, Jonze passou a ser reconhecido como um dos mais criativos e inovadores profissionais da área. Criatividade que o acompanhou em sua transição para o cinema, e que permanece intacta em seu quarto e mais recente longa-metragem, “Ela”. Após dois trabalhos cultuados em parceria com o roteirista Charlie Kaufman (“Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”) e “Onde Vivem os Monstros”, uma adaptação do livro infantil de Maurice Sendak, Jonze trabalha a partir de um roteiro próprio e original pela primeira vez.

Na trama de “Ela”, situada em um futuro não definido, mas também não muito distante, acompanhamos a trajetória de Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor de “cartas feitas à mão”, que vive um dia a dia solitário, como demonstra seu grande apartamento quase sem mobília, e ainda enfrentando os traumas deixados pelo fim de seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Após assistir a uma publicidade no caminho para o trabalho, Theodore adquire um novíssimo software para controlar suas tarefas diárias. Um sistema que promete ser muito mais moderno e inteligente, capaz de manter uma interação quase humana com seu usuário.

Aos poucos, o S.O (Sistema Operacional), chamado Samantha e dono da voz rouca e sexy de Scarlett Johansson, começa a criar sentimentos aparentemente humanos em relação a Theodore, demonstrando um afeto que é correspondido pelo escritor e que o leva a se apaixonar pela voz que parece compreendê-lo como ninguém havia compreendido até então. Mas seria essa paixão real? Samantha estaria mesmo desenvolvendo sentimentos humanos ou tudo não passaria de uma representação artificial implantada pelos criadores do sistema?

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Essas são apenas as questões iniciais levantadas pelo filme, que se aprofunda muito mais no modo como o ser humano encara o amor e os relacionamentos. A princípio as respostas podem parecer fáceis. Theodore é um homem introspectivo, que ainda não se recuperou de um término de casamento e que cria para si dificuldades para se relacionar com outras mulheres, o que tornaria compreensível o seu apreço por Samantha, um sistema que possui uma capacidade além da humana de raciocínio, que tem acesso a todos os dados sobre a vida de Theodore, e que, como sendo um objeto de posse do personagem, teria a obrigação de agradá-lo.

Mas Jonze narra tudo com uma sensibilidade extrema, que nos faz crer durante todo o tempo que esta relação é sincera, verdadeira. E isso se deve a um conjunto de escolhas acertadas do diretor e de seu elenco, começando pela representação do futuro proposta pelo cineasta. As luzes dos prédios da grande metrópole à noite (a trama se passa em Los Angeles, mas o longa foi rodado em Xangai). Os ambientes cleans e minimalistas, a fotografia composta por cores de tom sépia, e os figurinos retrô seguem uma tendência que já acompanhamos atualmente, mas Jonze toma o cuidado de nunca se tornar “hipster” demais, para que um público mais amplo ainda consiga se identificar que este universo. A tecnologia, apesar de muito mais avançada, não nos parece impossível. Afinal, hoje em dia já é comum vermos as pessoas a nossa volta caminhando e falando em celulares através de fones, realizando afazeres profissionais e pessoais em seus iPhones, etc. Tudo isso faz com que, mesmo sendo futurista, o filme transmita uma sensação de realismo.

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Jonze abre espaço para a reflexão sobre a relação do homem com a tecnologia, que ao mesmo tempo em que rompe fronteiras para a aproximação, acaba isolando e afastando muitas pessoas do convívio social. O acerto do diretor é nunca julgar essa relação, pois para ele, não há como ter garantias de que a pessoa que está andando de mão dadas com seu parceiro pelas ruas seja realmente mais feliz do que aquela que está em um chat online, através de seu celular. Outro acerto do filme está na construção do personagem de Theodore. Mesmo que demonstre dificuldades para se relacionar novamente com uma mulher, como no encontro arranjado por amigos com a personagem interpretada por Olivia Wilde, Theodore nunca é mostrado como um antissocial de forma exagerada. À sua maneira, tímida, o escritor consegue manter amizades no trabalho e com colegas de faculdade, como Amy (Amy Adams).

O trabalho de Phoenix na pele de Theodore é impecável. Através de uma composição que vai de trejeitos sutis, ao visual de bigode e óculos de armação grossa, o ator entrega uma atuação sensível e melancólica, mas que também guarda momentos de bom-humor, por vezes até escrachado, como na cena em que faz sexo virtual, com direito a um desfecho bizarro, através de um bate papo. Ou nas sequências em que interage com um desbocado personagem de seu jogo favorito de videogame. Louvável também é o trabalho de Scarlett Johansson, que mesmo limitada por utilizar apenas a sua voz, consegue transmitir todos os dilemas de Samantha ao incluir pequenos toques de humanidade em suas falas, como gaguejar ou suspirar entre as palavras, algo que é questionado por Theodore e que gera a primeira briga do casal. Mesmo sem estar fisicamente na tela, é possível sentir a presença de Johansson em cena, e isso é fundamental para que o público possa entender o que Theodore sente. A sequência da primeira “transa” dos personagens é o exemplo perfeito dessa conexão, e ganha ainda mais força através do toque de gênio de Jonze ao deixar a tela totalmente preta, para que possamos apenas ouvir o momento catártico de prazer entre Samantha e Theodore.

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O diretor ainda consegue aproveitar muito bem o talento musical de Johansson em uma das mais belas cenas de “Ela”, quando Samantha e Theodore (tocando ukelele) interpretam a canção “The Moon Song”, composta pelo próprio Jonze e por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs. Aliás, a trilha sonora composta pelo grupo Arcade Fire, com quem o cineasta já havia trabalhado no clipe de “The Suburbs”, também merece destaque, sempre atmosférica e delineando com perfeição as emoções do longa.

Sem optar por soluções óbvias ou clichês, “Ela” consegue fazer refletir e encantar na mesma medida. A conclusão de Jonze é que o amor sempre será baseado naquilo que projetamos sobre e em relação ao outro. “O passado não é nada além das histórias que contamos a nós mesmos”, diz Samantha em uma de suas conversas com Theodore. Nossas memórias, assim como nossos amores, são sempre idealizadas de alguma forma. Da mesma maneira que os sentimentos dos clientes de Theodore são idealizados através das palavras nas cartas escritas pelo personagem. Algo que não torna essas memórias e sentimentos menos reais, mas apenas representações pessoais de como encaramos essa realidade.

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A paixão de Samantha por Theodore vem daquilo que este ensina e mostra a ela. Coisas que, mesmo com seu sistema avançado, ela não poderia compreender. Ele, por sua vez, se encanta por alguém com esta sede por conhecimento, por novas experiências, descobertas e emoções, e sente-se realizado por transmiti-las a Samantha. Essa troca de experiências é o que faz com que possamos evoluir. E aí, ao utilizar a tecnologia, algo que vive em constante evolução, como um de seus elementos principais, Jonze amarra a sua metáfora de forma brilhante. Crescer e se desenvolver ao lado de alguém pode, com o passar do tempo, se tornar extremamente difícil, mas sempre continuará a ser o maior dos prazeres de estar apaixonado.

Por Leonardo Ribeiro